26.3.09

tá tudo assim tão diferente


Como voltar sem ter deixado coisa alguma para marcar o caminho? Eu perdi pra sempre a casa de doces. Como voltar por uma estrada que já não leva para o mesmo lugar? Passo por passo. Só que eu não sei mais caminhar. Desaprendi de uma vez a delicadeza do percorrer. Agora eu desabalo.

O amor não me esconde mais da vida. O escudo era de vidro, o anel se fundiu. E virou ouro. Nada mais do que ouro. E ouro tem que vender pra sobreviver.

- Vai vender o anel, então?
- Não. Eu vou vender o ouro. O anel o sol gravou no meu dedo. Mas vem o frio e apaga. Tu vai ver.
- Eu não quero ver.
- Por que não? Foi tu quem me ensinou. Foi tu quem disse. Foi tu quem aprendeu primeiro a ser todas as estações. A não ter pena de nevar em pleno verão.
- Mas guarda o anel. Agora é outono. Guarda o anel pra nos proteger desse inverno. Guarda o anel porque ele ainda tá quente. Vamos segurar entre as nossas mãos pra ver se o calor aguenta ainda outra primavera.
- Esquece. Eu já entendi que o anel só vale o que é. E que não serve pro que parece. 

Vamos ter que achar algo melhor pra nos esquentar pelo caminho.



25.3.09

humm

- Mas que cheiro é esse?
- Tu não sabe? De sonho.

22.3.09

só o Chico sabe mesmo

Como é que se chega no topo do mundo e se morre congelado? E pensar que o topo do mundo é um lugar sagrado, um lugar em que se sonha estar, mas quando se chega é só um lugar em que se morre congelado porque não pode haver lugar mais frio do que lá.

E não há onde se aquecer. Nem em quem. Só se chega no topo do mundo sozinho. Ninguém nunca chega ao mesmo tempo. E o topo do mundo, às vezes, é só um momento. Um detalhe de todo o caminho. Um nada. Um pedaço de terra congelado. Mas olhar de lá é tão lindo. É tão lindo aos meus olhos que parece meu. E eu só quero ficar olhando. Só mais um pouco. Só mais um pouco.

- Não quero congelar ainda.
- Eu sei. A gente pode ficar mais um pouco olhando. A gente sempre pode ficar mais um pouco.
- Mas é só um pouquinho, né?
- Mas vale a pena.
- Eu sei que vale. Ficar aqui olhando é delicioso. Só pena que já não sinto meus pés.
- Tudo bem. Tu nunca mais vai descer.



16.3.09

keep me in mind

É o sol que me abraça com seus braços longos. Não há braços mais compridos do que os do sol. Vêm até aqui e abraçam. Vêm até aqui e empurram. Vêm até aqui e abraçam e empurram como se fizesse sentido abraçar e empurrar alguma coisa ao mesmo tempo. Tudo bem. É quase recompensador. Quase faz valer a pena ter vivido o escuro.

Mas não. Por mais agradável que seja o toque desse abraço agora – hoje – ele é resto de queimadura afiada e profunda, é resto de incêndio que sobrevive nas brasas, é fogo ainda, de qualquer jeito que se olhe.

Eu sei! Eu quis queimar! Não posso apagar o desejo escrito. Mas sacio aqui a vontade de ser sol.

- Mas e agora?
- E agora não é pergunta que se faça pra quem queimou mas ainda arde. E agora não é pergunta que se faça pras cinzas amanhecidas e espalhadas pelo ventilador por toda a casa. E agora é tempo, é vento, é entranhar-se. E agora são pisadas distraídas. E agora é ir.

11.3.09

e se a maré mudasse


Eu nem vi o tempo passar. Eu brinquei. Eu achei que o que estava feito, não seria desfeito, removido, combatido. Achei que o que era, era. Brinquei. De gritar, de reclamar, de não parar. Achei que o tempo era meu. Que teria todas as chances. Pois eu as faria com as minhas mãos e minhas lágrimas e meus sorrisos e meus beijos de está tudo bem agora, como sempre.

Eu nem vi o tempo! Será que passou mesmo? Será que esteve aqui, em algum momento? Será que o tempo alguma vez bateu em minha porta, ou será que só agora ele chega? Depois de tudo, chega inteiro, intenso, todo pra me esmagar.

Eu não vi o tempo porque nunca o tive aqui. O tempo fingiu. Me enganou. Tempo. Cruel. Malvado. Tempo. E agora vem e se mostra. E agora vem e me esmaga. E agora diz que o azar é meu por não tê-lo visto passar.

- Mas eu te disse o tempo todo que o tempo tava passando. E que era muito tempo. E que não ia dar. Não ia caber num barco tão pequeno. Eu te disse.
- Mas como eu ia entender? Dizer que o tempo passa, ver o tempo passar, é muito diferente disso tudo.
- Não é não. Tem que ter consciência.
- Mas de onde veio a consciência? Quando começou? Quando tu acordou pro tempo e me deixou dormindo?
- ...
- quando?
- Eu não sei.
- Quando a gente fez esse barco?
- Eu não sei.
- Quando a gente disse que tava tudo pronto e a porta fechou e a maré veio?
- Eu não sei.
- Quando tu nunca mais quis voltar de lá? Quando te levaram e roubaram tua língua, tua voz, tua alma? Quando te perderam nesses mares escuros em que tu só quer andar só? Quando te trouxeram um barco vazio pra ti pular pra dentro? Quando o tempo passou e tu soltou a âncora e ele te carregou pra qualquer lugar?
- Eu não sei.
- Tu te largou no tempo.
- Eu sei.

pra mim mesma

Stop Crying Your Heart Out



Hold on! Hold on!
Don't be scared
You'll never change what's been and gone

May your smile (May your smile)
Shine on (Shine on)
Don't be scared (Don't be scared)
Your destiny may keep you warm

(CHORUS)
'Cause all of the stars
Are fading away
Just try not to worry
You'll see them some day

Take what you need
And be on your way
And stop crying your heart out

Get up (Get up)
Come on (Come on)
Why're you scared? (I'm not scared)
You'll never change what's been and gone

(CHORUS)
We're all of us stars
We're fading away
Just try not to worry
You'll see us some day

Just take what you need
And be on your way
And stop crying your heart out
Stop crying your heart out

9.3.09

are dead


As flores morreram todas. Na moldura. E nos vasos. Mas as flores só precisam de água.

- Por que tu não molhou elas?
- Não deu tempo.
- Mas era só água. Água!
- Eu sei, mas não deu tempo mesmo assim.
- Tá. Eu vou plantar de novo, então. Desta vez mais perto de mim.

(Ninguém molha as plantas da gente. Ninguém cuida das nossas vidas. É só água. E somos só nós.)

3.3.09

ibiraquera, SC


Tem um tanto de sonho em estar sozinha. Confundir as próprias vozes dos meus pensamentos. Quem disse isso? Quem pensa assim? Vou me construindo sozinha com meus pensamentos e cada vez que falo mostro um pouco do que fiz no silêncio. Nem sempre o que deve ser. E quem sabe? Quem me diz o que poderia ser o certo de mim? São tantas vozes aqui dentro. Nem sei qual é aquela que ganha sempre. E qual a que perde sempre. Vou achando, às vezes, que sou sempre eu. Perdendo para mim porque falo mais baixo que eu mesma.
- Não te perde desta vez. Te mantém aqui. Não te perde.
- É tarde e eu já fui.
- Não foi ainda. Eu tô te vendo. Tu tá aí parada me olhando. Não é tu quem foi. Não te perde.
- Me segura, então, porque o sonho tá tratando de me engolir.
- Só que eu não consigo. Eu nunca consigo te puxar do sonho. Tu te solta e vai como louca. Tu deixa sempre o sonho te engolir. Tu vai vai vai. Mas te mantém aqui desta vez. Não te perde.
- Me segura.
- É tu quem não pode te soltar.
- Me segura.
- É tu quem tem que ficar.
- Tenta me segurar. Faz força. Amarra teu pé no chão e me puxa pra ti. Esta é a tua vez. Não dá pra eu segurar pra ti o que é teu. Eu fico. Mas me segura.
não se nasce mulher, torna-se mulher [simone de beauvoir]