23.11.11

procrastinação

Me digo à noite porque este silêncio obriga meus dedos a afinal caírem rápidos e certeiros sobre o teclado. De uma só vez saio. De uma só vez me transformo em duas ou três frases. Tem que ser neste silêncio. Tem que ser neste resto de instante contra a hora de dormir. Tem que ser neste último movimento da angústia sobre tudo o que não fiz hoje. E eu tive o dia todo. 

Tudo o que eu não fiz hoje vem à noite, aqui, dizer de mim.

16.11.11

as linhas

Amo as palavras, mas não me prendo a elas. Não pense que duas ou três me amarrarão. Elas não têm força para tanto. Eu as apago assim que as escreve.  

Eu sou agora o que ainda vou escrever.

12.11.11

medo

A vida toda assim como hoje é o que eu quero. Não pergunta o nome. Não tem nome. Nome? É um sentido, não um nome. É menos a visão que o olfato. É menos a audição que o paladar. É muito mais tocar o viver numa pele arrepiada.  

10.11.11

pisada

A primeira manhã cinza dos últimos dias abriu a minha janela e eu aceitei porque a vi se formar no vento furioso da minha insônia. Apaguei a vela e dormi sabendo que acordaria fria e cinza e calma. Quero este dia cinza, quero ser cinza e me lançar mundo afora. Mesmo que nunca mais me reconstrua e volte. Mesmo que me disperse pelas calçadas da minha cidade, sob os pés da minha cidade cinza de todas as cores, minha cidade alta de onde eu vejo o sol.

Ainda nem havia faltado luz.

7.11.11

segundas

Tem aqueles dias em que a vida é só minha. Está vendo o sol, ali em cima dos prédios, cobrindo o parque?

É meu.

5.11.11

triiiim

É lá onde eu amo que eu existo. Pouco importa tempo, forma, dor. Sempre doerá. Se é mais ou menos, é amor de qualquer jeito, do que sou feita, do que vou me sustentando, despertador que toca todos as manhãs na minha cabeceira e sinto preguiça de me esticar para dar fim.

Ele chama, eu levanto e vou.
não se nasce mulher, torna-se mulher [simone de beauvoir]