29.11.08
E é tão abstrato
quanto sentir medo
E é tão real
quanto sentir dor
Vou te fazer sentir a fome que eu sinto
e vou te dar minhas palavras para comer
Verás que as palavras são poucas
e que não há fome para tanto.
27.11.08
o real quando me toca

Amo o vento que entra pela minha janela de manhã. É real. Abro as cortinas e o sol invade o quarto, e o vento sacoleja levemente o voil. Deito na cama mais um pouco. Todos os dias. É meu ritual deixar o vento me tocar antes de qualquer coisa começar. O ritual não é real, eu sei, real é o vento. Não é real a voz chata na televisão, nem o barulho ás vezes insuportável dos ônibus que não deixam de passar um segundo debaixo da janela. Nem o segundo é real. Real é o vento.
Eu só quero o vento todos os dias, pelo menos um momento de vento, um momento que me faça esquecer minha imagem intocável no espelho e meu sofrimento profundo que toca o que não existe. Eu não sei até onde vai meu sofrimento, mas sei onde começa o vento: ali quando ele esbarra em minha pele e no que mais for real no mundo.
Eu não vejo o mundo daqui onde estou. Teria que me aproximar da janela para vê-lo. Não vou. Não ver o mundo de mentira me faz um pouco real, de manhã. Não olho para a TV também. A tragédia não é real. A voz é real, mas não importa o que ela diz. O que ela diz toca o absurdo, pois é discurso feito do nada, de uma irreal construção humana, pois o real é só o vento, e se não estiver relacionado a ele, não existe, não importa, não há.
É só um momento, o vento, e é tão delicado, mas me mantém em pé.
26.11.08
raio x
Tenho um tumor na alma. Há tempos. Um maldito câncer que não pára de crescer e se espalhar como planta daninha que não adianta arrancar pela raiz. Tenho um tumor na alma que é como todos os outros tumores: sujo e cruel.
Porque tumor não se pega, não se contamina. Tumor nasce dentro. Brota. Se forma e sobrevive de tudo o que seja lá você é. Tenho um tumor na alma e o quanto ele pesa e o quanto ele me custa carregar é coisa que só eu posso medir.
Meu tumor surgiu quando tomei consciência da morte pela primeira vez. Eu cheguei a achar, no começo, que a morte é que era a doença. Mas a doença era o tumor. Eu achei que a morte, que vinha de fora, que vinha do deus maldito, que vinha do mesmo lugar que eu, é que era a doença. Eu achei que a morte é que era o errado. Mas o errado eclodiu em um estrondo violento que ainda ecoa dentro de mim.
Hoje eu vi um homem morto no meio da estrada. Eu mais o imaginei do que vi, pois estava meio coberto. Tentaram cobrir a vergonha da morte com um pano branco pequeno demais. Mas a morte não se cobre. Mesmo semicoberta todo mundo viu muito bem. E passamos em lento e silencioso desfile diante do fim. Dos pés negros descalços criei a imagem. E ela esteve comigo o dia todo. E eu sei que dormirá comigo no escuro. E o barulho do sangue esparramando lentamente pelo asfalto como que por veias enormes vai nos embalar por uma ou duas noites ainda.
E eu que quase fui covarde suficiente para não ver o homem morto! Eu quase virei o rosto. Eu quase inventei um espirro bem na hora de passar. Eu quase simplesmente virei o rosto.
Porque eu sabia que olhar significaria fazer parte. Olhar me tornaria alguém para ele e isso muda tudo. Eu bem que quis não olhar. Mas o homem morto ficou lá me esperando. E minha covardia acovardou-se. Olhei bem para não esquecer. Meu tumor na alma latejou. Latejou e cresceu mais um pouco. Apertou. Pressionou. Fiquei tonta. Enjoei. Gelei. O coração disparou. São os sintomas da minha doença.
Por favor, não diga nada, nós dois sabemos que não há cura. Meu tumor cresce a cada morte que vivo. E nem é preciso que tenha acontecido.
6.11.08
nota de pesar para meus sonhos
Sonhos morrem. Nascem e morrem. Sonhos são tão humanos.
Eu sonho o tempo todo. Sou meio que feita de sonhos. Sonhos nascem e morrem infinitamente enquanto eu nasço e morro apenas uma única vez.
E de minha vida feita de sonhos vou vivendo. Não é a vida que me faz viva, mas esse intenso movimento de nascimentos e mortes, de transformação, de ir e vir, ir e vir, ir e vir, ir e vir que lateja aqui dentro, num sem-fim, até a morte definitiva, e não hei de duvidar que, talvez, meus sonhos continuem nascendo e morrendo mesmo depois de mim.
Tudo bem que mais um sonho morra. Das suas cinzas já sinto algo novo vibrar. Quando um sonho morre, são doze horas de choro, um pequeno velar que dá sentido ao sonhar, ao querer e perder, mas são doze horas apenas, são olhos inchados, são penas, mas são doze horas e tudo passa. Passa. Como eu passarei.
E o que é um sonho morto perto de um passar.
