25.2.12

em fuga

Vai chover a noite toda mais longa porque não há noite melhor para lavar as janelas e os pátios e fechar as casas limpas e sós nas ruas até o último dia do ano. A cidade acaba. O mar imenso. Sente o cheiro de ir embora que bate na beira e volta. O meu coração fica trancado no esconderijo da garagem, comigo ele não volta, com a minha vida ele não vem. Eu juro, com a minha vida ele não pode mais. 

Eu vim pra (res)guardar. Me deixem ficar mais um pouco?

20.2.12

passagem

Me dá uma janela que passa; eu não preciso mais do que isso pra ir embora. Aprendi a partir aos nove anos e desde lá o que se parte aqui eu recupero além. O que eu não recupero fica sendo a minha paisagem, vai nos meus olhos um bocado tristes para quem voa, no meu coração que só descansa ao desembarcar em ti.

Eu nunca sei o quanto falta da estrada, eu sempre sei o quanto resta do adeus.

10.2.12

beira

A minha cor é úmida. Toca. É a cor do mar alto que vem buscar teus pés. Teus pés cravam na areia e demoras. A minha cor é quente. Vê. A minha areia é macia. Cheira. A tua ressaca me desafoga. Te engulo e não te devolvo à praia nem que sussurres me deixa nas minhas ondas. Nem que implores só mais um pouco nas minhas profundezas.

A minha cor é espuma.

6.2.12

love story

Eu vim te buscar. Não saia do lugar, não te mova, não esboce sequer a intenção de vir comigo. Eu vim te buscar mas fica parado no teu lugar. Quero te cercar, te cheirar, tentar te arrastar. Quero aprender na marra que tu é impossível, que não te moverá um dedo em minha direção, que o desejo do ter é meu, só meu, e eu que conviva com ele; tu é mundo, é outro, é teu, é o que será da tua vida.  

Me ensina a vir te buscar e a voltar com felizes mãos vazias.  
não se nasce mulher, torna-se mulher [simone de beauvoir]