26.6.09

Júlia e o pai

– Pai, você tem de ir.

Mariana segurava o rosto do pai com as duas mãos suaves e o olhar firme. Júlia, sentada na cadeira da mãe, entrelaçava as pernas como se fossem de borracha, mordia os lábios como se fossem culpados. Pedro estava na porta da varanda, virado para a rua, tamborilando os dedos na madeira. Pedro chorava. Mariana disse:

– Olha o estado desta casa, pai! Desde que a mãe. Desde que ela. Você não cuida mais de nada, pai. Tudo sujo, quebrado, desfazendo-se a cada dia... – caminhava e apontava ao redor com as duas mãos. – Pai, nós não podemos ficar com você. Todos nós trabalhamos o dia inteiro e você ficaria sozinho. Como aqui. Sem ela. Sem ninguém. O senhor entende?

O pai baixou os olhos. Mariana perguntou a Pedro se ele concordava. O pai buscou o filho. Pedro tentou se virar, mas não pôde. Os ombros sacudiram. Tamborilou mais forte.

Mariana e o pai voltaram-se para Júlia. Mariana repetiu a pergunta. Se Júlia não achava a mesma coisa. Se o pai não ficaria melhor morando lá. Bem cuidado e em boa companhia.

– Em boa companhia? Eu não sei, Mari. Eu não sei mais.

Mariana riu e fechou os olhos por um instante.

– Você não sabe? Como assim, Júlia? E a nossa conversa de ontem? E as nossas conversas do mês inteiro? E aquele e-mail?

O pai suspirou.

Júlia olhou para ele. Para os cabelos todos brancos. Para o colarinho meio para dentro e meio para fora do suéter. Para as mãos entrelaçadas no colo, cobertas de vincos e manchas escuras. Desde quando elas tinham aquelas manchas? Será que o pai se queimara no fogão? Era sempre a mãe quem acendia o fogão e alimentava a chama no decorrer do dia. E agora aquelas manchas.

Júlia sentiu a força das mãos segurando sua cintura para que não caísse dos patins. Sentiu o calor delas quando seguraram as suas no dia de assinar a separação. Sentiu até o tapa que levou na bunda no dia em que empurrou Pedro pela escada por causa da boneca que ele cortara os cabelos.

Agora as mãos carregavam as duas alianças. A grande no anelar, no qual tinha lugar marcado. A pequena no mindinho. Tentando encaixar-se. Incomodando a cada tarefa. Estava ali. Talvez por isso o pai tivesse se atrapalhado e se queimado no fogão.

– Júlia – o pai disse.

Os três olharam para ele. Para o pai de olhos vermelhos e mãos entrelaçadas. Júlia entendeu a raiva da Mariana. O terror do Pedro. Não era o pai.

– Sim, pai? – Mariana interrompeu.

– Será que eu vou gostar? – ele perguntou sem desviar de Júlia.

Júlia sorriu. Desenlaçou as pernas. Sentiu os lábios formigarem. Não tinha dúvida.

– Não, pai. Você não iria gostar nenhum pouco.

18.6.09

não vou me adaptar mesmo



Esses dias eu fui num aniversário e uma amiga que eu não via há exatos 20 anos, ou seja, desde os 9 (!) me reconheceu. Ela disse para outra pessoa que eu estou com a mesma cara. Sim, Arnaldo, eu tenho a mesma cara que eu tinha. Só não caibo mais nas mesmas roupas porque casei e é fato que casamento engorda. Ninguém, à primeira vista, acredita que tenho 29 anos. Falando muito sério, cá entre nós, nem eu acredito.

Não que eu não encha mais a casa de alegria. Esse continua sendo o meu melhor papel. Mas agora encho outra casa. E às vezes parece que não vou me adaptar.

Desde que saí da minha casa − ops, da casa dos meus pais − ops, ops, da minha casa, ué! − cada vez que chego lá, sento e fico falando falando falando descontroladamente e olhando pra tudo e tocando em tudo e querendo saber absolutamente tudo porque parece que fico tentando compensar os dias que estive fora. Compensar a mim e a eles, o que é mais engraçado. Na minha cabeça fica todo mundo na mesma ânsia que eu. Na mesma ânsia de me reencontrar. De estarmos sentados na sala contando coisas e rindo muito alto. De nunca chegar esse papo de ser adulto. De nunca sair. De nunca nem ver os anos passando. Nada a ver com o Caio ou com a minha nova casa. Essa conversa é outra. É com a minha família. Pra quem eu sempre volto. Quem eu quero bem não me esquece. Eu não deixo. Eu não largo do pé.

Tenho essa coisa de não querer crescer. Esse toque Peter Pan. Tenho três casas. Moro com meus pais, com meu marido e na Terra do Nunca que é aqui dentro. Talvez por isso eu mantenha a mesma cara e a mesma voz de sempre. Aqui dentro o tempo não existe. Aqui dentro as únicas coisas que ainda me acalmam são o cafuné da minha mãe e a voz do meu pai. Eu nunca vou me adaptar em não estar lá.

Fico aqui falando coisas que ninguém ouve. Ouvindo coisas que ninguém diz. Tudo bem. Nunca terei 29 anos neste blog. Sou e serei sempre uma mulher de sardas sem tempo nem espaço. Quem há de saber por quanto tempo existo? Quem terá notícias de mim se eu não as der? Quem passará por aqui e voltará? Aqui é minha casa também. É onde me digo ao mundo. E na linguagem as barbas não crescem. Elas se adaptam no rosto de quem as quer.

15.6.09

Júlia e os anos 50



– "Alô."
– "Júlia! Tenho algo pra te mostrar. Posso passar aí?"
– "Agora, Antonio?"
– "Agora. Você precisa ver. Quer dizer, ouvir. É incrível. Quer dizer, eu acho incrível. O pessoal disse que é de arromba. A Nara, o Ronaldo. Até o João! Já te apresentei o João? Ele é novo. É o ouro. Você precisa conhecê-lo. E a Tereza. A Tereza chorou. Toquei por telefone, ela está nos Estados Unidos. Mas, Júlia, só ouvindo da sua boca é que vou saber. É uma coisa nova. Uma bossa. Uma uva. Você vai amar."
Júlia riu e interrompeu Antonio.
– "Vem logo".
Em dez minutos Antonio batia na porta da Júlia. Ele, o violão e o chapéu.
– Entra logo – disse Júlia, segurando a caneca do James Dean. – Que bossa é essa?
– Calma. Você já vai ouvir. Desliga essa droga. Você também comprou uma, hein? Em todo lugar que vou tem uma dessas.
Júlia balançou a cabeça.
– Eu ganhei do meu pai. Você não tem um televisor ainda, Antonio?
– Não dou pelota.
– Estava assistindo a Maysa. Linda, não? Pena que em preto e branco os olhos se apagam.
Pararam um instante. Um ao lado do outro. Maysa cantando. Antonio apoiado no violão. Júlia colocou o chapéu dele na sua cabeça. Provou o café. Frio.
– Essa dor-de-cotovelo do inferno.
– Para, Antonio. É lindo.
– Mas isso vai acabar, coração
– Ah, vai ,é?
– Vai. Senta aí. Desliga o televisor. Vou mostrar uma coisa pra você. Tem um uisquinho?
– E como eu seria sua amiga se não tivesse?
– Não se preocupa. Enquanto você usar esse lenço de bolinha no pescoço eu vou te amar. Mas presta muita atenção porque daqui a pouco é isto que vai aparecer naquela telinha. E com a Elizeth. Ela vai colocar.
– É sério? – Júlia perguntou.
Serviu o uísque dele. Pingou um gole no café. Provou. Frio. Ele jogou os cabelos pra trás, rindo alto.
– Júlia, eu vou te mostrar o que vai causar o maior bafafá nesta cidade. Melhor: neste país.
Júlia ficou séria. Largou-se no récamier.
– Mostra logo.
Antonio sentou-se no tapete redondo cor-de-rosa. Acomodou o violão no colo. Ensaiou uns acordes. Olhou nos olhos de Júlia. Começou.
– /Vai minha tristeza/ e diz a ela que /sem ela não pode ser/...
Júlia endireitou-se no récamier.
– /Diz-lhe/ numa prece/ que ela regresse/ porque eu não posso mais sofrer.
Ele parou um instante. Sorriu. Degustou um gole.
– /Chega de saudade/ a realidade é que/ sem ela não há paz/ não há beleza/ é só tristeza/ e a melancolia que/ não sai de mim/ não sai de mim/ não sai/...
Júlia abriu a boca. Fechou. Aquela voz do Antonio. Aquele jeito de tocar do Antonio. Aquele ritmo. Aquele samba? Aquela delícia.
– /Mas se ela voltar/ se ela voltar/ que coisa linda/ que coisa louca/ pois há menos peixinhos a nadar no mar/ do que os beijinhos que eu darei na sua boca/...
Atirou um beijinho para a Júlia. Ela nem piscou.
– /Dentro dos meus braços/ os abraços hão de ser/ milhões de abraços/ apertado assim/ colado assim/ calado assim/ abraços e beijinhos/ e carinhos sem ter fim/ Que é pra acabar com esse negócio de você/ viver sem mim.
Pausa. Gole do uísque.
– /Não quero mais esse negócio de você/ longe de mim.
Dois tapinhas no violão. Fim. Antonio virou o copo. Sorriu.
Júlia colocou as mãos no peito. No rosto. No peito. Tentou segurar o coração.
não se nasce mulher, torna-se mulher [simone de beauvoir]