Muitas coisas me modificam. Eu sei, muitas coisas modificam muitas pessoas. Mas obviamente algumas coisas modificam cada pessoa. Músicas modificam pessoas. Nem todas as músicas modificam todas as pessoas. Há músicas que me modificam muito. Há músicas que me modificam em determinados momentos e para sempre.
Hoje eu viajei até Viamão ouvindo músicas. Entre elas, O Caderno, do Toquinho. Sabe qual é?
Sou eu que vou seguir você
Do primeiro rabisco
Até o be-a-bá.
Em todos os desenhos
Coloridos vou estar
A casa, a montanha
Duas nuvens no céu
E um sol a sorrir no papel...
Ia tudo muito bem, aquela nostalgia clássica de quem foi criança nos anos 80, relembrando a capa do disquinho e a sensação de ouvir aquela voz gostosa falando alguma coisa sobre um tal de caderninho, que bem parecia com os meus caderninhos, mas eu não tinha consciência ainda para saber que eram exatamente os meus caderninhos.
Caderninhos que acompanharam a minha vida inteira, repletos de anotações coloridas, de desabafos escuros, de frases copiadas, de poesias inventadas, de segredos reinventados em códigos que até hoje eu sei.
Que eu nunca esquecerei.
Mas foi então que o Toquinho sussurrou com sua voz doce o trecho mais cruel que provavelmente ele já sussurrou na vida. E me doeu perceber que ele sempre sussurrara tal maldade em meus ouvidos e eu escutava, ingênua e crédula, julgando serem apenas palavras bobas de uma canção lúdica de criança, mas era e sempre será uma centelha de vida, em verdade, era o anúncio, era o aviso, era, de certa forma, o meu veredicto, que só eu ainda não conhecia e que só o Toquinho tinha coragem de pronunciar.
Sou eu que vou ser seu amigo
Vou lhe dar abrigo
Se você quiser
Quando surgirem
Seus primeiros raios de mulher
A vida se abrirá
Num feroz carrossel
E você vai rasgar meu papel...
Rasguei muitos papéis sem lembrar que eles estavam destinados a isso. Sim, os cadernos, os meus caderninhos, sempre foram o meu abrigo, a minha forma de escapar e de entender o carrossel que me engolia. Eu ia me modificando e os cadernos iam se modificando, os antigos modificavam os novos, eu ia modificando os cadernos e é óbvio que os cadernos, folha a folha, linha a linha, iam modificando a mim.
Chorei tanto hoje, no ônibus, escutando novamente aquela voz sussurrada, aquele prenúncio da futura mulher, que não é mais um futuro, que sou eu, feita de sussurros de carrossel de cadernos e de milhões de folhas rabiscadas rasgadas inteiras molhadas publicadas queridas queridas queridas.
A vida não é um brinquedo inocente. A vida nos deixa tontos. A vida é o que o Toquinho me mostrou que seria e eu fico feliz de não ter entendido antes. Ele nem queria que eu entendesse. Ele queria apenas acariciar o que eu era. Ele queria, apenas, louvar o que eu seria, antes de todo mundo. Ele queria, quem sabe, como eu também quero, que um dia alguém se soubesse modificado por suas palavras.
E os meus cadernos seguem comigo. Essa música desenvolveu em mim um absurdo colecionismo. Ele me pedia para não esquecê-lo em um canto qualquer e eu jamais poderia mesmo fazê-lo. Ainda tenho os meus cadernos. Fico angustiada cada vez que penso nas traças e no mofo que podem estar os consumindo. Não tenho coragem de abri-los. Não quero me ver corroída. Não quero me ter esquecida. Posso fazer terapia para perder o medo insuportável da morte, para aprender a conviver com ele, mas não posso fazer terapia para esquecer o que sou. Meus cadernos são eu. Desculpe. Mas eles são eu.
E eu sinceramente acredito que um dia as pequenas mãozinhas dos meus filhos irão folheá-los. E lê-los irá modificá-los. E vê-los ler fará de mim, então, diferente.
27.3.08
everything is gonna change my world
14.3.08
que paul e machado não julguem minha vã filosofia
O que desperta o ciúme. O que move o ciúme. O que o ciúme não pára de inventar.
O que pretende o ciúme. O que almeja o ciúme. O que o ciúme acha que é capaz.
O que cobra o ciúme. O que explica o ciúme. O que o ciúme tem para falar.
O que teme o ciúme. O que anseia o ciúme. O que pensa o ciúme da vida.
O que corrói o ciúme. O que corrompe o ciúme. O que faz o ciúme devorar.
O que fez ontem o ciúme. O que traiu o ciúme. O que o ciúme pensa que é.
O ciúme vem de onde. Aonde o ciúme quer chegar.
I made a silly love song for you
I made a silly love song for you
Pra cantar no pé do teu ouvidinho
I made a silly love song for you
I made a silly love song for you
Because you love Paul
And I love you
Então
I made a silly love song for you
I made a really silly love song for you
Iê iê iêêêêê

O que pretende o ciúme. O que almeja o ciúme. O que o ciúme acha que é capaz.
O que cobra o ciúme. O que explica o ciúme. O que o ciúme tem para falar.
O que teme o ciúme. O que anseia o ciúme. O que pensa o ciúme da vida.
O que corrói o ciúme. O que corrompe o ciúme. O que faz o ciúme devorar.
O que fez ontem o ciúme. O que traiu o ciúme. O que o ciúme pensa que é.
O ciúme vem de onde. Aonde o ciúme quer chegar.
I made a silly love song for you
I made a silly love song for you
Pra cantar no pé do teu ouvidinho
I made a silly love song for you
I made a silly love song for you
Because you love Paul
And I love you
Então
I made a silly love song for you
I made a really silly love song for you
Iê iê iêêêêê

7.3.08
era uma vez em porto alegre

Dá para acreditar em um passageiro incógnito que, como num filme de faroeste, levanta do fundo de um lotação, baleia mortalmente dois assaltantes, chuta os corpos para fora (um ainda semimorto) e manda o motorista prosseguir normalmente até o fim da linha?
Alguém entende?
Alguém pode me explicar?
Segundo a notícia publicada em Zero Hora, “Um homem misterioso, rápido no gatilho e com exímia pontaria conseguiu evitar a tiros aquele que seria mais um assalto a lotação em Porto Alegre.”
Sim, e a reportagem segue no mesmo tom com frases como estas: “Alto, branco e forte. Foi assim que uma jovem de 27 anos descreveu o passageiro que, em silêncio, levantou da poltrona, sacou sua arma e matou dois ladrões que atacavam o lotação.”.
Cena de filme? Espere para descobrir outras informações sobre o galã da história: “Ao entrar no lotação, ele já chamou a atenção das mulheres por sua forma física. Depois que atirou nos ladrões, virou herói - contou a jovem à polícia.”.
Sim, sim. Galã. E eu não estou exagerando. Galã à moda antiga, do estilo durão, Charles Bronson: “o atirador pegou a arma de um dos bandidos, caída no piso do veículo, e se encarregou de, aos chutes, jogar os dois ladrões para fora.”.
E é claro que um galã que se preze não pode ficar sem o seu grand finale: “Aplaudido e cumprimentado pelos cerca de 20 passageiros, ele deu a segunda e ainda mais inusitada orientação ao motorista: para que seguisse a viagem até o terminal na Lomba do Pinheiro, sem parar em posto policial ou delegacia.”
Uau. Até aqui já estaria pra lá de Hollywood, mas ainda tem a rapa do tacho, a cereja do chantilly, o toque de mestre: “O motorista seguiu até o ponto, e os passageiros foram desembarcando ao longo do trajeto, normalmente”.
Estou em estado de choque. Automaticamente, ao fim da leitura, minha mente me transportou ao lugar dos passageiros deste lotação, mais especificamente no papel da “jovem de 27 anos”, a mais entusiasta das fãs do nosso novo herói.
Será que eu aplaudiria aquele insano e improvável super-homem? Será que eu seguiria viagem naquele pequeno inferno ambulante? Será que – meu deus do céu – será que eu saltaria normalmente na minha parada, não sem antes comentar alegremente o fato com os outros companheiros de viagem e, é claro, evitar sujar os sapatos no sangue dos malfeitores ao passar pelo corredor?
Não estou criticando o comportamento da moça. Não mesmo. Eu jamais passei por uma experiência de assalto e não faço a menor idéia da espécie do desespero que eu sentiria.
Só que... Não sei explicar... Mas se eu estivesse lá, se eu fosse aquela moça, se fosse a minha realidade e não apenas uma notícia de jornal, eu estaria completamente transtornada, eu estaria triste e apavorada, eu estaria com a cabeça em pane, eu estaria escondida sob as minhas cobertas, com um medo absurdo dos três homens, dos que morreram e do que continua por aí, anônimo, obscuro, mascarado, tal qual um vingador errante, um justiceiro controvertido, um gatilho rápido e um coração frio, um Robin Hood sanguinário, um Anton Chigurh tal e qual, um protetor junto ao qual não me sinto segura ou aliviada, apenas ainda mais assustada.
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não se nasce mulher, torna-se mulher [simone de beauvoir]