11.7.07

arquivos outubro 2006

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

PÉS DESCALÇOS
Nunca fui de perder coisas. As coisas é que costumam se perder de mim. Quando pequena, perdi o par de tênis amarelo da minha Barbie. Eu já não gostava muito dela justamente porque usava tênis. Era uma Barbie esportiva e eu não conseguia entender o que deu na cabeça do meu pai para comprar uma Barbie esportiva. Eu gostava mesmo era das Barbies glamourosas, de longos e brilhantes vestidos cor-de-rosa. Ele me deu a Barbie pouco antes da mudança e eu fiz questão que ela fosse de caminhão. Não ocuparia o lugar dos brinquedos privilegiados, que atravessariam a jornada entre Porto Alegre e Florianópolis ao meu lado, no carro. Quando chegamos ao destino e os transportadores largaram a caixa de brinquedos em meu quarto, corri trêmula até ela, com um pressentimento feminino que se manifestava precoce demais para uma menina ainda tão menina... Mas ufa, a Barbie estava lá. Mas não os tênis. A boneca estava descalça. E pior do que uma Barbie esportiva, era uma Barbie esportiva sem tênis. Sem sentido. Sem razão. É claro que me culpei, é claro que passei o resto dos anos observando a boneca descalça e me condenando pelo descaso. Os pés nus eram prova do meu espírito desavergonhado. Testemunhas das minhas primeiras escolhas imorais.
Perdi algumas outras coisas depois disso. Brincos de ouro na piscina de bolinhas do Iguatemi (de cada par guardo a peça que se salvou). O Mundo de Sofia (da vez que li guardo a surpresa da identificação). O cd do Paralamas do meu irmão (da qual fui acusada, mas até da própria perda perdi a memória). E perco o ônibus praticamente todos os dias. Perdas, perdas, perdas. Inexplicáveis, inaceitáveis, imperdoáveis perdas. Continuo desconfiada de que as coisas é que se perdem de mim.
E para onde foi tudo o que da minha guarda escapou? Quais outros pés os tênis amarelos vestiram? Que outra menina contemplou, desconsolada, um brinco sem par? Que outro leitor se viu dentro do mundo que guardava o Mundo de Sofia? Quais outras vidas os Paralamas embalaram? Eis que a razão da perda está no encontro.
Perdi tão poucas coisas que lembro de cada uma delas com dor. Sou taurina a ponto de manter as gavetas entupidas de mim, por medo de esquecer o que sou. Guardo pedaços do mundo para entregar aos meus filhos. Recolho as perdas dos outros com pesar. Volto três vezes para me conferir. Espio embaixo da cama para me achar.
Porém, entre todas as coisas que nunca perdi, há uma que adoraria esquecer em algum banco de metrô: o medo de perder. A proteção que criei em torno do que é supostamente meu. Perder é mudar, perder é transformar, perder é, acima de tudo, renovar. Tem coisa que a gente perde e parece que não era para perder. Mas era, sim. Quando perdemos, recriamos a perda. Recauchutamos o velho. Renovamos o ar. Quando perdemos, reviramos tudo de cabeça para baixo e, depois, nada volta para o mesmo lugar. Perder o medo de perder queima calorias. Faz sentir mais leve. Alivia o peso nas costas. Equilibra a pressão. Perder o medo de perder faz andar mais longe e enxergar melhor. Perder o medo de perder faz olhar para os lados e ainda por cima aumenta as chances de esbarrar na felicidade (assim mesmo, por acaso). Perder o medo de perder faz a gente andar descalços na areia e correr contra o vento, perdendo apenas o que já não se tem.
Ter coragem para perder faz encontrar o que nem ousávamos procurar. Mas que certamente alguém deixou cair.

terça-feira, 24 de outubro de 2006

ILYA GRINGOLTS, EU, MEU PAI, DEUS E A IMORTALIDADE
Nascido com extraordinário dom musical em São Petersburgo, Rússia, Ilya Gringolts foi o ganhador do Prêmio Internacional de Violino "Premio Paganini" em 1998, aos 16 anos de idade. Gringolts venceu também dois prêmios especiais entregues na final da competição para o mais jovem competidor e para o melhor intérprete de Caprices. Ele estudou violino e composição na St. Petersburg Special Music School com Tatiana Liberova e Jeanna Matalldi; na Juilliard School, em Nova Iorque, com Itzhak Perlman e a falecida Dorothy Delay. Gringolts também figurou entre os doze jovens artistas selecionados pela BBC para o Programa Artistas da Nova Geração.

Eu e meu pai assistimos, em homenagem ao seu aniversário, ao concerto do violinista Ilya Gringolts, um "rapazote" de 24 anos, que me levou (eu e uma centena de pessoas) às lágrimas, na noite de ontem.
Confesso que entendo pouco ou quase nada de música clássica, mal dedilho o teclado do computador e as minhas escolhas são todas feitas pela emoção. Amo música clássica e o amor me basta, enquanto não desenvolvo um conhecimento mais consistente.
Entretanto, aos primeiros sons daquele violino... Minha alma fechou meus olhos para poder enxergar melhor tamanha beleza.
Quando escuto música clássica, não consigo desligar o pensamento de uma coisa: como pode?
Como pode uma perfeição tão absurda e quase dolorosa?
Como pode um cérebro criar o que nem a alma consegue alcançar?
O que acontecia na cabeça destes homens? No coração destes homens? Na genética? No espírito? Na vida destes seres que desafiavam a própria Natureza?
A Natureza, sim, a Natureza.
Bach, Mozart, Chopin, Beethoven, Strauss, Wagner, Tchaikovsky...
Albinoni, Haydn, Liszt, Offenbach, Verdi, Mendelssohn, Villa-Lobos...
De onde saíram essas criaturas? De onde vieram? Para onde foram?
Não duvido que estejam todos sentados não somente à direita, mas por todos os lados de Deus.
E conversam sobre as pequenas e as grandes coisas do mundo.
E conversam sobre a existência.
(Assim como converso com meu pai, durante os intervalos do espetáculo)
E Deus os observa e sorri, muito satisfeito. Pois Deus negou a imortalidade ao homem. Mas o homem a criou. Em forma de arte.
Deus deve ter muito que aprender...

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

O AMOR COMO É
Quando tu encontra o amor, o amor mesmo, o de verdade, o que é teu e estava guardado, o que não tem erro nem acerto (tem média de sobra pra passar), aquele amor que ninguém teve coragem de te contar que existe, que tu descobriu nos filmes bobos, sonhou nos livros fracos, embalou nas músicas bregas, o amor que chega pisando forte, retumbando por dentro, o amor que te joga pra cima e tu parece que nunca mais vai acabar de cair, o amor que dá choque, que tu acha graça, o amor que te deixa esperando 1 minuto 47 segundos 8 milésimos cinco carros vermelhos três carros com placa final 3 e duas pessoas de blusa roxa, o amor que te inspira a mudar a cor do cabelo, o amor que nunca vai deixar de usar a blusa que tu odeia, o amor que tatua teu nome no coração, o amor que levanta a tua bandeira, o amor que adota teu candidato, que vota em ti, o amor que adora mar, o amor que volta e meia tenta parar de fumar, o amor que que faz só pra te provocar, o amor que provoca só pra se fazer, o amor que poderia ser hippie senão fosse tão chique, o amor que faz nhoque domingo e milk-shake dia 29, o amor que pensa que o P da TPM é PRÉ e não PERMANENTE (ora essa!), o amor que tem pena de cachorro e não muita de gente, o amor que é louco de ciúme e esquece de te ler, o amor que de longe te cuida, de perto te aninha, por perto te sabe, o amor que toca, que pega, que aperta, que agarra, que pensa que tu nem é de verdade, o amor que tem cheiro de banho com sabonete Natura, o amor que usa o Cat Stevens pra romanticamente te chamar de cabeça-dura, o amor que conhece tudo de um mundo que tu nem sonhava, o amor que sonha o mundopra ti morar, o amor que fala mansinho quando quer xingar, o amor que ri das próprias espinhas, que foge das tuas alucinações, o amor que não entende teus compromissos, o amor que não aceita tuas desculpas, que retruca todas as culpas, que devolve em dobro os chamegos, que cobra em triplo os beijos, o amor que não cabe em lugar nenhum, nem no texto nem no peito, e agora entra aquela música de fundo que tu e teu amor adoram, aquela que só os dois sabem, que foi testemunha dos momentos que só os dois viram, que só os dois sentiram, que só os dois viveram (como tudo até agora, aliás), quando tu encontra o amor, esse amor, aí, meu amor, o mundo é teu.

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

NAFTALINA
Que loucura essas eleições. No Brasil, Maluf, Collor, Clodovil.
Nos pampas, Aí, beleza?, Homem do Tempo e Mano Changes.
Isso mesmo: Changes.
O que foi isso? Protesto? Inovação? Alucinação?
Não sei se tenho capacidade suficiente para compreender. Ao mesmo tempo em que o povo inovou elegendo candidatos pra lá de exóticos, trouxe de volta uns e outros que, pelo amor de Deus, já deram muito mais do que tinham que dar. Pelo menos, toda essa ousadia na hora do voto proporcionou segundo turno aqui e em Brasília.
Olha, como dizem meus conterrâneos, não tá morto quem peleia.
E aviso aos navegantes: mulher também peleia. Ô, se peleia.
Enquanto isso a vida segue. Coração sobressaltado, unhas roídas e uma dúvida que não deixa de beliscar a alma: tanta ânsia por quê? Detesto desconfiar que para nada.
De um lado, o óbvio, o filme reprisado, a ladainha que todos já sabem de cor. De outro, a novidade que vem com um suspeito cheirinho de naftalina. Mas, com sorte, não passará de um cheirinho. Quem sabe a naftalina não esconde alguns planos e sonhos bem conservados e muito apropriados?
Mais um ditado, não do Sul, mas da Humanidade inteira: a esperança é a última que morre.

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não se nasce mulher, torna-se mulher [simone de beauvoir]