4.7.08

tem que ser muito simone


Ser mulher é depilação.

Simples assim. Resumível e presumível assim. Ser mulher é a porra da depilação. E eu não estou desmerecendo a mim ou à minha raça.

É inverno e cada vez que tiro as botas e as calças e as meias eu me deparo com aqueles pêlos. Triste. Eu os arranco e poucos dias depois – para não dizer horas ou minutos ou segundos - eles já estão lá despontando por todos os lados. Não tem fim. É a prova viva e alucinante do que eu sou: mulher. Não pára nunca. Eu arranco e eles voltam. Eu arranco e eles crescem. Eu arranco e eles rasgam a pele e o meu bom senso. Eu preciso arrancar meus pêlos. E por que não arrancaria? Só por que o Caio não arranca? Por que ele pode tê-los todos espalhados pelo corpo naquela velha e boa bagunça masculina? Por que eu mesma não posso suportar meus pêlos e me torturo no puxa-arranca diário, profanando os lugares mais improváveis de mim, com raiva, com pressa, com ânsia de me livrar do que é meu como mais nada pode ser? Por que eu não arrancaria os tais fiozinhos que afrontam meu espelho e toda a cultura social na qual vivo desgraçadamente inserida? Por que teimo em considerar a natureza uma aberração divina?

Porque sou mulher.

E ser mulher é depilação.

30.6.08

receitinha de mãe



Um pouco de medo e um pouco de sardas
muito de amor

Um pouco de história e uns cinco anos
misturados com gelo
e fogo
muito de fogo

Quase nada de dinheiro
um romance inteiro
que mal começou

29.6.08

bad mr. big


Fui assistir Sex and the City e consegui chorar num filme tão bobo. Mas também, o cara deixa a Carrie vestida de noiva na porta da igreja. O cara vai até lá e não sai do carro. Ele simplesmente não sai do carro! E a Carrie estava linda.

Eu sei que não é pra tanto e eu é que ando uma bomba sempre pronta pra estourar. As lágrimas ficam aqui na beira dos olhos e qualquer descuido uma sai correndo. Mas a verdade é que não se deixa uma mulher na porta da igreja. Qualquer um deveria saber que não se deixa uma mulher na porta da igreja.

É difícil viver entre duas forças inversas. O mundo é moderno, é novo, é tentador. Mas a mulher é o que há de mais antigo na alma da existência. A Humanidade muda, evolui, a Humanidade perde órgãos e dentes caninos, a Humanidade não pára; mas a mulher é o eterno, a mulher não deixa de ser mãe, a mulher não deixa de cuidar, a mulher não deixa nunca de abraçar e amar.

Eu choro quando vejo uma mulher ser abandonada porque a natureza da mulher é pertencer. Não acho certo nem justo, não sou a favor. Não mesmo. Por mim as mulheres deveriam possuir realmente a independência que elas tanto dizem que têm. Que elas tanto querem ter. E eu sei que é uma ânsia sincera. É injusto só saber pertencer em um mundo onde ninguém mais quer a responsabilidade de possuir.

Queimem todos os vestidos de noiva porque enquanto existir um, a luta continuará sendo vã.

28.6.08

garota do centro

Voltando ao assunto da trilha sonora, toda vida deveria ter trilha sonora constante. Eu estava caminhando no Centro, com aquele passo de quem caminha no Centro, fugindo de ladrões e ciganas, desviando de pessoas que fogem de ladrões e ciganas, correndo para pegar o ônibus, correndo para não pegar chuva, atravessando como um raio o Mercado Público e de repente pára tudo! Entra a trilha sonora. Um tiozinho está dedilhando e cantando Garota de Ipanema. Eu mudo o passo automaticamente. Olha que coisa mais linda. Eu já estou pisando na areia. Mais cheia de graça. Ai, essa brisa do mar embaraçando os meus cabelos. É ela a menina que vem e que passa. Ai, esse sol dourando o meu corpo. Num doce balanço a caminho do mar. Sorrio lânguida para o mundo. Lááá lálálá lálálálááá.

Delícia é ter trilha sonora constante sem nem precisar de Ipod.

10.6.08

my tears dry on their own


Rumos. Vai muito tempo da vida nessa história de rumos. Escolher, tomar, seguir rumos. Cada vez que me vejo num novo rumo penso inevitavelmente naquela terrível frasezinha: agora sim. Agora nada. É só um rumo. Só mais um. E mal coloco o pé nele, não dá nem tempo de relaxar, um novo rumo vem surgindo no horizonte.

E quando irei sossegar? Nunca. É claro. Todo mundo sabe disso. Sossego é a verdadeira utopia dos que vivem. Mas só dos que vivem. A adrenalina ainda é uma das minhas drogas favoritas.

Um novo rumo, então. Com nova trilha sonora. Porque eu sofro pra caramba cada vez que as mudanças se dão e nada disso faz sentido sem trilha sonora. Eu já disse que a minha vida é um videoclipe. Sou eu caminhando, o vento nos cabelos, a estrada indo para o nada que também pode ser o futuro e a minha boca se move cantando a letra da vez. Nada me abala, aparentemente. Eu só vou. Trilha sonora é imprescindível nessa história de rumos. Com trilha sonora eu me sinto poderosa. Com trilha sonora eu acho que dá.

Videoclipe é coisa rápida. Como um conto. Começo, meio e fim. Mas prefiro a minha vida num videoclipe que num conto. Gosto do impacto da imagem. Gosto das cores. Das caras. Gosto que me vejam viver. Sempre um bom petisco para voyeurs.

Talvez, daqui a pouco, muito pouco, eu prefira ser boa literatura.



25.5.08

camada de hálito quente


Parece que o veranico de maio acabou. Sinto o ar gelado e há vento. Observo uma e outra árvore que a vista da minha janela alcança e elas balançam. Imagino que está frio lá fora. Imagino que a camada de ar quente se desfez e a camada de ar frio que se mantinha afastada pela pressão agora pode finalmente se mover e tomar seu lugar. O seu lugar no inverno. No junho que já está quase chegando.

Foi algo assim que vi na televisão. Algo sobre o movimento das nuvens, dos ventos e das camadas frias e quentes da atmosfera. Uma não ocupa o lugar da outra. Uma espera a outra sair para poder entrar. Mesmo que esteja tudo fora de hora. Mesmo não sendo assim que era pra ser.

Não tem problema. Já entendi que nada é certo ou errado no mundo. Já entendi que dizer inverno não significa que deva entender frio. Uma coisa pode ser outra. Só não pode ser ao mesmo tempo.

Eu entrei no cinema e quando saí o veranico havia acabado. Eu entrei no cinema e quando saí as camadas de ar haviam se movido. Eu entrei no cinema e quando saí não me importava mais se já era maio, se ainda não era junho, se já havia passado uma ou duas horas, se já havia passado cinco anos, se já havia passado parte de uma vida, de uma vida inteira que eu não sei quanto tempo terá. Eu entrei no cinema e quando saí percebi que algo estava fora do lugar, mas não no lugar errado. Havia um beijo em minha mão. Contrariando todas as previsões, havia um beijo, e era quente, em minha mão.

O tempo é estranho mesmo, mas não há outro lugar para se morar.

13.5.08

o ano dos vinte e sete anos



São meus últimos minutos com vinte e sete anos. Gostaria que o tempo não fosse algo tão angustiante para mim. Minha cabeça se desespera pensando se fiz tudo o que deveria ter feito, se não fiz nada do que não deveria ter feito, se posso encerrar os vinte e sete anos em paz.

Bem, eu tenho certeza de que fiz tudo errado. Nada me parece no lugar, olhando para trás. Mas é um para trás tão próximo que quase posso tocá-lo. É um para trás tão próximo que aparentemente, se eu quisesse, poderia consertá-lo.

Não. Deixa assim. Alguém ainda hoje me disse que errar faz bem.

Este ano de vinte e sete anos foi um ano meio vazio. Eu não aprendi muito. Pelo contrário, me revoltei com o aprender. Achei aprender dolorido demais. Dispensei. Evitei. Fugi. Me neguei a aprender qualquer coisa, quis apenas sentar e chorar. Quis me largar. Quis não entender nenhum porquê. Quis me contentar com o pouco. Quis amargar minha alma tão doce, para ver se a voz ficava mais firme. Para ver se eu crescia. Não ficou. Não cresci.

E tudo o que eu não quis aprender de jeito algum nesse ano de vinte e sete anos, aprendi na semana passada, durante a chuva que nunca acabava.

Eu me molhei tanto.

Mas tanto.

Que eu entendi.

Não dá para esperar pela chuva. Não dá para se preparar para a chuva. Mas não dá para a chuva me pegar de surpresa.

Eu não vou sair de guarda-chuva todos os dias. Eu não vou pegar o casaco mesmo com o sol brilhando lindo lá fora. Eu não vou imaginar o pior a cada manhã. Eu não vou me acostumar a me proteger.

Eu vou sair sem guarda-chuva se não estiver chovendo. Vou caminhar sem pesos. Sem armas pretas de bolinhas brancas. Vou caminhar sabendo que a chuva existe. Mas não vou pensar nela. Não enquanto ela não acontecer.

Nesse ano dos vinte sete anos eu aprendi uma coisa só, e bem no finalzinho:

Eu não tenho que estar preparada para a chuva. Eu tenho que estar preparada para me molhar.


Pronto. O relógio virou para meia-noite. Ou muito me engano, ou já posso escutar os fogos dentro de mim.


5.5.08

conclusões após a chuva que ainda não acabou

1
Antes de dormir, consultou a previsão e viu que não faria frio no dia seguinte.
E amanhã nevou.

2
A gente pensa que vai morrer, mas não morre.
A gente só morre de morte mesmo.
A gente não morre de mais nada.

3
E o Inter tratou de lavar a minha alma.

29.4.08

a mecânica da obsessão



Quem não tem curiosidade mórbida? Os psiquiatras andam jogando em nossa cara que somos todos doentes ao acompanhar com tamanha obsessão o passo a passo da história de Isabella. Eu não conhecia a Isabella. Eu nunca vi a Isabella. Se a Isabella passasse na minha frente, seria apenas mais uma menina passando na minha frente, como qualquer outra. Acontece que, como os psiquiatras fizeram com a minha “doença”, alguém jogou a Isabella na minha cara. E eu não estou nada disposta a esquecê-la.

Quero saber, sim, o que fizeram com a Isabella. Quero saber quem fez, como fez e por que fez. Quero todos os detalhes. Quero as motivações. Quero as provas. As fotos. As marcas de sangue. Quem apertou. Quem bateu. Quem jogou. Quem planejou. Quero saber direitinho quem são os tais de Alexandre e Anna Jatobá. Quero saber que tipo de família eles têm. Como foram criados. O que foi feito da sua educação. Quero saber onde eles estudaram e quais eram as suas notas. Quero depoimentos de professores e colegas. De vizinhos. De motoristas de táxi. Do diabo a quatro. Quero escarafunchar a vida deles até a exaustão. A exaustão coletiva. E o povo que se plante em frente aos edifícios e delegacia. O povo que grite, que xingue, que jogue pedras. O povo que venda pipocas e distribua santinhos. Fizeram disso um circo ou não? E foi o povo, por acaso? O povo que grite. Eu apóio. Não acho a Isabella a criança mais importante do mundo. Eu sei dos pretos pobres das favelas que não aparecem na televisão. Eu sei que um milhão de crianças teve fins piores que o dela. Eu sei que algumas nunca têm fim. Mas agora eu quero saber da Isabella. Só dela. Quero saber obsessivamente. Quero saber até parar de sentir. Como deve ser.

Eu não tinha nada a ver com nada disso, mas jogaram a Isabella pela janela e também na minha cara. Agora eu quero saber. Quero saciar a minha morbidez. Eu exijo o último capítulo.

16.4.08

a metáfora da traça


Há quem não enxergue as traças. Há quem olhe para as paredes e não enxergue nada além de pequenas falhas no reboco. Falhas. E que mal fazem as falhas. Eu enxergo as traças. Eu as enxergo por todos os lados e garanto que não são mero reboco descascado. Eu enxergo as traças nas paredes e tenho ganas profundas de pegar uma vassoura e varrê-las todas. Uma a uma. Furiosamente. E pisoteá-las. Mas sinto nojo. Poucas coisas me causam tanto nojo quanto as traças. Elas parecem reboco, mas quando caem no chão e você pisa... Elas não são reboco. Elas são a prova do que mofa, do que envelhece, do que umedece. Elas são a prova de que algo precisa ser feito. Mas o quê. Às vezes imagino que as traças tomarão conta das paredes. De todas as paredes. As externas e as internas. De tudo. Até eu não saber mais o que é tijolo e o que é traça. E se algum dia houve mesmo reboco. E se algum dia alguém se sentirá no direito de me pisotear.

9.4.08

o essencial é visível às fotos

Esse grupinho aqui se chama Mecânicos da Palavra e são um pedaço mais do que especial da minha vida.

Segunda-feira tivemos um encontro histórico registrado nesta bela fotografia.

Não são os rostos mais queridos do mundo?


Fazendo a volta do relógio começando pela ponta do lado esquerdo:
Américo, Karen, Marco, eu, Almiro e Isabel.


Só faltaram Galvani e Luciane. Mas dia 5 de maio tem mais.

Certas coisas de repente deixam de ser importantes para serem essenciais.

26.3.08

everything is gonna change my world

Muitas coisas me modificam. Eu sei, muitas coisas modificam muitas pessoas. Mas obviamente algumas coisas modificam cada pessoa. Músicas modificam pessoas. Nem todas as músicas modificam todas as pessoas. Há músicas que me modificam muito. Há músicas que me modificam em determinados momentos e para sempre.

Hoje eu viajei até Viamão ouvindo músicas. Entre elas, O Caderno, do Toquinho. Sabe qual é?

Sou eu que vou seguir você
Do primeiro rabisco
Até o be-a-bá.
Em todos os desenhos
Coloridos vou estar
A casa, a montanha
Duas nuvens no céu
E um sol a sorrir no papel...


Ia tudo muito bem, aquela nostalgia clássica de quem foi criança nos anos 80, relembrando a capa do disquinho e a sensação de ouvir aquela voz gostosa falando alguma coisa sobre um tal de caderninho, que bem parecia com os meus caderninhos, mas eu não tinha consciência ainda para saber que eram exatamente os meus caderninhos.
Caderninhos que acompanharam a minha vida inteira, repletos de anotações coloridas, de desabafos escuros, de frases copiadas, de poesias inventadas, de segredos reinventados em códigos que até hoje eu sei.

Que eu nunca esquecerei.

Mas foi então que o Toquinho sussurrou com sua voz doce o trecho mais cruel que provavelmente ele já sussurrou na vida. E me doeu perceber que ele sempre sussurrara tal maldade em meus ouvidos e eu escutava, ingênua e crédula, julgando serem apenas palavras bobas de uma canção lúdica de criança, mas era e sempre será uma centelha de vida, em verdade, era o anúncio, era o aviso, era, de certa forma, o meu veredicto, que só eu ainda não conhecia e que só o Toquinho tinha coragem de pronunciar.

Sou eu que vou ser seu amigo
Vou lhe dar abrigo
Se você quiser
Quando surgirem
Seus primeiros raios de mulher
A vida se abrirá
Num feroz carrossel
E você vai rasgar meu papel...

Rasguei muitos papéis sem lembrar que eles estavam destinados a isso. Sim, os cadernos, os meus caderninhos, sempre foram o meu abrigo, a minha forma de escapar e de entender o carrossel que me engolia. Eu ia me modificando e os cadernos iam se modificando, os antigos modificavam os novos, eu ia modificando os cadernos e é óbvio que os cadernos, folha a folha, linha a linha, iam modificando a mim.

Chorei tanto hoje, no ônibus, escutando novamente aquela voz sussurrada, aquele prenúncio da futura mulher, que não é mais um futuro, que sou eu, feita de sussurros de carrossel de cadernos e de milhões de folhas rabiscadas rasgadas inteiras molhadas publicadas queridas queridas queridas.

A vida não é um brinquedo inocente. A vida nos deixa tontos. A vida é o que o Toquinho me mostrou que seria e eu fico feliz de não ter entendido antes. Ele nem queria que eu entendesse. Ele queria apenas acariciar o que eu era. Ele queria, apenas, louvar o que eu seria, antes de todo mundo. Ele queria, quem sabe, como eu também quero, que um dia alguém se soubesse modificado por suas palavras.

E os meus cadernos seguem comigo. Essa música desenvolveu em mim um absurdo colecionismo. Ele me pedia para não esquecê-lo em um canto qualquer e eu jamais poderia mesmo fazê-lo. Ainda tenho os meus cadernos. Fico angustiada cada vez que penso nas traças e no mofo que podem estar os consumindo. Não tenho coragem de abri-los. Não quero me ver corroída. Não quero me ter esquecida. Posso fazer terapia para perder o medo insuportável da morte, para aprender a conviver com ele, mas não posso fazer terapia para esquecer o que sou. Meus cadernos são eu. Desculpe. Mas eles são eu.

E eu sinceramente acredito que um dia as pequenas mãozinhas dos meus filhos irão folheá-los. E lê-los irá modificá-los. E vê-los ler fará de mim, então, diferente.

13.3.08

que paul e machado não julguem minha vã filosofia

O que desperta o ciúme. O que move o ciúme. O que o ciúme não pára de inventar.
O que pretende o ciúme. O que almeja o ciúme. O que o ciúme acha que é capaz.
O que cobra o ciúme. O que explica o ciúme. O que o ciúme tem para falar.
O que teme o ciúme. O que anseia o ciúme. O que pensa o ciúme da vida.
O que corrói o ciúme. O que corrompe o ciúme. O que faz o ciúme devorar.
O que fez ontem o ciúme. O que traiu o ciúme. O que o ciúme pensa que é.

O ciúme vem de onde. Aonde o ciúme quer chegar.


I made a silly love song for you
I made a silly love song for you
Pra cantar no pé do teu ouvidinho

I made a silly love song for you
I made a silly love song for you
Because you love Paul
And I love you

Então
I made a silly love song for you
I made a really silly love song for you

Iê iê iêêêêê


7.3.08

era uma vez em porto alegre


Dá para acreditar em um passageiro incógnito que, como num filme de faroeste, levanta do fundo de um lotação, baleia mortalmente dois assaltantes, chuta os corpos para fora (um ainda semimorto) e manda o motorista prosseguir normalmente até o fim da linha?

Alguém entende?

Alguém pode me explicar?

Segundo a notícia publicada em Zero Hora, “Um homem misterioso, rápido no gatilho e com exímia pontaria conseguiu evitar a tiros aquele que seria mais um assalto a lotação em Porto Alegre.”

Sim, e a reportagem segue no mesmo tom com frases como estas: “Alto, branco e forte. Foi assim que uma jovem de 27 anos descreveu o passageiro que, em silêncio, levantou da poltrona, sacou sua arma e matou dois ladrões que atacavam o lotação.”.

Cena de filme? Espere para descobrir outras informações sobre o galã da história: “Ao entrar no lotação, ele já chamou a atenção das mulheres por sua forma física. Depois que atirou nos ladrões, virou herói - contou a jovem à polícia.”.

Sim, sim. Galã. E eu não estou exagerando. Galã à moda antiga, do estilo durão, Charles Bronson: “o atirador pegou a arma de um dos bandidos, caída no piso do veículo, e se encarregou de, aos chutes, jogar os dois ladrões para fora.”.

E é claro que um galã que se preze não pode ficar sem o seu grand finale: “Aplaudido e cumprimentado pelos cerca de 20 passageiros, ele deu a segunda e ainda mais inusitada orientação ao motorista: para que seguisse a viagem até o terminal na Lomba do Pinheiro, sem parar em posto policial ou delegacia.”

Uau. Até aqui já estaria pra lá de Hollywood, mas ainda tem a rapa do tacho, a cereja do chantilly, o toque de mestre: “O motorista seguiu até o ponto, e os passageiros foram desembarcando ao longo do trajeto, normalmente”.

Estou em estado de choque. Automaticamente, ao fim da leitura, minha mente me transportou ao lugar dos passageiros deste lotação, mais especificamente no papel da “jovem de 27 anos”, a mais entusiasta das fãs do nosso novo herói.

Será que eu aplaudiria aquele insano e improvável super-homem? Será que eu seguiria viagem naquele pequeno inferno ambulante? Será que – meu deus do céu – será que eu saltaria normalmente na minha parada, não sem antes comentar alegremente o fato com os outros companheiros de viagem e, é claro, evitar sujar os sapatos no sangue dos malfeitores ao passar pelo corredor?

Não estou criticando o comportamento da moça. Não mesmo. Eu jamais passei por uma experiência de assalto e não faço a menor idéia da espécie do desespero que eu sentiria.

Só que... Não sei explicar... Mas se eu estivesse lá, se eu fosse aquela moça, se fosse a minha realidade e não apenas uma notícia de jornal, eu estaria completamente transtornada, eu estaria triste e apavorada, eu estaria com a cabeça em pane, eu estaria escondida sob as minhas cobertas, com um medo absurdo dos três homens, dos que morreram e do que continua por aí, anônimo, obscuro, mascarado, tal qual um vingador errante, um justiceiro controvertido, um gatilho rápido e um coração frio, um Robin Hood sanguinário, um Anton Chigurh tal e qual, um protetor junto ao qual não me sinto segura ou aliviada, apenas ainda mais assustada.

29.2.08

pra dizer bem a verdade

Enfim, a chuva que pedi. Enfim, os vidros das janelas manchados de água escorrida. Porque água mancha. Água mancha como sangue.

Uma noite e um dia inteiros de chuva. Talvez um final de semana. Talvez o sol jamais volte.

Não importa, eu me acostumaria. Eu posso me acostumar com qualquer coisa. Um dia seria normal os dias serem todos de água. A vida passaria e acabaria da mesma forma. E eu não usaria guarda-chuva. Não usaria mesmo. Seria perfeitamente normal andar molhada. Eu nem mesmo me griparia. Eu nem mesmo imaginaria um dia de sol. Porque não haveria beleza nele. Só haveria estranhamento.

O grande problema da vida é este exagero de opções. Sãos dias de chuva, de sol, nublados, quentes, frios ou agradáveis. Tristes ou alegres. Um diferente do outro. E eu conheço todos. E peço e espero por eles. Porque sei que existem e podem, enfim, acontecer.

O grande problema da vida é existir a morte, e eu saber das duas, eu poder escolher entre elas, e eu poder distinguir claramente onde está uma e outra, e eu ter que simplesmente conviver com uma opção maior do que eu.

Se a vida fosse só vida eu me acostumaria com isso. É claro que eu me acostumaria.

E se eu não soubesse da morte eu viveria melhor. Muito melhor. Eu enfim viveria.

Mas se fosse só morte... Se fosse só morte eu não sei o que seria. Se fosse só morte, pra dizer bem a verdade, acho que, enfim, eu não morreria.

22.2.08

there will be oscar

Não estou ansiosa para assistir o Oscar domingo. Estou simplesmente satisfeita com todos os indicados. E quem ganhar, para mim, terá feito por merecer.

Dos indicados ao Melhor Filme, ainda não assisti Conduta de Risco e Desejo e Reparação, que assistirei logo mais, à noite.

Quanto a Juno, Sangue Negro e Onde os fracos não têm vez a minha opinião é a mesma: maravilhosos. Estou de barriga cheia, muito bem servida, encantada com atuações que transbordam por todos os lados, fotografias que parecem não caber nos olhos, trilhas sonoras que rebentam os ouvidos de prazer.

Cada filme que vi foi uma delícia. Mesmo com a sangueira reinante. Nada por acaso. Eu indico todos que listei acima e ainda Senhores do Crime e Na Natureza Selvagem. E preciso ver os vários que concorrem a outras categorias, como Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, Piaf - Um Hino ao Amor, O Escafandro e a Borboleta, O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Redford. É filme a dar com pau. Por favor, mexam-se. Esqueçam essa coisa de praia. O verão já era. O ano começou.

Só ficou faltando mesmo o nosso Tropa de Elite. Cairia muitíssimo bem no contexto deste Oscar. Aliás, cairia muitíssimo bem no contexto deste mundo e destes dias.

Tropa de Elite é, para mim, um filme admirável. A sensação que tive ao terminar de vê-lo nunca tive com nenhum outro filme, muito menos brasileiro, pois todos contam sobre um Brasil que não conheço. Quando o filme acabou, tentei respirar fundo, mas não consegui: o mundo estava definitivamente caído sobre a minha cabeça.

Tropa de Elite é moralmente violento. Não respinga sangue, não apela para sentimentalismo, não defende esquerda ou direita, rico ou pobre, policial ou bandido, não defende a população. Tropa de Elite bate, mas não é com o cacetete.

Tropa de Elite mostra o que somos, o que fazemos e de que forma agimos, tanto como seres humanos, tanto como cidadãos.

Tropa de Elite dá a cada um a sua devida parcela de culpa, a "sua parte neste latifúndio" de violência, miséria e absurdos sociais no qual vivemos. E o qual alimentamos diariamente.

Louvo Tropa de Elite e principalmente o diretor Padilha. Acho que cada um tem que fazer um pouco, seja lutando, seja se defendendo, seja metendo o dedo na ferida.

E o Oscar tem que ser assim mesmo, tem que ter Tropa de Elite e tem que ter Juno. Tem que ter Daniel Day-Lewis e tem que ter Javier Bardén. Tem que ter prostituta que virou roteirista. Tem que ter briga de mafioso pelado. Ô se tem. Tem que ter filmes para todo mundo, que mostrem todas as faces da vida, da sociedade e da mais pura imaginação, que agradem e desagradem, que agridam e acariciem. Tem que ter filmes bons de qualquer jeito.

E tem que ter o Paul Dano. Porque Oscar é isto: em um ano o cara é um piazito rebelde que faz a melhor greve de silêncio de todos os piazitos rebeldes e no outro ele dá na cara do Daniel Day-Lewis feito gente grande.

(A propósito, Paul não foi indicado, mas para mim ganhou Melhor Ator Coadjuvante. Espero sinceramente que isso lhe sirva de consolo.)

15.2.08

prefácio

Permitam-me prefaciar o próximo texto, A Metáfora da Mala:

"Camila

Sabe, estou ficando besta. Sobre minhas filhas, Ana, Alessandra e Gabriela, sobre meus netos, Lucas, Felipe e Isabella,tenho justificativas: afinal, são sangue do meu sangue e se eu não me orgulhar delas, então seria um cretino. Sim, eu as amo (os, tem os dois meninos...) e os acho todos, lindos, inteligentes, inigualáveis.
Mas, você Camila que nem é minha filha e eu acho tão fantástica!? Como se explica isso?
Cada vez que leio um texto acho melhor, cada vez melhor.
"A Metáfora da Mala" está, simplesmente, esplêndido.

Um abraço grande
Walter Galvani
"

14 de Fevereiro de 2008 15:48


Uau.

13.2.08

a metáfora da mala



Desci do ônibus com a minha malinha e saí caminhando no meio de todo aquele movimento do dia começando. Andei bem abraçada com ela e a bolsa e o casaco, me protegendo do frio, do movimento e do dia. Todos os carros do mundo passando e eu pensando o que será que eles pensam de mim e da minha malinha. Será que eles conseguem distinguir uma da outra? Será que eles entendem a diferença? Será que eles entendem que é ela quem está sempre pronta para partir e não eu?

A minha mala está cheia de coisas necessárias e confusas. Quando eu a arrumo, parece leve. Quando desço do ônibus, ela está pesada. Difícil de carregar. É o mesmo volume. São as mesmas coisas necessárias e confusas. Ela continua pronta para partir. Mas o peso é bem diferente.

Eu desarrumo tudo. Sempre. Nada se mantém organizado ao meu redor ou dentro da minha mala. Onde eu e a minha mala chegamos, o caos se instala. Somos pesadas, nós duas. E cheias. E confusas. Estamos sempre prontas para partir.

Mas não queremos, e isso é o que nos faz mala. Isso é o que nos torna confundíveis e incarregáveis. Isso é o que faz da nossa vida um inferno! Ter que viver prontas para partir, sem nem saber para onde, nem quando, nem como. Só sabemos que partiremos. Nós e nossas coisas necessárias e confusas, das quais não conseguimos nos desvencilhar. Por mais que pesem. Por mais que incomodem todo mundo. Por mais que atravanquem os caminhos. É um tal de jogar o necessário lá dentro pra caso a hora chegue de repente, e fica tudo assim confuso, tudo o que quero levar comigo, tudo o que não quero perder nem esquecer, tudo o que não quero nunca, jamais, sob hipótese alguma deixar para trás. A mala sabe, mas eu não entendo. Por isso ando agarrada nela. Por isso abraço-a bem forte contra o vento. Por isso nos confundem pela rua. Eu não posso partir sem levá-la comigo.

Não posso.

8.2.08

quem tem medo de massinha de modelar?

Eu nem comentei que mudei de emprego novamente. Fico até com vergonha de falar. 2007 foi um ano de muitas aventuras nesse sentido, mas, com a chegada do ano-novo, as coisas parecem ter se estabelecido.

Claro que em se tratando da minha vida profissional é absurdamente cedo para afirmar qualquer coisa com segurança. Lá foi a Camila jogar tudo para o alto outra vez e começar de novo. Do zero. Literalmente.

Entrei numa neura de mandar currículos para todos os lados, porém seguindo uma nova linha: a minha área. Pois é. Eu realmente nunca procurei emprego na minha área. Até porque a minha área majoritariamente é a licenciatura e se tem uma coisa que eu não quero é ser professora. Sim, eu já sabia disso desde que ingressei no curso de Letras. Não, eu não sei por que insisti.

A verdade é que eu gosto de escrever. Eu gosto de texto. Gosto de pegar o texto nas mãos. Gosto de tocar, cheirar, mexer e remexer. Gosto de misturar tudo, desfazer tudo, refazer tudo. Gosto de consertar. Gosto de enxergar o que está errado e gosto de aplaudir o que está certo. Gosto de respeitar quem escreve e como escreve. Gosto de novas linguagens, novos estilos, novas superações. Gosto de quem se arrisca a escrever. Gosto de quem entende que Língua Portuguesa é mais do que gramática. Mais do que regras. Mais do que exatidão. Língua Portuguesa é língua, é minha e é tua, é para a gente. Tem que fingir que a Língua é massinha de modelar. E tem que modelar. Transformar em tudo o que der na telha. Igual criança. Sem medo.



Ou alguém tem medo de massinha de modelar?

Enfim, aos poucos acho que vou me ajeitando na tal da minha área. Estou trabalhando como redatora em uma agência de publicidade e a-do-ran-do. É algo totalmente novo para mim, estou aprendendo, mas está sendo incrível. Estou dando algumas aulinhas de Língua também, deliciosas aulas para alunos totalmente seletos, que têm como interesse único modelar à vontade. E agora decidi começar algo diferente, novo, próprio, que vai me levar a aprender muito, em todos os sentidos e ainda ganhar algum dinheiro. É a Primore.

Além de tudo, tenho este meu espaço querido, onde guardo as minhas engraçadas esculturas de massinha. Junto com amigos, tenho os Mecânicos da Palavra. E, ainda, guardados pelas gavetas dos armários e pelas pastas do computador, milhões de projetos a serem apresentados ao mundo e milhões a serem guardados apenas para mim.

Tanto faz. Em se tratando de mod...escrever, tudo é bom, tudo é lúdico e tudo pode sempre ser desmanchado. Tem que meter as mãos na massa de qualquer jeito.

E eu acho que desta vez, vai.

29.1.08

monstrinhos meus

Taí um assunto mais do que batido. E eu não lembro se já toquei nesta ferida. Separação é coisa que dói que nem ferida. Mas ferida cura, se você cuidar direitinho.

A vida é permeada por separações. Nem todas são separações amorosas, nem todas envolvem brigas e dores e mágoas, nem todas são para sempre. Mas todas constituem feridas. E aos poucos ficamos cheios delas.

Há um tempo comecei a reparar que separação não dói só quando a vivo pessoalmente ou por intermédio de filmes emocionantes. Separação dói até quando alguém que eu adoro se separa de outro alguém. E não é como assistir na televisão, quando eu sinto um prazer imenso em sofrer. Dói de rasgar a alma e de nada fazer parar. Se alguém que eu amo chora, eu sinto que não vou agüentar.

Ultimamente tenho presenciado o surgimento do espírito maternal em mim. Não que eu queira efetivamente ter filhos, mas ando desconfiada que não dá para lutar contra a bendita natureza. O namorado da minha irmã foi estudar em Londres por algum tempo e o meu coração quase não agüenta de sofrer por ela. Tenho ganas a todo o momento de abraçá-la, de consolá-la, de arrancar dela qualquer pensamento relacionado ao fato. E eu ainda não a vi chorando ou triste ou lamentando. Ela está encarando na boa, feliz por ele, tocando a vida, trabalhando, passeando, propondo programas divertidos e curtindo a saudade de uma forma madura e absolutamente improvável para mim. E eu fico dividida entre o instinto materno de não querer deixá-la sofrer – mesmo sabendo que a dor é mais do que fundamental – e a minha infantilidade latente – que não entende, não entende, não entende...

Eu nunca fiz terapia, embora ache que preciso, mas passo boas horas do meu dia (e principalmente da noite) pensando e repensando minhas neuras.

Já percebi, no meu processo de auto-análise (que neste assunto conta com a colaboração do meu pai), que a questão maior da minha vida é a separação. De todos os tipos e intensidades. Amizades, amores, lugares. Inocências perdidas, sonhos desfeitos, coração partido. Trauma de infância? Provável. Passei por muitas separações em meus 27 anos de história e não aprendi muita coisa com elas, não me fortaleci de forma alguma. Ao contrário, sou hoje uma desesperada. Sofro pelas separações dos outros, pelas minhas, pelas que ainda não sofri, sofro cada vez que me separo do mundo à noite fechando a porta do meu quarto escuro cheio de monstros, sofro compulsiva e histericamente pela maior de todas as separações: a morte.

Pode ser só medo de crescer? Pode. Crescer é, afinal de contas, separar-se.

E como tratar? Como curar? Tem solução para quem cresce cheia de dor, cheia de mágoas por estar crescendo, por ver o tempo se esvaindo, a vida passando, lembranças se apagando uma a uma, para quem olha para frente e vê sempre dois passos do futuro e logo em seguida o abismo inexorável, para quem ama e teme cada um desses novos passos, para quem é consciente da maravilha e do horror que é a vida, para quem despreza as crenças e portanto não pode ser consolada?

Faz pouco eu disse que separação é ferida e ferida é coisa que cura se cuidar direitinho. Bem, isso vale para a minha irmã.

22.1.08

as unhas e de certa forma o egoísmo nas relações humanas


Dias atrás minha mãe e minha tia ficaram chocadas porque pintei as unhas dos pés de uva e as das mãos de vermelho. Fazia tempo que eu não pintava as unhas e fiquei tão indecisa entre as duas cores que decidi a questão usando as duas.

Eu sou assim mesmo quando algo me põe em dúvida. Sigo a minha vontade maior, vou pelo caminho que me chama e excita. Não ponderei sobre estar certo ou errado usar as duas cores de uma só vez. Não avaliei as possibilidades de ficar estranho. Na minha cabeça, a solução foi natural e simples, além de justa: usei os dois esmaltes. O maior problema foi decidir qual usar nos pés e qual usar nas mãos.

O que sei é que as duas ficaram olhando e rindo e dizendo coisas engraçadas uma para a outra, tais como: “vem ver, Ligia, a cor que ela pintou o pé!”, “que bonito, eu também quero”, “mas a olha a cor da mão, Ligia...”, “ah, não Camila, um de cada cor não dá”, “eu falei pra ela” “hahahaha”. E, diante da minha cara de total desolação: “Não precisa tirar, só passa o uva por cima do vermelho”. Eu comecei a me desesperar e a repetir “por quê? por quê?” e elas responderam simplesmente “por que não se usa assim”.

Tentei defender minha atitude com argumentos adolescentes do tipo “eu sou assim”, “esse é meu estilo” e “não tenho culpa de ser uma pessoa original”, mas recebi olhares divertidos e cabeças balançantes que diziam “ai, tá, Camila, tu já passou da idade de ser original”.

E eu acho mesmo que já passei.

Saí na rua me cuidando o tempo todo, olhando para as mãos e para os pés obsessivamente, parando em frente a espelhos para analisar o conjunto e observando as pessoas, completamente desconfiada de que estivessem todas reparando em mim. De repente, o mundo inteiro poderia perceber que eu estava com esmaltes diferentes nas mãos e nos pés. Sabe aquele pesadelo clássico em que você vai de pijama para o colégio? Sabe Carrie, a Estranha? Pois bem.

Fui para a casa da minha sogra muito apreensiva, porque a primeira coisa que ela comenta quando me vê é algo sobre a minha imagem, preferencialmente sobre as unhas. Ela adora quando eu pinto as unhas. Well, ela não disse absolutamente nada. Estranhíssimo, pois era UVA com VERMELHO BERRANTE. Concluí, desta forma, que a coisa era tão absurda que ela preferiu nem comentar.

Unhas, para mim, são partes bobas do nosso corpo. Unhas crescem, unhas quebram, unhas são cortadas e jogadas fora. Assim como o cabelo. Adoro cortar, alisar, mechar, colorir e descolorir o cabelo. Adoro estar sempre mudando, porque cabelo e unha são coisas banais, mutáveis, boas de brincar. O cabelo não sou eu, a unha não sou eu. Pelo menos sempre raciocinei dessa forma. Mas talvez eu não esteja certa. Talvez eu não seja a unha nem o cabelo, mas eu seja o conjunto. E talvez as pessoas esperem mais disso do que eu imaginava. Sempre achei que ninguém se importaria com a cor da minha unha. Sempre achei que fosse assunto meu. Mas agora estou em dúvida. E daqui para frente não será mais nem natural nem simples comprar um esmalte.

Não estou fazendo disso uma caricatura da neurose feminina. Não estou afirmando que ninguém pode pintar a unha sem consultar o vizinho ou a conjunção astral. A única coisa que estou dizendo é que tudo o que fazemos importa para alguém. Desde as menores coisas, as mais simples atitudes, as mais íntimas decisões. A camada de ozônio é problema seu e a felicidade da pessoa que você ama é problema seu também. Tudo faz parte de um círculo, tudo é peça de uma engrenagem. Tudo está interligado e forma uma única e talvez absurda energia: as suas ações movem, sim, montanhas. As suas ações movem o mundo. E isto é fato: não dá para sair por aí fazendo o que bem entende. Temos responsabilidades sobre os outros das quais não podemos fugir.

Eu sei que você está discordando. Aliás, eu sei exatamente o que você está pensando, porque eu também não pedi para nascer.

14.1.08

to be or not to be again

Tomar decisões não é uma coisa simples. Assim como essa afirmativa não é nenhuma novidade. Tomar decisões costuma ser um inferno porque o nosso cérebro é uma fábrica de prós e contras desesperadores. Basta surgir uma segunda opção e pronto: a mente começa a pensar em todas as possibilidades existentes de acerto e até nas inexistentes de erro. Somos nossos próprios lobos, outra máxima que estamos carecas de saber.



Há, é claro, quem não tenha problema algum com essa coisa de casar ou comprar uma bicicleta. Gente que nasceu com piloto automático embutido. Liga e deixa rolar. Não, não se preocupem, não cantarei a música do Zeca Pagodinho. Sei que às vezes é bom deixar a vida levar, mas eu sou dessas que prefere levar a vida pessoalmente e com rédeas curtas. Certos bens assim, tão únicos e valiosos, não convém confiar a Deus, ao destino, ao terapeuta ou a qualquer outra dessas entidades já supercongestionadas.

Agora, se a dúvida fosse mesmo entre casar e comprar uma bicicleta, eu estava feita. Esporte não é nem de longe a minha praia. Muito menos bicicleta. E eu andaria onde, com esse trânsito maluco? Não, não. Muito arriscado! Casamento ainda me parece uma atividade mais tranqüila e segura, que não exige tanto da minha inexistente coordenação motora. Bicicleta é definitivamente para loucos.

Mas a dúvida não é essa. Até porque não existem dúvidas sobre o amor. Existem confusões e desentendimentos e existem loucuras, não dúvidas. A questão é existencial mesmo, dessas que é apenas você com você e mais ninguém neste mundo imenso pode interferir. Gostaria de não ser tão cobrada pela vida, mas não ser cobrada significaria não viver. O jeito é tomar logo uma decisão e continuar com a máquina funcionando, muita lenha na caldeira, muita força na locomotiva, muita ânsia de chegar e muito, muito cuidado para não descarrilar. Mas se descarrilar, também... Não será a primeira vez.

O ano mal começou e já estou diante das decisões. Decidirei, então.

31.12.07

vivam 2008


É o último dia do ano e me dou conta de que ainda não escrevi um post de final de ano. O clássico. O esperado. O melancólico e indefectível post de final de ano.

Estou desde o Natal para escrevê-lo. Pensei em usar como mote as músicas natalinas. Algo como uma divagação a respeito do porquê de ninguém nunca mais ter composto uma música natalina. Não pode ser simplesmente porque o Natal morreu e ninguém mais escuta música natalina. O Natal está aí, o shopping está todo enfeitado, as pessoas estão comprando presentes e não pára de tocar música natalina. Eu fiquei um bom tempo dentro do Bourbon comendo o meu pão-de-queijo com ice tea de pêssego e pensando nisso. Ao fundo do meu momento filosófico, tocava a melancólica e não menos indefectível canção “eu pensei que todo mundo fosse filho de papai Noel”.

Não. Nem todo mundo é filho de papai Noel. Aliás, não somos nós que não somos filhos e sim, o Seu Noel é que não é pai. Não é nem nunca foi. Criança sem presente é o que mais tem por aí e isso não é de hoje. É hora de canções menos chorosas e conformadas de Natal. Se é para o Natal seguir existindo, vamos revolucioná-lo. Vamos quebrar tudo. Vamos mostrar que se felicidade é brinquedo que não tem, a gente faz. A gente inventa. A gente brinca de ser feliz.

Mas no ano que vem. Neste, não dá mais tempo.

Pois estamos no último dia do ano e não há tempo para mais nada. O que foi feito está feito e o que não foi feito... Perdeu-se. Acabou.

Não ficarei aqui dando dicas para 2008. Não vou aconselhar a ninguém que seja uma pessoa melhor em 2008. Não vou enviar nenhum Power point que faça meus contatos sentirem-se as piores pessoas do mundo porque em 2007 não tiveram tempo para nada e ainda por cima brigaram, reclamaram e não perdoaram nada nem ninguém. Ora bolas, é claro que você fez tudo isso. E é claro que não fez também.

Não vestirei a camiseta do ame mais, confie mais, acredite mais, não seja tão rabugento, egoísta e reclamão. Olha, 2008 tem 365 dias. Dá tempo de ser um pouco de tudo. Tudo no seu tempo.

E tempo haverá em que só jogando tudo para o alto, mesmo.

Para 2008, meu conselho e desejo é: viva. Quem disse que você não foi ótimo em 2007? Quem disse que precisa ser melhor? Quem disse que você não tentou, lutou, não fez de tudo para dar certo? Eu, por exemplo. Dei tudo de mim. Fui maravilhosa o ano inteiro. Exemplo de ser humano. A astrologia é que não colaborou.

2007 foi um ano de muitas perdas e quase-perdas. Foi um ano triste, pesado, amargo, difícil de levar. Mas passou. E eu agradeço a mim por ter encarado e sobrevivido do jeito que deu. Ainda não superei, mas estou aqui, na porta de 2008, vestida de branco e de esperanças, no primeiro final/início de ano exclusivo com o meu amor, a família no coração e uma vontade imensa de mais um ano. 2007 foi ruim, mas fui eu.

Seja como for, agora preciso viver 2008. Preciso dele inteiro, preciso chegar ao seu final. Não importa o que aconteça. Não importa quantos pedaços ele me arranque. Ser humano regenera. Vocês entendem a importância disto?

Um ano novo é mais um ano de vida, mais um, e eu preciso de todos, eu não abro mão de viver.


Vivam 2008. Para si e para os outros. Do jeito que der. Vivam 2008 e estejam aqui ao final dele pra me contar como foi. Sejam melhores, sejam piores, reclamem, briguem, arrependam-se, perdoem-se, sei lá. O ano é de vocês. A vida é de vocês.

Vivam 2008.

16.12.07

feliz da silva

Andei me pesquisando no google e encontrei este link que reproduzo aqui, do blog da Cláudia Freire Lima.

Há alguns meses ela teceu elogios lindos e - cá entre nós - emocionantes sobre a escrita desta Mulher de Sardas.

Coisa booooooooooooa alguém te descobrir assim!

Cliquem e leiam, por favor, pois preciso me exibir um pouquinho:

TI TI TIS(tem que ir até o finalzinho da página e o título do post é Blogs. Antes de chegar nele talvez você repare que ela publicou a minha poesia Café da Manhã. Um luxo só.)


Não é perfeito demais ser considerada balsâmica???

Obrigada, Cláudia.

Estou sinceramente feliz da silva!

6.12.07

putz


Putz. Faz um tempo gigantesco que não escrevo. Quando venho conferir as datas percebo como o tempo passa rápido. Mentira. Eu percebo como o tempo passa rápido o tempo todo.

Putz. Estou elétrica agora. Sorte que o computador vai corrigindo o que escrevo, pois as palavras saem ininteligíveis. Aliás, foi bem difícil escrever ininteligíveis. Mas não, não estou bêbada ou alucinada de alguma maneira artificial. Eu apenas trabalhei até bem pouco tempo atrás. Trabalhei até as onze horas da noite. Agora eu trabalho até as onze horas da noite. Todos os dias. Até ontem eu não fazia nada. Hoje trabalho até as onze horas da noite. E fico assim alucinada.

Putz. O capitalismo me alucina. E eu voltei para ele em grande estilo. Shopping, jóias, peruas, desbundes. Acho que as peruas me alucinam. Elas chegam chacoalhando os seus ouros e eu fico hipnotizada, totalmente incrédula daquela realidade e totalmente querendo os seus cartões de crédito na minha comissão. O capitalismo me alucina por ser tão desprezível e me alucina por abrir tão generosamente os seus braços para mim.

Putz. Daqui a pouco vou escrever um livro sobre os dilemas de uma vendedora de jóias com crise moral. E ganharei rios de dinheiro. Não oceanos, como as amantes dos senadores; mas rios, como qualquer pessoa que tem uma idéia fantástica e absolutamente única sobre como vencer na vida pensando, todos os dias, 2359 vezes, olhando para a direção em que o sol nasce, “sim, eu vou vencer na vida”. Ou então mais 1001 maneiras fáceis de atingir a felicidade.

Putz. Muitos putz. Porque agora vendo jóias e não posso falar todos os deliciosos palavrões que eu falava por dia. Também não posso mais usar as minhas sapatilhas sem salto. Nem o cabelo esvoaçante. Nem pegar o bus Viamão e sair voando as tranças para a casa do Caio a qualquer dia e hora, só pra encher o saco dele, só pra deixar ele maluco 24 horas ininterruptas na minha companhia. Eu alucino o Caio. Sério. Eu sou o capitalismo dele. Tipo aquela coisa que a gente queria não precisar tanto, mas simplesmente não tem mais como viver sem, sabem como é? Graças a Deus ele precisa de mim. O Caio é um cara que não lê os manuais. E eu, é claro, estarei sempre lá para dizer que não, ele não comprou uma porcaria de celular que não tem mp3. Basta entrar em ferramentas – downloads – álbum – reproduzir.

Putz. Acabo de descobrir a fórmula da felicidade.

20.11.07

bolo e guaraná muito doce pra você



Não percam por nada deste mundo! O trabalho das meninas é incrível!!

Quem quiser, pode dar uma olhadinha no link aqui do lado e ficar só imaginando o que elas aprontaram para a nova coleção...

19.11.07

finding... me

E para que eu sirvo, afinal?

Não, por favor, não responda com gracejos. A questão aqui é dolorosa, solitária e complicada. Eu não sei qual a minha serventia para esse mundo e isso não deveria ser motivo de piadas. Muitos mataram