25.8.09

me deixa

Eu não sei por que me sinto presa. É lógico que ninguém amarra minhas pernas. Estou parada por vontade pura e minha. Paro e pergunto se há mal verdadeiro em não querer caminhar.

- Mas nem um pouco? Não tens a mínima vontade de conhecer o que há logo ali na frente?
- O que há ali na frente que não há aqui? De que é feito o chão ali na frente senão do mesmo barro deste aqui? E o céu? Qual o azul do céu três passos adiante que eu não consigo ver daqui?
- É o mesmo chão. É o mesmo céu. Mas é à frente.
- Mas meus pés não vão mais do que isso. Vai, vê e me conta, se puderes. Não me importo de ficar para trás. Gosto de ouvir teu relato. Gosto mais ainda de ouvir meu imaginar.

21.8.09

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Ouço a voz e acho que não poderia ser outra. Quando os olhos passam acompanho e tenho certeza. Vêm as mãos e.

Sei que há dor nisso. Não se escapa de doer. Mas há um mundo todo que a dor emoldura. É preciso apenas não tocar nas bordas.

Se tocar, não escorrer.

Há uma pessoa para mim entre tantas que poderiam ser. Há uma pessoa e não importa a escolha. O medo importa, mas não impede nem diminui. Eu passei pela divisa. Nos desenlaçamos do perder. Nada embaça nossos olhos. Vamos. Vamos sem parar. Se algum dia pararmos, será porque nunca mais deixamos de ir. A pausa é necessária quando diante de um passo tão maior. E então nós nunca deixamos de ir.

Feliz aniversário. Feliz dia. Feliz vida.

7.8.09

é diferente

Que misto de incredulidade e pavor sinto a respeito da gripe A. As notícias me desesperam. Cuido obsessivamente as mãos. Eu tão acostumada a mordiscar a unha quando à toa. Quando tensa. Quando surpresa. Hesito ao encontrar as pessoas. Quase não cumprimento os amigos. Embora todos pareçam tão distantes de qualquer mal.

Ao mesmo tempo, pego ônibus. Vou aos cafés. Não perco aulas. Abraço e beijo sem parar os que amo. Não quero que sofram nada sem mim. Tenho o ingresso para o show do Roberto. E como não teria? E como evitaria viver? É um vírus e está no ar, em tudo, em todos. É como o próprio medo. E quem deixa de sentir.

Eu poderia ficar em casa e antecipar o futuro. Trabalhar pela internet. Comunicar-me pela internet. Eu posso fazê-lo. Posso mandar entregarem o rancho. O mundo, hoje, é feito para nos escondermos dele. Mas ele não deixa nunca de estar lá fora. Quando me escondo, os galhos da árvore batem em minha janela. E eu moro no terceiro andar.

A cada notícia de morte me desespero por um segundo ao pensar em ser a próxima. É como se antecipassem a ordem. Como meu corpo reagirá? Haverá tamiflu para mim? De que realmente as pessoas morrem? São uns espirros, uma febre e acabou? Uma gripe como tantas que tive na vida. Um vírus pairando. A morte no ar.

Eu sei que ela sempre está no ar. Mas é diferente.

não se nasce mulher, torna-se mulher [simone de beauvoir]