25.2.15

a morena


o tempo de uma mulher sempre espera um pouco mais, em qualquer janela de todas as casas, de tantas pinturas e de uns quantos livros mal escritos. tu me perguntas de novo se é muito tempo, se o tempo acabou adoecendo de tanto doer e travou. qual é o tempo de uma mulher?: é isso, enfim, que devias me perguntar. não que eu tenha uma resposta para te dar, mas isso, o tempo de uma mulher, eu sou capaz de medir, porque não vais sozinha por ele. mas, hein? lembra da tua música, amarra o tempo na tua canela e dança. 

28.9.14

Dia da Escrita #27S15UB



Barcelona, ‪#‎27S15UB‬

Eu tinha um compromisso para hoje. Dois, para falar a verdade: escrever o meu dia e acordar o meu namorado. Eu mesma acordei tarde, depois das onze, e esperei até o meio-dia, pois no Brasil o relógio estaria marcando sete, o que para ele ainda é plena madrugada e eu prezo muito a minha reputação de melhor namorada do mundo. Ele não tinha um compromisso, despertei-o apenas porque combinamos de nos ver ainda pela manhã com caras de sono, com vozes de sono, com lembranças de sonho quando o dia estivesse começando, só para então voltarmos a dormir, como em tantos e tantos e tantos sábados nesses três últimos anos das nossas vidas. Ele abriu os furinhos da persiana e quando o vi pela tela do computador nesse cenário tão nosso o meu coração explodiu e se espalhou pelo chão como a própria luz. Eu desliguei o Skype com o meu primeiro compromisso cumprido: enquanto eu falava qualquer bobagem ele se aconchegou na minha voz e adormeceu. Eu então abri a minha janela inteira, tomei um café com leite, arrumei a casa e saí a procurar o meu dia 27. Sábado em Barcelona o mundo inteiro caminha pelas ruas e escutar os jeitos, observar as línguas e viver as diferenças é programa por si só. Fui até o Palau da Música Catalana porque tinha um terceiro compromisso que acabei de lembrar: comprar ingressos para a Quinta Sinfonia de Beethoven. Meu namorado queria comprar ele mesmo pela internet, porque sabe que eu já tenho um ritmo aqui, o qual não inclui nada parecido com “corra antes que acabe”. Se você ficar sem ingresso para uma coisa em Barcelona, mil outras coisas abrirão as portas, e se não abrirem, ficar pelas ruas é o espetáculo todo. Almocei qualquer coisa e me comprometi (mais um!) a só por hoje não parar para comer alguma coisa nas “granjas” históricas e típicas que expõem suas delícias criminosamente nas vitrines. Entrei em algumas lojas, experimentei peças de rebajas, comprei um vestido por doze euros que estou vestindo agora, em casa, para escrever esse texto, de tanto que gostei. Entrei em umas tantas lojas masculinas porque meu namorado está sempre me pedindo o preço das coisas e eu ainda não tinha pesquisado nada para ele (corra...). Caminhei pelo Gótico, já que todos os passos acabam levando o povo para lá, me perdi pelo Raval, lá onde os estrangeiros passam ao patamar de segregados, voltei para a Rambla, faminta, é claro, e parei para experimentar a coca de xocolata, porque afinal, no dia 27, para ser um dia completo, algum compromisso eu tinha que quebrar. Coloquei a minha rua no GPS e segui o caminho maluco que ele me indicou de volta para casa, apenas para não fazer nenhum dos meus conhecidos, agora que aprendi a me perder por prazer. Vim caminhando e mandando fotos para ele, fotos das delicadezas do dia a dia que me fazem sentir uma falta imensa da sua companhia, como a quantidade de gente a essa hora pelas ruas, a praça ao lado de casa na qual um monte de cachorrinhos brincam todos os dias no final do dia, o supermercado que só vende congelados, na minha esquina, mas que deveria ser na Fernando Machado, esquina com a Cipriano. Depois de me ajeitar aqui na cama, na frente desta tela onde o meu dia começou, me lembrei de assistir os vídeos do The Voice Brasil. Nem vou comentar, mas ok, estou comentando, embora isso não venha ao caso, este é mais um ritualzinho nosso: assistir o programa dias depois que ele passou. Aproveitei para fazer isso nessa noite de um sábado longo e sereno que no mundo inteiro nada de especial precisou para acontecer, por aqui, apenas, o sol estava um pouco gelado, delicioso, e as ruas se multiplicaram para que eu gastasse a minha saudade. Uma das candidatas cantou I say a little prayer for you. Vou dormir com fome.

24.9.14

barcelona VIII



vou deixando de caminhar através da cidade e aceitando a sua companhia. ela tem passos tão rápidos quanto os meus mesmo havendo tanta coisa para ver. paro. mudamos: meu olhar vem de cima agora e é para dentro dos olhos dela que já sempre me dirijo. ela me apresenta cada dia a um dos meus lugares preferidos e confessamos que nos incomoda um pouco estar em todas as fotos de todos os turistas, por isso é que ela tem me ensinado a me esconder.

19.9.14

eu te quero sempre em paz


se estou em silêncio estou em mim e não há canto algum que seja mais teu.

barcelona VII


das flores pintadas aspiro a cidade que vai se fazendo casa não porque me acolhe mas porque eu a atravesso na contramão quando acaba a bateria e finalmente me perco. se me procurar, encontrará em meio à língua só deles que aos poucos vou descompassando no meu ritmo mole de verão sempre um pouco além da conta. está quente demais aqui. está bonito demais aqui. e é grande o suficiente para não haver espaço para o medo de apagar a luz que embarcou comigo na mala de mão mesmo já estando um pouco quebrado.

15.9.14

barcelona VI


não há céu suficiente neste mundo, eu juro: se eu vivo cinco horas antes é para te esperar. é para rasgar a cidade e achar o nosso lugar que acaba sendo parecido com o mesmo porque eu trouxe teu cheiro e já espalhei pelo sofá e pelas ruas, não há um monumento hoje que não conte de ti. deixo que os turistas te registrem indefinidamente nas nuvens, já que pousaste bem no meio da praça e esse é teu jeito de ser o meu.

12.9.14

barcelona V


iguais:
gostamos de lugares com história
tinta pintada sobre tinta
piso colocado sobre piso
memórias tapadas com uma ou duas latas de massa corrida
na planta, compramos apenas a flor.

11.9.14

7.9.14

barcelona II


cozinhar me faz casa: ligo o fogo. aspiro a fumaça. mexo. é preciso mexer. às vezes suavemente. às vezes sem parar. mas bem no fundo, pois há um sabor possível de me revelar no cheiro que escapa para a vizinhança ainda sem rosto.

6.9.14

barcelona I



trinta e quatro anos e ainda não sei por que vou embora se estar é tão bom. a vontade de transformar o que não é meu em casa é a prova de que ir não é meu estado normal; o cheiro do que não é meu me repele e lembra: volta. encontra logo e volta. então vou procurando meio de qualquer jeito, meio correndo, pra ver se dá tempo antes de sair de mim.
não se nasce mulher, torna-se mulher [simone de beauvoir]