29.5.09

sinais



Aos poucos perco o medo de doer. Quero ser teu amor e tua vida. Mesmo que nenhuma vida dure para sempre. E o amor. Tenho estas palavras e estas palavras jamais se desfarão. O que há de eterno nas palavras? Há tu, que as lê. Para sempre novidade, a cada pousar dos teus olhos e, talvez, do pousar dos olhos de teus filhos.

- Escreve mais, então. Quero te ler sempre diferente.
- Leia de novo. Nunca se repete. É sempre hoje nos meus sinais. Refrata-os.
- Sim. Sinto. Aqui. E aqui. Aqui também.
- Sou eu inteira em cada pedaço de ti.
- São pedaços teus inteiros em mim.
- Leia.
- Leio.
- Me cura.

28.5.09

Júlia e uma coisa



Júlia trancou a porta depois de se despedir das amigas. Noite do vinho. Das comidinhas. Das risadas. De algumas lágrimas. Uma vez por mês.

Recolheu os copos. Reorganizou as almofadas sobre o sofá. Passou um pano úmido na mesa. Passou um pano seco por cima. Tentou as almofadas de um jeito diferente. Recolocou-as do jeito que estavam. Encontrou um cigarro da Joana caído perto do encosto. Foi jogá-lo no lixo, mas parou. Segurou-o entre os dedos e levou-o até a boca. Fez que fumava, sorrindo. Fumara quando era adolescente. Nas boates, antes de ter idade para tomar batidinhas. 

Deitou no sofá, bagunçando as almofadas. Levantou um pouco o volume do som. Madeleine Peyroux.

He smoked his stogies in bed. Levantou-se para buscar um fósforo. Estirou-se de novo sobre as almofadas. Os olhos fixos no cigarro. De uma mão para a outra. Entre o indicador e o anelar. Entre o polegar e o indicador. I've been lonely before. Acendeu. Tragou. Segurou a fumaça um instante. Balançou a cabeça. Júlia, Júlia. I asked the boy for a few kind words. Soltou a fumaça aos poucos. Fazia tanto tempo. Voltar agora. It was wrong either way. Tão adolescente. Tragou mais fundo do que a primeira vez. Faltava um café. He threw a few of my things around. Soprou a fumaça com força. Viu a brasa vermelha queimando. Um únicocigarro. But I'm all right. Sentou-se melhor. As últimas tragadas. Júlia fumando. Mais uma vez. Outra vez. Um único cigarro. Esquecido no canto do sofá. I'd like to believe that it's easy to leave. Os olhos brilharam no escuro. O aparelho de som piscava luzes ora vermelhas ora verdes. That wherever you are, you're still driving my car. Olhou pela janela. Levantou-se e aproximou-se para enxergar a rua. A última tragada. Abriu o vidro. O barulho atrapalhou a música. Expirou. But tears don't leave any scars. A rua estava lá. Mirou nela. O cigarro foi caindo vermelho. Brasa viva. Brasa ainda. I've been lonely before. Não conseguiu ver onde ele caiu. Apagou na queda. No tempo de cair. Em algum lugar. He sang Christmas songs in bed.

Fechou a janela, escovou os dentes e foi dormir.

12.5.09

as coisas de Júlia



A casa ficou assim. Abertas as cortinas. Reviradas as fotos. Desenroladas as toalhas. Trocada a ordem das almofadas sobre o sofá. Desfeita a cama. Terminado o aromatizador. Esquecidas as contas. Rasgada a lista de compras do mês. Desajustada a antena. Desvirado o elefante. Empoeirado o enfeite. Despidos os cabides um por um. Torto o quadro. Caído o pano de prato. Desligada e guardada a calculadora. Deixado o anel.

Não ficou nada. Em nenhum canto ou gaveta, dentro da máquina de lavar ou da geladeira, no armário do banheiro, embaixo da cama, atrás das portas, na caixa de cds ou nos arquivos do computador.

Mas a casa meio vazia era a Júlia. Um livro sim, um livro não, todos os vãos constando na estante. A macela secando no varal. O fio de cabelo escorregando pelo box de vidro. O resto do sabonete de erva-doce melecando a saboneteira. O café destampado perdendo o aroma. As camisas do Faustão perdendo a graça na tv.

Era a Júlia até aquela preguiça de pegar a coberta quando fazia frio no meio da noite.

não se nasce mulher, torna-se mulher [simone de beauvoir]