30.11.09
27.11.09
vamos
17.9.09
a tia do Samuel
Deixa eu ser sonho também
Quando temos um amor nos braços, o que fazer a não ser sonhar?
De olhos fechados cheiro tua pele
Acompanho teu olhar pelo céu
E quando chove tanto...
Canto pra ti aqui de longe
E teu chorinho nina meu sono
Entende, então, que maior sonho não há
Quando temos o Samuel nos braços, o que fazer a não ser amar?
24.8.09
me deixa
20.8.09
aperte o play
Ouço a voz e acho que não poderia ser outra. Quando os olhos passam acompanho e tenho certeza. Vêm as mãos e.
Sei que há dor nisso. Não se escapa de doer. Mas há um mundo todo que a dor emoldura. É preciso apenas não tocar nas bordas.
Se tocar, não escorrer.
Há uma pessoa para mim entre tantas que poderiam ser. Há uma pessoa e não importa a escolha. O medo importa, mas não impede nem diminui. Eu passei pela divisa. Nos desenlaçamos do perder. Nada embaça nossos olhos. Vamos. Vamos sem parar. Se algum dia pararmos, será porque nunca mais deixamos de ir. A pausa é necessária quando diante de um passo tão maior. E então nós nunca deixamos de ir.
Feliz aniversário. Feliz dia. Feliz vida.
6.8.09
é diferente
Que misto de incredulidade e pavor sinto a respeito da gripe A. As notícias me desesperam. Cuido obsessivamente as mãos. Eu tão acostumada a mordiscar a unha quando à toa. Quando tensa. Quando surpresa. Hesito ao encontrar as pessoas. Quase não cumprimento os amigos. Embora todos pareçam tão distantes de qualquer mal.
Ao mesmo tempo, pego ônibus. Vou aos cafés. Não perco aulas. Abraço e beijo sem parar os que amo. Não quero que sofram nada sem mim. Tenho o ingresso para o show do Roberto. E como não teria? E como evitaria viver? É um vírus e está no ar, em tudo, em todos. É como o próprio medo. E quem deixa de sentir.
Eu poderia ficar em casa e antecipar o futuro. Trabalhar pela internet. Comunicar-me pela internet. Eu posso fazê-lo. Posso mandar entregarem o rancho. O mundo, hoje, é feito para nos escondermos dele. Mas ele não deixa nunca de estar lá fora. Quando me escondo, os galhos da árvore batem em minha janela. E eu moro no terceiro andar.
A cada notícia de morte me desespero por um segundo ao pensar em ser a próxima. É como se antecipassem a ordem. Como meu corpo reagirá? Haverá tamiflu para mim? De que realmente as pessoas morrem? São uns espirros, uma febre e acabou? Uma gripe como tantas que tive na vida. Um vírus pairando. A morte no ar.
Eu sei que ela sempre está no ar. Mas é diferente.
24.7.09
Júlia e o seu destino
Minha Júlia,
Escrevo-te, para aliviar a pressão. Sei o quanto gostas de me ler. Fazes sempre parte das minhas letras, e não evito. Por isso queres tudo o que flui destas mãos. Tens razão em querer.
Vejo-te sentada no sofá. Tão tarde e ainda aí. Nunca foste de deitar cedo. Nem com ele. Vejo-te no sofá. A televisão em qualquer canal. Os lábios grudados na xícara de café vazia desde que a novela acabou. E lá se vai mais de uma hora.
Sei que estás sozinha e não queres ler nada triste. Nada é triste. Nem mesmo esse teu resto de café frio. Percebes? Tenho-te sentada no sofá, esperando o próximo programa antes de ir para a cama. Tenho teu medo de dormir. Não é triste. É só bonito.
Se pudesse, acariciaria teus cabelos. Gosto de ti assim. É preciso te observar de perto. Espremer os olhos para ver. As coisas te acontecem quase no tempo do não acontecer. Tua vida vai como um jazz. És tão melodiosa. Distorces, porém nunca, Júlia, destoas.
Não, isso não é ruim. Não balance a cabeça. Não me repreendas como farias ao teu velho pai. Não és de forma alguma monótona, minha Júlia. Já ouviste um jazz? Não franze tua testa. Escrevo-te para aliviar a pressão. Não para colocar-te em sobressalto. Para ti, quero somente paz.
Escrevo-te, Júlia, e é tão bom. Gosto do ritmo em que as coisas se dão. Teu ritmo é maior do que eu. Escrevo-te, mas teu ritmo veio pronto. Deleito-me, embora te enfureças, às vezes. Tu és, Júlia, mas entendo que não te enxergues.
Vê, ao menos, quantas histórias já temos. São todas as histórias de Júlia. Sorri. Não és triste. Nem serás. Eu prometo. No que depender de mim.
Amor,
A.
16.7.09
considerando
Chuva chuva chuva. Quase fico triste. Mas é tão bonito. Inverno no sul é coisa de cinema. De ficar olhando e sentindo e pensando nas coisas. As profundas. Não é melancolia. É maior. É quase compreensão.
Não fluem os textos longos. Meus dedos vão gelados. O teclar não aquece. Só luva de lã ou mão de namorado. Na falta dos dois, aqui, agora, escuto a chuva chovendo e chovo um pouco também.
Primeira pessoa é mera questão de querer. O sistema permite. O contexto aprova. É criar e chover onde quiser.
E a falta de dor, mais do que o frio, segue encolhendo palavras.
ps.: agora sou Especialista. Estudar também pode fazer sumir. Ou chover.
14.7.09
Faz de mim um medo. Faz de mim um sonho. Faz de mim a ponta da asa da borboleta azul. O que sou senão barro. Sujando teus dedos. Encruando em tuas unhas. Não saio nem no banho. E daí. Sorte de quem brinca. Azar de quem cresceu.
25.6.09
Júlia e o pai
– Pai, você tem de ir.
Mariana segurava o rosto do pai com as duas mãos suaves e o olhar firme. Júlia, sentada na cadeira da mãe, entrelaçava as pernas como se fossem de borracha, mordia os lábios como se fossem culpados. Pedro estava na porta da varanda, virado para a rua, tamborilando os dedos na madeira. Pedro chorava. Mariana disse:
– Olha o estado desta casa, pai! Desde que a mãe. Desde que ela. Você não cuida mais de nada, pai. Tudo sujo, quebrado, desfazendo-se a cada dia... – caminhava e apontava ao redor com as duas mãos. – Pai, nós não podemos ficar com você. Todos nós trabalhamos o dia inteiro e você ficaria sozinho. Como aqui. Sem ela. Sem ninguém. O senhor entende?
O pai baixou os olhos. Mariana perguntou a Pedro se ele concordava. O pai buscou o filho. Pedro tentou se virar, mas não pôde. Os ombros sacudiram. Tamborilou mais forte.
Mariana e o pai voltaram-se para Júlia. Mariana repetiu a pergunta. Se Júlia não achava a mesma coisa. Se o pai não ficaria melhor morando lá. Bem cuidado e em boa companhia.
– Em boa companhia? Eu não sei, Mari. Eu não sei mais.
Mariana riu e fechou os olhos por um instante.
– Você não sabe? Como assim, Júlia? E a nossa conversa de ontem? E as nossas conversas do mês inteiro? E aquele e-mail?
O pai suspirou.
Júlia olhou para ele. Para os cabelos todos brancos. Para o colarinho meio para dentro e meio para fora do suéter. Para as mãos entrelaçadas no colo, cobertas de vincos e manchas escuras. Desde quando elas tinham aquelas manchas? Será que o pai se queimara no fogão? Era sempre a mãe quem acendia o fogão e alimentava a chama no decorrer do dia. E agora aquelas manchas.
Júlia sentiu a força das mãos segurando sua cintura para que não caísse dos patins. Sentiu o calor delas quando seguraram as suas no dia de assinar a separação. Sentiu até o tapa que levou na bunda no dia em que empurrou Pedro pela escada por causa da boneca que ele cortara os cabelos.
Agora as mãos carregavam as duas alianças. A grande no anelar, no qual tinha lugar marcado. A pequena no mindinho. Tentando encaixar-se. Incomodando a cada tarefa. Estava ali. Talvez por isso o pai tivesse se atrapalhado e se queimado no fogão.
– Júlia – o pai disse.
Os três olharam para ele. Para o pai de olhos vermelhos e mãos entrelaçadas. Júlia entendeu a raiva da Mariana. O terror do Pedro. Não era o pai.
– Sim, pai? – Mariana interrompeu.
– Será que eu vou gostar? – ele perguntou sem desviar de Júlia.
Júlia sorriu. Desenlaçou as pernas. Sentiu os lábios formigarem. Não tinha dúvida.
– Não, pai. Você não iria gostar nenhum pouco.
