30.1.09

lovely

Essa coisa de fazer café
de saber a medida exata
da minha xícara e da tua

Me dá esse poder todo
de dona da casa
que dorme nua

21.1.09

lady in gold


Oi, mundo. Eu voltei. Acabei de chegar. Desci agorinha do trem. Pisei há dois minutos na estação. Desci e dei de cara com o sol. Fazia tempo que eu não via o sol. Porque tatuei o sol nas costas, quando devia ter tatuado no peito. Mas agora não quero mais precisar de espelhos para ver o sol.

Oi, mundo! Obrigada por ter mandado o sol me buscar na estação. Não pode haver coisa mais linda em ti do que a gentileza de mandar o sol me receber. Descer do frio, do escuro, do igual e dar de cara com o sol é algo como estar viva de verdade.

- Eu também estava te esperando na plataforma.
- Eu sei. Eu vi.
- Mas parece que não.
- Mas eu te vi. Tu tava lá lindo, me esperando. Eu vi. É claro que eu vi. Tu pegou a minha mala. Tu reclamou um pouco do peso. Eu te vi e como não poderia alguma vez em nossas vidas eu não te ver? Eu te vi, sim, só que...
- Só que...
- Só que o sol, o bom do sol, é que ele cega a gente e a gente só vê ele.
- Tu não quer me ver, então?
- Eu quero. Eu quero muito. Eu amo te ver. Mas não pode mais ser tu a primeira coisa que eu vejo quando desço do trem. Não pode mais ser tu o meu sinônimo de mundo. Não pode mais ser tu a coisa toda.
- Qual é o problema agora de eu ser a coisa toda?
- É que agora eu sei que a coisa toda tem que ser o sol. Nem tu, nem o mundo, mas o sol. Só há sol e só há lua. São as duas grandes e únicas opções. Eu quero ser sol agora. Daqui pra frente, eu quero ser sol.
- Até tua cor já tá diferente. Tá dourada. Será que a lua foi embora de ti?
- Sim. Foi. Porque eu desci do trem e vi o sol. Da janela não tinha sol. Da janela só tinha o mundo passando tão rápido que tudo era pinceladas. Eu tinha que descer a qualquer momento e tive um medo o tempo todo de virar pincelada também. De passar assim rápido. De estar lá, mas me perder nos olhos de quem vê. Sabe como é, né? Pinceladas que a gente olha olha e nunca vê tudo e parece sempre que tem mais um monte de coisa por baixo que a gente nunca vai ver. Coisas que esconderam da gente de propósito. Pincelada que não acaba. Que muda conforme o olho. Que a gente só entende quando olha meio que de longe, meio que de lado, meio que sem realmente olhar. Relance. É isso. Mas eu desci e tava lá o sol. Tu também tava. Mas agora, pra sempre, antes de ti, o sol. Agora sou bem da cor dele. Agora sou da mesma temperatura do fogo. Agora sou toda luz. Agora eu vou queimar.

8.1.09

lá não tem céu


Tudo enterrado. Tudo enfurnado. Tudo se encolhendo e se retorcendo até voltar ao útero. Parece até que não vai caber botar tudo de volta. Parece até que cresceu demais. E põe pra dentro. Empurra. Aperta. Desnascer dói. Dói porque não se está indo em direção ao desconhecido, nem se está deixando o que não serve mais. Desnascer é desistir.

O pior de tudo é não ver mais o céu. É voltar pro escuro. Do escuro se nasce, mas quem garante? Nascer uma vez é o milagre. E um milagre, um verdadeiro milagre, jamais se repete.

Vou caminhando com passos muito lentos. Não tenho pressa, sou toda medo. O medo do que se conhece é muito pior. O medo do que já se viveu é muito pior que qualquer medo, porque já não se tem a mesma força para enfrentar. A força inexplicável que vem da surpresa. Eu não me lembro de querer nascer. Mas desnascer não é o que eu queria agora.

- Então não vai.
- Mas não se escolhe.
- Morrer não se escolhe. Nascer não se escolhe. Desnascer eu acho que se escolhe, sim.
- Será?
- Não sei. Eu acho. A gente tem que poder escolher alguma coisa nesta vida.
- E como eu vou saber? Tá me chamando. E se eu não for? Será que dá pra não ir?
- Não sei. Tenta. Vamos ver se dá. Vamos ver o que acontece.
- Eu não sei de ninguém que tentou.
- Nem eu.
- Então.
- Mas alguém sempre tem que tentar. Ser humano é assim, né. Tenta tudo.
- Eu sei. Mas aí a não desnascer... o que eu vou virar se eu não desnascer? O que vai ser da minha alma? Vai andar retalhada por aí? Vai mendigar? Vai se arrastar até chegar a hora? É capaz da hora nem chegar. É capaz da hora esquecer. E então eu nunca mais vou ser alguma coisa. Vou ser pra sempre o que já foi. O que não voltou a ser. O que não tem forma ou cheiro ou cor. O que ninguém entende. Já imaginou ser pra sempre o que ninguém entende? O que é demais pro discernimento? O que vai além do que existe? Eu não vou conseguir caminhar por aí sendo uma coisa que não é. Não vou. Eu não tenho força. Eu só sei ser, só isso. Não sei não ser. Quem é que sabe? Não sei de ninguém que sobreviveu a não ser.
- Tenta.
- Não dá.
- E vai ficar lá sem sol? Sem estrela? Sem céu? Sem mim? Isso não é tipo não ser? Não dá pra ficar aqui de algum jeito e dar um jeito no jeito que ficar?
- Olhando pra ti parece até que dá.
- Tenta. Não desnasce agora. Não se embrulha toda. Não volta pra lá. Vem. Segura em mim. Fica aqui. Lá não tem céu. Lá não tem eu.
não se nasce mulher, torna-se mulher [simone de beauvoir]