26.5.08

camada de hálito quente


Parece que o veranico de maio acabou. Sinto o ar gelado e há vento. Observo uma e outra árvore que a vista da minha janela alcança e elas balançam. Imagino que está frio lá fora. Imagino que a camada de ar quente se desfez e a camada de ar frio que se mantinha afastada pela pressão agora pode finalmente se mover e tomar seu lugar. O seu lugar no inverno. No junho que já está quase chegando.

Foi algo assim que vi na televisão. Algo sobre o movimento das nuvens, dos ventos e das camadas frias e quentes da atmosfera. Uma não ocupa o lugar da outra. Uma espera a outra sair para poder entrar. Mesmo que esteja tudo fora de hora. Mesmo não sendo assim que era pra ser.

Não tem problema. Já entendi que nada é certo ou errado no mundo. Já entendi que dizer inverno não significa que deva entender frio. Uma coisa pode ser outra. Só não pode ser ao mesmo tempo.

Eu entrei no cinema e quando saí o veranico havia acabado. Eu entrei no cinema e quando saí as camadas de ar haviam se movido. Eu entrei no cinema e quando saí não me importava mais se já era maio, se ainda não era junho, se já havia passado uma ou duas horas, se já havia passado cinco anos, se já havia passado parte de uma vida, de uma vida inteira que eu não sei quanto tempo terá. Eu entrei no cinema e quando saí percebi que algo estava fora do lugar, mas não no lugar errado. Havia um beijo em minha mão. Contrariando todas as previsões, havia um beijo, e era quente, em minha mão.

O tempo é estranho mesmo, mas não há outro lugar para se morar.

14.5.08

o ano dos vinte e sete anos



São meus últimos minutos com vinte e sete anos. Gostaria que o tempo não fosse algo tão angustiante para mim. Minha cabeça se desespera pensando se fiz tudo o que deveria ter feito, se não fiz nada do que não deveria ter feito, se posso encerrar os vinte e sete anos em paz.

Bem, eu tenho certeza de que fiz tudo errado. Nada me parece no lugar, olhando para trás. Mas é um para trás tão próximo que quase posso tocá-lo. É um para trás tão próximo que aparentemente, se eu quisesse, poderia consertá-lo.

Não. Deixa assim. Alguém ainda hoje me disse que errar faz bem.

Este ano de vinte e sete anos foi um ano meio vazio. Eu não aprendi muito. Pelo contrário, me revoltei com o aprender. Achei aprender dolorido demais. Dispensei. Evitei. Fugi. Me neguei a aprender qualquer coisa, quis apenas sentar e chorar. Quis me largar. Quis não entender nenhum porquê. Quis me contentar com o pouco. Quis amargar minha alma tão doce, para ver se a voz ficava mais firme. Para ver se eu crescia. Não ficou. Não cresci.

E tudo o que eu não quis aprender de jeito algum nesse ano de vinte e sete anos, aprendi na semana passada, durante a chuva que nunca acabava.

Eu me molhei tanto.

Mas tanto.

Que eu entendi.

Não dá para esperar pela chuva. Não dá para se preparar para a chuva. Mas não dá para a chuva me pegar de surpresa.

Eu não vou sair de guarda-chuva todos os dias. Eu não vou pegar o casaco mesmo com o sol brilhando lindo lá fora. Eu não vou imaginar o pior a cada manhã. Eu não vou me acostumar a me proteger.

Eu vou sair sem guarda-chuva se não estiver chovendo. Vou caminhar sem pesos. Sem armas pretas de bolinhas brancas. Vou caminhar sabendo que a chuva existe. Mas não vou pensar nela. Não enquanto ela não acontecer.

Nesse ano dos vinte sete anos eu aprendi uma coisa só, e bem no finalzinho:

Eu não tenho que estar preparada para a chuva. Eu tenho que estar preparada para me molhar.


Pronto. O relógio virou para meia-noite. Ou muito me engano, ou já posso escutar os fogos dentro de mim.


5.5.08

conclusões após a chuva que ainda não acabou

1
Antes de dormir, consultou a previsão e viu que não faria frio no dia seguinte.
E amanhã nevou.

2
A gente pensa que vai morrer, mas não morre.
A gente só morre de morte mesmo.
A gente não morre de mais nada.

3
E o Inter tratou de lavar a minha alma.
não se nasce mulher, torna-se mulher [simone de beauvoir]