1.11.07

ainda sobre solidão


Para mim, a solidão tem gosto de morte. Ficar sozinha me deixa desesperada. E não estou falando da solidão de quem não tem um amor. Estou falando de solidão propriamente dita. Estou falando de ficar só por um tempo suficiente para enlouquecer.

Não me importa que classifiquem a minha fobia como doença. Cada um tem a sua e a minha é não suportar, de maneira nenhuma, a solidão. Eu fico sozinha e choro. Não importa se em casa, se num ônibus, se no meio de uma multidão. Basta eu me sentir sozinha, incompreendida e incomunicável, para o desespero vir à tona avassaladoramente.

E, dentro disso, alguns comportamentos se tornam incontroláveis. Em primeiro lugar, sinto uma raiva profunda daqueles que, hipoteticamente, me deixaram sozinha. Eu não nasci para ficar só e não deveria ser difícil para as pessoas que me conhecem compreenderem isso! Não nasci para almoçar e jantar só. Não nasci para assistir filmes só. Não nasci para ficar só em um sábado ou em uma véspera de feriado. Não nasci para deitar sozinha em um quarto escuro e tentar dormir com o barulho dos fantasmas.

Por outro lado, eu forço as pessoas a me deixarem só. Sei disso, não sou nenhuma idiota. Sei o quanto me torno insuportável e ameaçadora. Sou teimosa e briguenta. Sou um touro maluco, como diz o tal zodíaco. Só não posso crer que todos os infelizes nascidos em maio sejam como eu. É demais para um único e pequeno universo.

Para mim, a solidão tem gosto de morte. Porque a morte deve ser isto: estar completamente só. Não há mais troca, toque, dois. Não há mais a única razão plausível para a nossa existência: existir. Não suporto a idéia de não existir ou de passar a existir como pregam as inúmeras filosofias espirituais. Deve ser por isso que não suporto nenhuma delas. Todas me contam coisas incoerentes sobre o que é a vida. Todas me sugerem coisas grotescas sobre o que é a morte. E nenhuma chega perto do que eu sinto. Ninguém pode fazer da morte um lugar sequer admissível se for para ficar só. E eu não vejo nada de mal em não me vincular a nenhuma fé ou crença ou filosofia. As pessoas costumam achar que é birra ou ignorância minha, e não deixa de ser verdade, pois eu sei que não acreditar é uma livre escolha pelo pior caminho. Melhor: pelo caminho mais difícil. Mas há algo em mim que não me permite relaxar e que me faz estar constantemente em luta contra a realidade. E a solidão traz para o mundo o que apenas o mundo consegue abafar:

Eu não tenho nenhuma certeza de que existo e, quando estou só, tenho absoluta certeza de que tudo o que eu quero é existir.

6 comentários:

  1. o erico verissimo escreveu que só não gosta da solidão quem tem medo de si mesmo. será?
    de minha parte, de vez em quando consigo tornar a solidão em algo produtivo, mas na maior parte das vezes, beiro a loucura, mesmo, e meu jk parece uma cela gigantesca. a solidão em público também fica terrível. e também sinto que eu próprio sou o culpado pela minha solidão.
    agora mesmo estou só e meu único desejo é dormir, mas não consigo.
    um beijo

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  2. Acho que te entendo, ruiva.

    bjx

    RF

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  3. com certeza o Erico tem razão

    e como, afinal, não ter medo de si mesmo?

    somos inexplicáveis

    e só isso já me causa pânico...

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  4. Me identifiquei querida! Este texto me arrastou para uma reflexão não planejada e acabo de me decretar que eu não tenho certeza de que existo também! Beijão procês aí!

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  5. oi...gosto da solidão, do lento caminhar pelas rus, ou da liberdade para virar as paginas de um livro, ou simplesmente ouvir Mozart, música, nfim. mas, também, para escrever. não me sinto só qunado estou ou me deixam só. teu texto é muito reflexivo, denso e excelente. gostei muito. abraços.

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  6. ei... vamos atualizar isso aqui?
    heheh

    beijos. saudade de ti.

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não se nasce mulher, torna-se mulher [simone de beauvoir]