Enfim, a chuva que pedi. Enfim, os vidros das janelas manchados de água escorrida. Porque água mancha. Água mancha como sangue.
Uma noite e um dia inteiros de chuva. Talvez um final de semana. Talvez o sol jamais volte.
Não importa, eu me acostumaria. Eu posso me acostumar com qualquer coisa. Um dia seria normal os dias serem todos de água. A vida passaria e acabaria da mesma forma. E eu não usaria guarda-chuva. Não usaria mesmo. Seria perfeitamente normal andar molhada. Eu nem mesmo me griparia. Eu nem mesmo imaginaria um dia de sol. Porque não haveria beleza nele. Só haveria estranhamento.
O grande problema da vida é este exagero de opções. Sãos dias de chuva, de sol, nublados, quentes, frios ou agradáveis. Tristes ou alegres. Um diferente do outro. E eu conheço todos. E peço e espero por eles. Porque sei que existem e podem, enfim, acontecer.
O grande problema da vida é existir a morte, e eu saber das duas, eu poder escolher entre elas, e eu poder distinguir claramente onde está uma e outra, e eu ter que simplesmente conviver com uma opção maior do que eu.
Se a vida fosse só vida eu me acostumaria com isso. É claro que eu me acostumaria.
E se eu não soubesse da morte eu viveria melhor. Muito melhor. Eu enfim viveria.
Mas se fosse só morte... Se fosse só morte eu não sei o que seria. Se fosse só morte, pra dizer bem a verdade, acho que, enfim, eu não morreria.
Não estou ansiosa para assistir o Oscar domingo. Estou simplesmente satisfeita com todos os indicados. E quem ganhar, para mim, terá feito por merecer.
Dos indicados ao Melhor Filme, ainda não assisti Conduta de Risco e Desejo e Reparação, que assistirei logo mais, à noite.
Quanto a Juno, Sangue Negro e Onde os fracos não têm vez a minha opinião é a mesma: maravilhosos. Estou de barriga cheia, muito bem servida, encantada com atuações que transbordam por todos os lados, fotografias que parecem não caber nos olhos, trilhas sonoras que rebentam os ouvidos de prazer.
Cada filme que vi foi uma delícia. Mesmo com a sangueira reinante. Nada por acaso. Eu indico todos que listei acima e ainda Senhores do Crime e Na Natureza Selvagem. E preciso ver os vários que concorrem a outras categorias, como Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, Piaf - Um Hino ao Amor, O Escafandro e a Borboleta, O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Redford. É filme a dar com pau. Por favor, mexam-se. Esqueçam essa coisa de praia. O verão já era. O ano começou.
Só ficou faltando mesmo o nosso Tropa de Elite. Cairia muitíssimo bem no contexto deste Oscar. Aliás, cairia muitíssimo bem no contexto deste mundo e destes dias.
Tropa de Elite é, para mim, um filme admirável. A sensação que tive ao terminar de vê-lo nunca tive com nenhum outro filme, muito menos brasileiro, pois todos contam sobre um Brasil que não conheço. Quando o filme acabou, tentei respirar fundo, mas não consegui: o mundo estava definitivamente caído sobre a minha cabeça.
Tropa de Elite é moralmente violento. Não respinga sangue, não apela para sentimentalismo, não defende esquerda ou direita, rico ou pobre, policial ou bandido, não defende a população. Tropa de Elite bate, mas não é com o cacetete.
Tropa de Elite mostra o que somos, o que fazemos e de que forma agimos, tanto como seres humanos, tanto como cidadãos.
Tropa de Elite dá a cada um a sua devida parcela de culpa, a "sua parte neste latifúndio" de violência, miséria e absurdos sociais no qual vivemos. E o qual alimentamos diariamente.
Louvo Tropa de Elite e principalmente o diretor Padilha. Acho que cada um tem que fazer um pouco, seja lutando, seja se defendendo, seja metendo o dedo na ferida.
E o Oscar tem que ser assim mesmo, tem que ter Tropa de Elite e tem que ter Juno. Tem que ter Daniel Day-Lewis e tem que ter Javier Bardén. Tem que ter prostituta que virou roteirista. Tem que ter briga de mafioso pelado. Ô se tem. Tem que ter filmes para todo mundo, que mostrem todas as faces da vida, da sociedade e da mais pura imaginação, que agradem e desagradem, que agridam e acariciem. Tem que ter filmes bons de qualquer jeito.
E tem que ter o Paul Dano. Porque Oscar é isto: em um ano o cara é um piazito rebelde que faz a melhor greve de silêncio de todos os piazitos rebeldes e no outro ele dá na cara do Daniel Day-Lewis feito gente grande.
(A propósito, Paul não foi indicado, mas para mim ganhou Melhor Ator Coadjuvante. Espero sinceramente que isso lhe sirva de consolo.)
Permitam-me prefaciar o próximo texto, A Metáfora da Mala:
"Camila
Sabe, estou ficando besta. Sobre minhas filhas, Ana, Alessandra e Gabriela, sobre meus netos, Lucas, Felipe e Isabella,tenho justificativas: afinal, são sangue do meu sangue e se eu não me orgulhar delas, então seria um cretino. Sim, eu as amo (os, tem os dois meninos...) e os acho todos, lindos, inteligentes, inigualáveis. Mas, você Camila que nem é minha filha e eu acho tão fantástica!? Como se explica isso? Cada vez que leio um texto acho melhor, cada vez melhor. "A Metáfora da Mala" está, simplesmente, esplêndido.
Desci do ônibus com a minha malinha e saí caminhando no meio de todo aquele movimento do dia começando. Andei bem abraçada com ela e a bolsa e o casaco, me protegendo do frio, do movimento e do dia. Todos os carros do mundo passando e eu pensando o que será que eles pensam de mim e da minha malinha. Será que eles conseguem distinguir uma da outra? Será que eles entendem a diferença? Será que eles entendem que é ela quem está sempre pronta para partir e não eu?
A minha mala está cheia de coisas necessárias e confusas. Quando eu a arrumo, parece leve. Quando desço do ônibus, ela está pesada. Difícil de carregar. É o mesmo volume. São as mesmas coisas necessárias e confusas. Ela continua pronta para partir. Mas o peso é bem diferente.
Eu desarrumo tudo. Sempre. Nada se mantém organizado ao meu redor ou dentro da minha mala. Onde eu e a minha mala chegamos, o caos se instala. Somos pesadas, nós duas. E cheias. E confusas. Estamos sempre prontas para partir.
Mas não queremos, e isso é o que nos faz mala. Isso é o que nos torna confundíveis e incarregáveis. Isso é o que faz da nossa vida um inferno! Ter que viver prontas para partir, sem nem saber para onde, nem quando, nem como. Só sabemos que partiremos. Nós e nossas coisas necessárias e confusas, das quais não conseguimos nos desvencilhar. Por mais que pesem. Por mais que incomodem todo mundo. Por mais que atravanquem os caminhos. É um tal de jogar o necessário lá dentro pra caso a hora chegue de repente, e fica tudo assim confuso, tudo o que quero levar comigo, tudo o que não quero perder nem esquecer, tudo o que não quero nunca, jamais, sob hipótese alguma deixar para trás. A mala sabe, mas eu não entendo. Por isso ando agarrada nela. Por isso abraço-a bem forte contra o vento. Por isso nos confundem pela rua. Eu não posso partir sem levá-la comigo.
Eu nem comentei que mudei de emprego novamente. Fico até com vergonha de falar. 2007 foi um ano de muitas aventuras nesse sentido, mas, com a chegada do ano-novo, as coisas parecem ter se estabelecido.
Claro que em se tratando da minha vida profissional é absurdamente cedo para afirmar qualquer coisa com segurança. Lá foi a Camila jogar tudo para o alto outra vez e começar de novo. Do zero. Literalmente.
Entrei numa neura de mandar currículos para todos os lados, porém seguindo uma nova linha: a minha área. Pois é. Eu realmente nunca procurei emprego na minha área. Até porque a minha área majoritariamente é a licenciatura e se tem uma coisa que eu não quero é ser professora. Sim, eu já sabia disso desde que ingressei no curso de Letras. Não, eu não sei por que insisti.
A verdade é que eu gosto de escrever. Eu gosto de texto. Gosto de pegar o texto nas mãos. Gosto de tocar, cheirar, mexer e remexer. Gosto de misturar tudo, desfazer tudo, refazer tudo. Gosto de consertar. Gosto de enxergar o que está errado e gosto de aplaudir o que está certo. Gosto de respeitar quem escreve e como escreve. Gosto de novas linguagens, novos estilos, novas superações. Gosto de quem se arrisca a escrever. Gosto de quem entende que Língua Portuguesa é mais do que gramática. Mais do que regras. Mais do que exatidão. Língua Portuguesa é língua, é minha e é tua, é para a gente. Tem que fingir que a Língua é massinha de modelar. E tem que modelar. Transformar em tudo o que der na telha. Igual criança. Sem medo.
Ou alguém tem medo de massinha de modelar?
Enfim, aos poucos acho que vou me ajeitando na tal da minha área. Estou trabalhando como redatora em uma agência de publicidade e a-do-ran-do. É algo totalmente novo para mim, estou aprendendo, mas está sendo incrível. Estou dando algumas aulinhas de Língua também, deliciosas aulas para alunos totalmente seletos, que têm como interesse único modelar à vontade. E agora decidi começar algo diferente, novo, próprio, que vai me levar a aprender muito, em todos os sentidos e ainda ganhar algum dinheiro. É a Primore.
Além de tudo, tenho este meu espaço querido, onde guardo as minhas engraçadas esculturas de massinha. Junto com amigos, tenho os Mecânicos da Palavra. E, ainda, guardados pelas gavetas dos armários e pelas pastas do computador, milhões de projetos a serem apresentados ao mundo e milhões a serem guardados apenas para mim.
Tanto faz. Em se tratando de mod...escrever, tudo é bom, tudo é lúdico e tudo pode sempre ser desmanchado. Tem que meter as mãos na massa de qualquer jeito.