29.4.08

a mecânica da obsessão



Quem não tem curiosidade mórbida? Os psiquiatras andam jogando em nossa cara que somos todos doentes ao acompanhar com tamanha obsessão o passo a passo da história de Isabella. Eu não conhecia a Isabella. Eu nunca vi a Isabella. Se a Isabella passasse na minha frente, seria apenas mais uma menina passando na minha frente, como qualquer outra. Acontece que, como os psiquiatras fizeram com a minha “doença”, alguém jogou a Isabella na minha cara. E eu não estou nada disposta a esquecê-la.

Quero saber, sim, o que fizeram com a Isabella. Quero saber quem fez, como fez e por que fez. Quero todos os detalhes. Quero as motivações. Quero as provas. As fotos. As marcas de sangue. Quem apertou. Quem bateu. Quem jogou. Quem planejou. Quero saber direitinho quem são os tais de Alexandre e Anna Jatobá. Quero saber que tipo de família eles têm. Como foram criados. O que foi feito da sua educação. Quero saber onde eles estudaram e quais eram as suas notas. Quero depoimentos de professores e colegas. De vizinhos. De motoristas de táxi. Do diabo a quatro. Quero escarafunchar a vida deles até a exaustão. A exaustão coletiva. E o povo que se plante em frente aos edifícios e delegacia. O povo que grite, que xingue, que jogue pedras. O povo que venda pipocas e distribua santinhos. Fizeram disso um circo ou não? E foi o povo, por acaso? O povo que grite. Eu apóio. Não acho a Isabella a criança mais importante do mundo. Eu sei dos pretos pobres das favelas que não aparecem na televisão. Eu sei que um milhão de crianças teve fins piores que o dela. Eu sei que algumas nunca têm fim. Mas agora eu quero saber da Isabella. Só dela. Quero saber obsessivamente. Quero saber até parar de sentir. Como deve ser.

Eu não tinha nada a ver com nada disso, mas jogaram a Isabella pela janela e também na minha cara. Agora eu quero saber. Quero saciar a minha morbidez. Eu exijo o último capítulo.

16.4.08

a metáfora da traça


Há quem não enxergue as traças. Há quem olhe para as paredes e não enxergue nada além de pequenas falhas no reboco. Falhas. E que mal fazem as falhas. Eu enxergo as traças. Eu as enxergo por todos os lados e garanto que não são mero reboco descascado. Eu enxergo as traças nas paredes e tenho ganas profundas de pegar uma vassoura e varrê-las todas. Uma a uma. Furiosamente. E pisoteá-las. Mas sinto nojo. Poucas coisas me causam tanto nojo quanto as traças. Elas parecem reboco, mas quando caem no chão e você pisa... Elas não são reboco. Elas são a prova do que mofa, do que envelhece, do que umedece. Elas são a prova de que algo precisa ser feito. Mas o quê. Às vezes imagino que as traças tomarão conta das paredes. De todas as paredes. As externas e as internas. De tudo. Até eu não saber mais o que é tijolo e o que é traça. E se algum dia houve mesmo reboco. E se algum dia alguém se sentirá no direito de me pisotear.

9.4.08

o essencial é visível às fotos

Esse grupinho aqui se chama Mecânicos da Palavra e são um pedaço mais do que especial da minha vida.

Segunda-feira tivemos um encontro histórico registrado nesta bela fotografia.

Não são os rostos mais queridos do mundo?


Fazendo a volta do relógio começando pela ponta do lado esquerdo:
Américo, Karen, Marco, eu, Almiro e Isabel.


Só faltaram Galvani e Luciane. Mas dia 5 de maio tem mais.

Certas coisas de repente deixam de ser importantes para serem essenciais.
não se nasce mulher, torna-se mulher [simone de beauvoir]