27.2.11

minha pequena grande história com Moacyr Scliar

o texto dele:

Vinte e uma coisas que a aprendi como escritor

Moacyr Scliar

APRENDI que escrever é basicamente contar histórias, e que os melhores livros de ficção que li eram aqueles que tinham uma história para contar.
APRENDI que o ato de escrever é uma seqüela do ato de ler. É preciso captar com os olhos as imagens das letras, guardá-las no reservatório que temos em nossa mente e utilizá-las para compor depois as nossas próprias palavras.
APRENDI que, quando se começa, plagiar não faz mal nenhum. Copiei descaradamente muitos escritores, Monteiro Lobato, Viriato Correa e outros. Não se incomodaram com isto. E copiar me fez muito bem.
APRENDI que, quando se começa a escrever, sempre se é autobiográfico, o que - de novo - não prejudica. Mas os escritores que ficam sempre na autobiografia, que só olham para o próprio umbigo, acabam se tornando chatos.
APRENDI que, para aprender a escrever, tinha de escrever. Não adiantava só ficar falando de como é bonito ( ... )
APRENDI que uma boa idéia pode ocorrer a qualquer momento: conversando com alguém, comendo, caminhando, lendo (e, segundo Agatha Christie, lavando pratos).
APRENDI que uma boa idéia é realmente boa quando não nos abandona, quando nos persegue sem cessar. O grande teste para uma idéia é tentar se livrar dela. Se veio para ficar, se resiste ao sono, ao cansaço, ao cotidiano, é porque merece atenção.
APRENDI que aeroportos e bares são grandes lugares para se escrever. O bar, por razões óbvias; o aeroporto, porque neles a vida como que está em suspenso. Nada como uma existência provisória para despertar a inspiração literária.
APRENDI que as costas do talão de cheque é um bom lugar para anotar idéias (é por isso que escritor tem de ganhar a grana suficiente para abrir uma conte bancária). O guardanapo do restaurante também serve, desde que seja de papel e não de pano. (...)
APRENDI que o computador é um grande avanço no trabalho de escrever, mas tem um único inconveniente: elimina os originais, os riscos, os borrões, e portanto a história do texto, a qual - como toda história - pode nos ensinar muito.
APRENDI que a mancha gráfica representada pelo texto impresso diz muito sobre este mesmo texto. As linhas não podem estar cheias de palavras; o espaço vazio é tão eloqüente quanto o espaço preenchido pela escrita. O texto precisa respirar, e quando respira, fica graficamente bonito. Um texto bonito é um texto bom.
APRENDI a rasgar e jogar fora. Quando um texto não é bom, ele não é bom - ponto. Por causa da auto-comiseração (é a nossa vida que está ali!) temos a tentação de preservá-lo, esperando que, de forma misteriosa, melhore por si. Ilusão. É preciso ter a coragem de se desfazer. A cesta de papel é uma grande amiga do escritor. (...)
APRENDI a não ter pressa de publicar. Já se ouviu falar de muitos escritores batendo aflitos, à porta de editores. O que é mais raro, muito mais raro, são os leitores batendo à porta do escritor.
APRENDI a não reler meus livros. Um livro tem existência autônoma, boa e má. Não precisa do olhar de quem o escreveu para sobreviver.
APRENDI que, para um escritor, um livro é como um filho, mas que é preciso diferenciar entre filhos e livros.
APRENDI que terminar um livro se acompanha de uma sensação de vazio, mas que o vazio também faz parte da vida de quem escreve.
APRENDI que há uma diferença entre literatura e vida literária, entre literatura e política literária. Escrever é um vício solitário.
APRENDI a diferenciar entre o verdadeiro crítico e o falso crítico. O falso crítico não está falando do que leu. Está falando dos seus próprios problemas.
APRENDI que, para um escritor, frio na barriga ou pêlos do braço arrepiados são um bom sinal: um livro vem vindo aí.

o meu email:

Acabo de ler um texto seu chamado "Vinte e uma coisas que aprendi como escritor". Eu sempre fico impressionada com os seus textos, sendo que alguns me marcaram de forma muito particular, como uma crônica em que você falava sobre cartas e uma outra, de alguns anos atrás, chamada "Solidão na Adolescência". 

A das cartas porque sou fanática por elas, escrevo cartas para todo mundo desde pequena, tenho uma "coleção" com mais de 700 cartas que recebi durante toda a minha vida, e isso que conto 23 anos. São cartas de pessoas especiais, algumas de grandes amigos, outras de gente que apenas passou por mim e que mal lembro o rosto. Mas são todas pedaços meus, que de certa forma contam a minha história, e que rendem sempre lembranças maravilhosas da minha evolução. 

Já a crônica sobre a solidão ficou em mim por um motivo simples: eu ainda era adolescente e, como tal, me sentia sozinha, muito sozinha, apesar de não ser. Hoje ainda me sinto só, algumas vezes, por algumas razões, e essas razões se enquadram no seu texto que li hoje.

Escrever me faz sentir só. Escrever me dói, muitas vezes. As pessoas dizem: "você escreve bem, gosta de escrever, porque você não se torna escritora?" Elas perguntam assim, desse jeito, com essa simplicidade, como se não passasse de uma questão de querer. Deus! Como eu quero escrever! Mas como é difícil, como é árduo, como é complicado superar as próprias inseguranças e críticas! Escrevo, escrevo, escrevo, e nunca é bom, nunca está pronto, nunca é o que quero. Que luta desesperada...Que solidão. Então vem você e o seu texto. E eu leio e me deslumbro. 

VOCÊ vive o que eu vivo, guardadas as proporções, é claro. 
VOCÊ copiou outros e não achou errado. 
VOCÊ foi autobiográfico e não se prejudicou por isso. 
VOCÊ teve idéias em momentos insólitos e não as desprezou; pelo contrário, anotou-as no primeiro pedacinho de papel que encontrou. 
VOCÊ foi (e ainda deve ser) atormentado por idéias, idéias que nascem pequenas e vão se agigantando e não deixam você fazer mais nada enquanto não as realizar. 
VOCÊ provavelmente lutou contra essa máquina que aqui escrevo, simplesmente porque não há vida, não há charme nessas letras que não são suas. 
VOCÊ deve ter penado até entender que um bom texto é válido, que não é necessário que cada linha escrita seja a obra-prima da sua vida. 
VOCÊ deve ter rasgado muitos projetos, se desencantado e jogado fora muitas palavras que não faziam o sentido necessário, que não eram boas, que precisavam ser escritas melhor.
VOCÊ deve ter engavetado muitos sonhos, porque não era a hora deles, deve ter visto amadurecerem muitos frutos da sua imaginação, deve ter abandonado muitos livros, porque embora se pareçam com filhos, não os são, e você pode abandoná-los se não forem bons para você. 
VOCÊ enfrentou críticos de verdade e não se abateu, ou se o fez, não desistiu. 
VOCÊ carrega o vazio que os escritores e os "projetos de escritores" como eu carregam, e são muitas as caras desse vazio. Há vazio no terminar um livro como há vazio no querer começá-lo e não saber como. Há vazio no espaço de tempo em que alguém lê o seu livro e você aguarda a opinião dessa pessoa, porque você está expondo partes secretas de você, que custam a sair e que talvez jamais sejam compreendidas. 
VOCÊ é um viciado no escrever e escreve sozinho, e escreve calado, porque escrever é como uma droga que faz em cada pessoa um efeito diferente e inexplicável.
VOCÊ é viciado como EU, e isso temos em comum, embora é claro, em níveis de qualidade bem diferentes, mas é a mesma doença, e você como médico sabe: não há cura, não tem jeito. 
As vinte e uma coisas que você aprendeu como escritor fazem parte da minha realidade, eu as vivo todas, eu as quero, eu as amo, eu as levo comigo para que um dia eu também possa dizer que as aprendi.
Obrigada, caro Moacyr, por você escrever tão bem e entender tão bem quem tenta escrever.
Camila Doval.

a resposta dele:

Camila: obrigado por tua belíssima mensagem, uma das mais belas que já recebi, e que mostra não apenas o teu talento como também tua grandeza como pessoa. Recebe os parabens e o abraço deste fã, o Moacyr Scliar.

Lá se vão oito anos. Guardei o email e cada vez que o releio meu coração bate forte. A generosidade de cada mestre que encontrei pela vida me comove e me transforma. Sempre. Poucas palavras para eles, o mundo, nelas, para nós. Como é bom!   
 

6 comentários:

  1. Olá Camila!
    Perdemos o nosso grande escritor Moacyr Scliar, mas em breve ganharemos uma nova escritora no cenário gaúcho e nacional: VOCÊ. Infelizmente, descobri o seu blog a pouco tempo, e desde então, me tornei uma leitora assídua dos seus textos. Bem, resolvi escrever esse comentário para que fiques sabendo que Concordo plenamente com as palavras de Moacyr. Não deixes de escrever nunca. Tens um talento nato para a escrita. Ela está em você. Ah! Já estou com o meu exemplar do livro 40 contos de oficina. O primeiro de muitos que com certeza virão.
    Beijos,
    Ana

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  2. Oi, Camila!

    Lindo, lindo, lindo... Bem, de vcs dois, só poderia vir isso: transbordamento de emoções e de sensibilidade!!!!

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  3. Filha, não somos apenas nós, tua família,que achamos teus textos lindos,bem escritos,ricos. Mas ao mesmo tempo de uma simplicidade que nos faz cada vez mais querer ler o próximo.Sempre procuramos te convencer disso e sempre tentamos te dar apoio em publicá-los. Te amamos muito.
    Bjos Ligia e Antonio.

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  4. Oi, Camila, faz um tempo que não te visito... Lamentável ver os poucos pontos de luz na escuridão que vivemos se apagar; por um lado, me sinto órfão quando se vão bons escritores, por outro, temos que dizer que mais uma vida cumpriu sua missão com grandeza, essa dos escritores e sonhadores...
    Bjão.

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  5. Olá, Camila, sou visitante do seu blog há algum tempo, mas é a primeira vez que vou deixar aqui meu comentário.
    Poucos textos eu já li com tanta paixão e tanta presença do autor como nessas suas linhas.
    Scliar com certeza deixará saudades.
    E quanto a você compartilho desse belo sonho de viver das Letras. Eis as dicas de Scliar para nos orientar.
    Grande abraço e muito sucesso para ti.
    att

    Anderson

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  6. Descobri teu blog hoje, li a primeira página de posts e depois este. Gostei do que li, especialmente da sinceridade que passa o texto acima. Bjs e parabéns

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não se nasce mulher, torna-se mulher [simone de beauvoir]