24.7.08

somos todos Doval

HINO DE URUGUAIANA
Letra e Música de Silvio Rocha

Uruguaiana
Feliz tu nasceste
À beira de um rio
Sorrindo ao luar
Uruguaiana
Cidade alegria
Ouve a melodia
Deste meu cantar
É um canto modesto
Que é o manifesto
Do meu coração
Ele quer adorar-te
Pois tu fazes parte
Do nosso torrão
No jardim de meu país
És também uma flor
O teu povo é feliz
Vivendo neste esplendor
Cidade Fronteira
És toda coberta
De um céu cor de anil
Tens a honra mais bela
De ser sentinela
Do nosso Brasil

Cantaram o Hino de Uruguaiana no velório do meu tio José, irmão do meu pai.

Esse lado da minha família, sobrenome Doval, é de Itaqui, mas mudaram-se quando meu pai ainda era pequeno para Uruguaiana.

Meu avô morreu prematuramente, quando meu pai, o caçula, tinha apenas dois anos. Minha avó ficou com a saudade e dez filhos para criar.

A história da minha família é linda – como a de todas as outras famílias - e talvez um dia eu tenha condições e conhecimento suficientes para escrever sobre ela.

O que posso resumir aqui é que minha avó, Maria Dolores, era uma mulher valente – e apaixonada - o bastante para trocar a vida de madame pela vida de esposa de sapateiro. E meu avô Hiram não viveu para construir algum patrimônio ou proporcionar algum luxo para sua sacrificada esposa. Deu-lhe dez crianças e morreu. E ela - nossa, ainda tenho bem viva a lembrança daquela mulherzinha magrinha de grandes olhos arregalados - tomou-as como o maior presente que poderia receber na vida, e fez delas sua razão, sua força, sua saga. Aceitou uma casa emprestada em Uruguaiana e negou qualquer pedido de “adoção” por parte de tios e vizinhos. As crianças eram suas, todas suas e, no máximo, um dia, seriam do mundo.

Aos poucos, com o tempo, a família migrou para Porto Alegre. Primeiro os mais velhos, depois minha vó, com o seu querido caçulinha, meu pai, de trem.

Aqui todos estudaram. Os que iam se formando iam colaborando com os estudos e com o sustento dos seguintes. Dez irmãos e uma mãe magrinha e gigante. Uma mãe com braços compridos para abraçar todos de uma só vez.

Uma mulher orgulhosa.

Sim, eu tenho muito da teimosia dos Canali, mas tenho praticamente todo orgulho dessa avozinha Doval. Uma mistura pra lá de bombástica, ainda mais se eu acreditar em astrologia e acrescentar um sol e lua em Touro. Eu sou um touro. Mas minha avó era uma tourada. Um rebanho inteiro furioso pronto para se defender e atacar. Seus filhos cresceram ao seu redor. Espalharam-se pela Capital. Construíram o sonho daquela época, daqueles tempos, daquelas vidas.

Os Doval são uma família e tanto. Minha avó morreu na década de oitenta. Doenças mal curadas do tempo em que não havia ela – havia filhos. Há uns dois anos morreu minha tia Rosa. Ontem morreu meu tio José.

Cantaram o Hino de Uruguaiana no seu enterro. Foi lindo. É claro que foi lindo. Não era só uma homenagem ao meu tio querido que carregava a sua cidade no peito, sendo membro ativo da Sociedade Uruguaianense em Porto Alegre.

Foi uma homenagem àquela família inteira. Àquela parte da história do nosso estado, representada ali, na capela 9 do João XXIII. Uma família que faz de um velório o momento de maior amor que já presenciei. Chegou a me passar pela cabeça a triste idéia de que tanta grandeza e beleza não poderia acabar ali, nas paredes frias do João XXIII. Pareceu-me injusto. Até mesmo desleal da parte de Deus. Nos dar oportunidade de ser tanto e então nos tirar tudo, assim, de repente...

Mas não é verdade. Não será o João XXIII a última morada dessa trupe impávida oriunda da fronteira. Não será mesmo.

Na saída do enterro, a nora do tio José segurava no colo a netinha dele. Sábado ela completa um ano.

Minha avó Maria Dolores sempre soube que nem a morte seria páreo para esses Doval.

22.7.08

the way we will be

O filme acabou e é lógico que eu fiquei chorando. Bem que o Caio já tinha avisado: tu vai ficar chorando. Será que ele me conhece ou será que todo mundo fica chorando quando acaba The Way We Were?

Que medo eu senti! Medo de ser Katie a ponto de deixar as coisas do mundo serem maiores do que nós. Medo de ser Hubbell a ponto de se negar a ver que o mundo faz parte do que somos.

Mas e se não existisse mundo?
E se não fizesse diferença?
E se a única coisa importante fosse dormir à noite nos braços de quem amamos?

Eu lembro dele sentado no muro do viaduto da Borges. Eu lembro da carteira de Camel. Lembro até do diabo no meu colo. Eu lembro do mundo como um imenso cenário para o nosso diálogo.

Talvez o que Katie e Hubbell nunca tenham descoberto é que existe antes e depois do mundo. O mundo inevitavelmente vem. E é preciso viver mais do que nele... Com ele.

E eu espero que nunca nos arrependamos do jeito que éramos agora que deixamos o mundo entrar.



11.7.08

mellukinha



ai

eu queria me negar a mandar um parabéns pelo orkut

eu queria me negar a mandar abraços e beijos virtuais

eu queria me negar a tentar dizer pela internet o que a gente só diz pessoalmente

com os olhos

com o coração

com aquele entendimento sem palavras que a gente tem

que mesmo do outro lado do oceano existe e persiste

e até por palavras escritas a gente sabe

"ela tá bem"

"ela não tá bem"

por me negar a expressar por esse mundo de mentira toda a verdade que te desejo hoje

te peço

fecha os olhinhos

e sente

eu te amo muito, amiga querida

e poucas coisas são tão importantes para mim quanto o dia em que tu nasceu.

Obs.: o mais legal de tudo é que só mesmo a Mell vai entender a foto ali de cima e todo mundo que ler este post vai ficar de fora.

Por isso é tão tão tão bom ter melhor amiga.

8.7.08

escuta só

Querem ouvir a frase mais insólita que já saiu destas mal digitadas teclas?

Estou louca para escolher a cozinha.



Aguardem novidades.

4.7.08

tem que ser muito simone


Ser mulher é depilação.

Simples assim. Resumível e presumível assim. Ser mulher é a porra da depilação. E eu não estou desmerecendo a mim ou à minha raça.

É inverno e cada vez que tiro as botas e as calças e as meias eu me deparo com aqueles pêlos. Triste. Eu os arranco e poucos dias depois – para não dizer horas ou minutos ou segundos - eles já estão lá despontando por todos os lados. Não tem fim. É a prova viva e alucinante do que eu sou: mulher. Não pára nunca. Eu arranco e eles voltam. Eu arranco e eles crescem. Eu arranco e eles rasgam a pele e o meu bom senso. Eu preciso arrancar meus pêlos. E por que não arrancaria? Só por que o Caio não arranca? Por que ele pode tê-los todos espalhados pelo corpo naquela velha e boa bagunça masculina? Por que eu mesma não posso suportar meus pêlos e me torturo no puxa-arranca diário, profanando os lugares mais improváveis de mim, com raiva, com pressa, com ânsia de me livrar do que é meu como mais nada pode ser? Por que eu não arrancaria os tais fiozinhos que afrontam meu espelho e toda a cultura social na qual vivo desgraçadamente inserida? Por que teimo em considerar a natureza uma aberração divina?

Porque sou mulher.

E ser mulher é depilação.

1.7.08

receitinha de mãe



Um pouco de medo e um pouco de sardas
muito de amor

Um pouco de história e uns cinco anos
misturados com gelo
e fogo
muito de fogo

Quase nada de dinheiro
um romance inteiro
que mal começou
não se nasce mulher, torna-se mulher [simone de beauvoir]