31.8.07

o meu au-au



Faz muito tempo que eu deveria ter escrito algo para a minha cachorrinha. O problema é que os humanos têm essa péssima mania de não valorizar as coisas quando elas estão bem. E eu sou humana, Kika, isso você já deve ter percebido com essa tua esperteza poodleniana.

E quantas vezes não fiquei matutando matutando e matutando assuntos para um post. Quantas vezes! E na maioria delas tu estavas ali, deitada no tapete, debaixo do meu nariz, com aquele teu jeitinho preguiçoso de cachorrinho mimado: só queria uma caminha quentinha e todo mundo ao redor.

Aquela tua preguiça pela manhã e aquele teu agito às noites. O teu cheira-cheira nas minhas bolsas, procurando chicletes. As tuas orelhas de pé quando o carro da mãe chegava. A tua loucura por bisnaguinha Seven Boys. A tua tremedeira na hora de ir para a pet shop. A tua volta triunfal, lavada, escovada e com fitinhas novas nas orelhinhas. O ciúme que sentias da mãe. As tuas sonecas de barrigão para cima.

Coisa mais querida o meu au-au.

Kika, tu era a nossa bolsinha de água quente no inverno. Todo mundo queria pegar um pouquinho. Todo mundo queria o teu calorzinho para esquentar o coração. Nada mais gostoso que passar a tarde no sofá vendo TV contigo. Debaixo do edredom.
Sabe, mimosa, eu lembro direitinho quando tu chegaste lá em casa: pequenininha, o pêlo todo malhado, hiperativa. Há doze anos. Eu ainda estava na escola. Morávamos em Floripa. Tu eras a nossa barriguinha verde. A Nati era criança e sonhava com um cachorrinho. E daí o pai te comprou. Há doze anos. Meu Deus, o tempo é tirano com a gente. O tempo é mesmo fatal.

O ser humano tem outra mania muito louca que é amar os bichinhos como se eles fossem gente. Tem gente que nem ama gente, só consegue amar cachorros e gatos e outros animais. Sei lá. Eu costumo amar as pessoas, mas eu confesso, Kikinha, que não tem como não te amar até mais do que a elas. Ninguém consegue ser tão de alguém como tu és da gente.

E agora está aí. Velhinha, velhinha. Toda doentinha. Um milhão de coisas ao mesmo tempo e das piores que há: coração, pulmão, diabete, cegueira. Tudo num único cachorrinho. No nosso cachorrinho. Que a gente cuidou pela vida inteira. Pela tua vida inteira. O problema todo é esse desencontro de tempos! Enquanto para ti, doze anos são uma longa jornada, para a gente... São como um piscar de olhos. Não são praticamente nada. A gente mal começou.

Não tem graça nenhuma em envelhecer. Não tem graça nenhuma em perder alguém porque está velho. O amor não está velho. Está igualzinho. A alma está igualzinha. A tua alegria quando chegamos em casa está igualzinha. O teu rabinho abana igualzinho quando te fazemos festa. Não tem nada, absolutamente nada de diferente. Só o corpo, essa porcaria com prazo de validade que todo mundo insiste em louvar, não funciona mais.

Neném, essa minha tristeza toda tem muito de egoísmo, outra mania insuportavelmente humana. É que assistir ao final da tua existência, assim, tão de perto, faz com que eu sofra por antecedência a minha própria vida. O meu próprio envelhecer. O meu próprio acabar. Porque os humanos são iguaizinhos aos cachorros, sabia? Eles vivem bem até certo ponto e, a partir dali, vão definhando, pouco a pouco, dia a dia, no começo imperceptivelmente e, depois, numa velocidade desnorteante e com uma força avassaladora. Quando nos damos conta, estamos assim, como você está agora: frágeis, doentes, quietinhos em nosso canto, recebendo atenção, sendo cuidados, esperando, esperando, esperando... E não importa a vida que tivemos nem as lembranças que iremos deixar. Lembranças não são vida. Lembranças não somos nós. Lembranças acabam quando deixam de lembrar.

Kika, os humanos têm uma mania muito idiota de considerar a vida uma benção. Mas não é não. Não tenha medo de assumir essa verdade. Vida é um fardo, é uma quimera, é um troço que a gente carrega e não sabe nem por que cuida tanto para não deixar cair. A gente sente um desespero pela vida, mas a vida acaba, Kika. E acabamos junto com ela sem nem sabermos o que éramos. Não é para ter muita raiva?

Não tem sentido. Simplesmente não tem sentido. E o que serve de consolo nesta hora, não para ti, eu sei, mas para mim, é saber que tu nunca terás tido a menor consciência de tudo isso. E agora cuidaremos de ti até o finalzinho, minha linda. E desta vez não é por mania. É por amor.

Tu sempre acompanhaste as minhas tristezas, tu sempre foste a minha companheirinha, o meu colinho silencioso na hora de chorar. Desculpa se hoje eu não consigo parar de chorar.

É que eu não queria te perder.

24.8.07

procurando nati

uau. acabei de ler teu post.
sempre pensei que um dia chegaria o dia de ter essa conversa contigo.
mas, há dezenove anos atrás, não imaginei que seria virtualmente...
o tempo passa, mana querida.
e assim compo a internet não se imaginava, nunca imaginamos a próxima fase
achamos que o mundo é hoje e para sempre
mas não é
penso que teu seriado acabou na hora de acabar
antes que tu o achasse assim, tão bobinho
penso que tua banda acabou na hora de acabar
porque, na verdade, eles queriam mesmo era causar essa tristeza em ti
eles queriam ser especiais na tua lembrança
eles não queriam que um dia tu os achasse bobinhos...
seria triste demais para uma banda que era ótima, mas que sabe muito bem que logo logo teria que ser mais que ótima para se manter na tua lista das dez mais.
mas eis que novas bandas e seriados virão, minha querida. E completo: levante as mãos para o céu diante disso. O mundo é hoje e é sempre. E, ei, o mundo é teu.
Minha linda maninha que hoje faz faculdade, trabalha e sente saudades do que imagina estar perdendo por aí, enquanto caminha por essa vida maluca:
Não pare para juntar nada
Deixa cair
Deixa ficar pela estrada
A estrada é tua
Ela fica no teu mundo
Portanto, nada está perdido
Muito menos tu
Tudo está para sempre no teu caminho
Tudo faz parte de ti.
Caminha
E olha para trás, se quiser
Se te acalmar
Mas não tenha medo de perder o que te faz ser
Porque já és.
E olha, para te dar um consolo, assiste o videozinho aqui debaixo e te diverte vendo duas lembranças tuas misturadas, juntinhas, formando uma nova lembrança, te dizendo olha, Nati, somos o que tu és e nos damos todos muito bem.



ps.: tu diz que detestaria ver o Reação em Cadeia hipoteticamente cantandoa tua banda favorita, agora, imagina só a minha dor em ver o Reação em Cadeia efetivamente cantando a minha banda favorita. Isso é crescer, maninha.

21.8.07

monologando com o Caio

Carlos diz:
oi
Carlos diz:
meu amor
CaMiLa diz:
oi
CaMiLa diz:
tô almoçando
Carlos diz:
como está nessa manhã?
Carlos diz:
tá almoçando aí?
CaMiLa diz:
comendo um x
Carlos diz:
não levou comida hoje, meu amor. por quê?
CaMiLa diz:
eu trouxe
CaMiLa diz:
mas a cozinha foi interditada
Carlos diz:
o que aconteceu na cozinha?
CaMiLa diz:
alagou
Carlos diz:
febre aftosa?
CaMiLa diz:
ele botou maionese
CaMiLa diz:

Carlos diz:

Carlos diz:
pobre moi
CaMiLa diz:
como tu está?
Carlos diz:
tá conseguindo comer?
CaMiLa diz:
sim
Carlos diz:
prefiro não falar sobre isso
CaMiLa diz:
pq?
Carlos diz:
mas estou melhor
CaMiLa diz:
vai me deixar?
Carlos diz:
não
Carlos diz:
é claro que não
Carlos diz:
bem pelo contrário
Carlos diz:
vou me dedicar a ti
Carlos diz:
como tem q ser
CaMiLa diz:
qdo a gente tiver um filhinho a gente pode morar no cantegrill
Carlos diz:
nem me importo mais com isso
Carlos diz:
um apartamento é muito mais prático
Carlos diz:
já aceitei
CaMiLa diz:
mas o nosso filhinho merece a natureza,né moi?
CaMiLa diz:
merece não ter medo de bichos
Carlos diz:
nisso tu tens razão
Carlos diz:
mas vamos deixar os filhos para um futuro mais distante
Carlos diz:
vamos vencer nossas batalhas primeiro
CaMiLa diz:
batalhas...
Carlos diz:
vamos fazer nossa vida juntos
CaMiLa diz:
ela já é
Carlos diz:
as coisas da vida
CaMiLa diz:
eu sei
Carlos diz:
não estou falando de nós
CaMiLa diz:
d q?
Carlos diz:
em nós o problema é a imaturidade de ambos
Carlos diz:
e como me dói dizer isso
CaMiLa diz:
pq?
Carlos diz:
pq não gosto de reconhecer que me sinto muito imaturo
Carlos diz:
é muito chato pra mim
CaMiLa diz:
mas tu não é muito imaturo
Carlos diz:
se os problemas fossem só teus seria mais fácil
CaMiLa diz:
pode ser um pouco imaturo nessas coisas
CaMiLa diz:
mas pensa bem
Carlos diz:
não gosto de causar problemas
CaMiLa diz:
é a primeira vez que acontece
Carlos diz:
pq eu tenho de resolvê-los depois
CaMiLa diz:
é a primeira vez que eu estou passando por isso
CaMiLa diz:
nunca quis ficar com alguém
Carlos diz:
está passando pelo q?
CaMiLa diz:
como eu quero agora
CaMiLa diz:
por isso de querer algo tão sólido e duradouro
CaMiLa diz:
de querer o futuro
CaMiLa diz:
de pensar nele
CaMiLa diz:
seria impossível não errarmos
Carlos diz:
na verdade não
CaMiLa diz:
mas eu fico pensando se a gente terminasse agora
CaMiLa diz:
tipo assim,se a gente resolvesse que não dá
Carlos diz:
e...
CaMiLa diz:
acho que eu ia pirar pensando que a gente poderia ter dado certo
CaMiLa diz:
e tivemos medo
CaMiLa diz:
eu não posso pensar em desistir
Carlos diz:
eu também penso assim
CaMiLa diz:
pq eu tenho certeza no meu coração que vai dar certo
CaMiLa diz:
muito certo
Carlos diz:
sinto isso em mim
CaMiLa diz:
como eu iria conviver comigo se eu desistisse?
Carlos diz:
como?
CaMiLa diz:
ia ser muito difícil
CaMiLa diz:
seria uma covardia enorme
CaMiLa diz:
um medo absurdo de ser feliz
Carlos diz:
isso eu concordo
Carlos diz:
é um medo de saber que a vida é assim como ela é
Carlos diz:
é louco
Carlos diz:
de querer ser diferente
CaMiLa diz:
assim,cheia de problemas?
Carlos diz:
a vida é um movimento
Carlos diz:
e eu prefiro o que não se move
Carlos diz:
a vida se move
Carlos diz:
ela muda
CaMiLa diz:
muda mesmo moi
Carlos diz:
eu prefiro a eternidade
CaMiLa diz:
eu acho que é como andar de cavalo ou montar aqueles touros bravos,sabe?
Carlos diz:
a eternidade não está dentro do movimento
CaMiLa diz:
tu tem que deixar o corpo molinho
CaMiLa diz:
relaxado
CaMiLa diz:
e acompanhar o movimento
CaMiLa diz:
pra não cair
Carlos diz:
porque o q é eterno sempre É, e a mudança, é só mudança
CaMiLa diz:
o que é eterno não existe pra mim
CaMiLa diz:
nada é sempre a mesma coisa
CaMiLa diz:
tudo mudo caio
CaMiLa diz:
muda
Carlos diz:
errado
CaMiLa diz:
tudo se modifica
CaMiLa diz:
se transforma e evolui
Carlos diz:
o NADA, sempre é o NADA
Carlos diz:
a vida é que não é eterna
Carlos diz:
ou profunda demais
Carlos diz:
a vida é só tempo que passa
Carlos diz:
e mais nada
Carlos diz:
a vida foi-se
CaMiLa diz:
a vida é beijar na tua boca
CaMiLa diz:
te fazer carinho
Carlos diz:
e ninguém deu por isso
CaMiLa diz:
fazer amor
CaMiLa diz:
como eu vou fazer isso na eternidade?
CaMiLa diz:
a vida é sentir teu cheiro
Carlos diz:
quero te prender no momento
Carlos diz:
de aprisionar no meu sonho
CaMiLa diz:
deixa livre as coisas que são tuas
Carlos diz:
de levar a outras coisas que não mudam nunca
CaMiLa diz:
só assim tu vai saber se elas te pertencem mesmo. é brega mas faz sentido
Carlos diz:
nada me pertence porque nada pode ser meu
Carlos diz:
se não sei quem sou
Carlos diz:
e mudar é sempre não saber de nada
CaMiLa diz:
mudar é aprender
Carlos diz:
esquece aquele papo de que a vida é uma escola
Carlos diz:
escola pra q?
CaMiLa diz:
isso sou eu que te pergunto
CaMiLa diz:
quem não acredita em nada aqui sou eu
CaMiLa diz:
tu não é assim moi
Carlos diz:
hoje, tou pras incertezas e pra vida
CaMiLa diz:
hoje eu tô pra imensidão da vida e do amor
Carlos diz:
o que é eterno não se move
Carlos diz:
o que é eterno É
Carlos diz:
a vida é feita de viver
Carlos diz:
esquece esse papo todo
Carlos diz:
me sinto melhor
Carlos diz:
isso eu sei
Carlos diz:
(bah)
Carlos diz:
também quero ser a ovelha e o pastor
Carlos diz:
quero ser o sacrifício e o carrasco
CaMiLa diz:
nada te faltará
Carlos diz:
um carrasco bom, se me permite a improbabilidade
CaMiLa diz:
permito,moi
Carlos diz:
cansei da juventude
Carlos diz:
cansei dos sonhos
CaMiLa diz:
poxa...
Carlos diz:
cansei de querer tudo
Carlos diz:
e não ter a certeza de nada
CaMiLa diz:
agora que a gente tá começando
CaMiLa diz:
agora que eu só tenho sonho e planos no coração
Carlos diz:
quero a vida
CaMiLa diz:
agora que sou eu mesma um projeto ambulante
Carlos diz:
as vísceras
Carlos diz:
o sangue
Carlos diz:
e o fluidos
Carlos diz:
quero tua saliva
Carlos diz:
e tua temperatura
Carlos diz:
quero olhos pra ver
Carlos diz:
só pra ver, os quero
Carlos diz:
quero minhas mãos
Carlos diz:
para sentir a matéria que é tudo que há de átomos
Carlos diz:
e vida
Carlos diz:
quero o verbo
Carlos diz:
para comunicar
Carlos diz:
as sensações impossíveis
Carlos diz:
as latitudes do peito
Carlos diz:
quero tudo, como um animal com fome
Carlos diz:
quer viver
Carlos diz:
e respirar
Carlos diz:
quero em mim
Carlos diz:
uma vontade de querer sempre respirar
Carlos diz:
uma vontade de vencer a vontade e realizar
Carlos diz:
o que for que se queira
Carlos diz:
quero tudo
Carlos diz:
mas deixo os sonhos
Carlos diz:
deitados
Carlos diz:
e que eu, quando estiver dormindo sonhe-os
Carlos diz:
e mais nada
Carlos diz:
quero as rugas na alma
Carlos diz:
pra eu poder supor a vida
Carlos diz:
como quem já viveu muito pra poder supor qualquer coisa
Carlos diz:
e supor, ainda é tão incerto e doente
Carlos diz:
que supor
Carlos diz:
é minha maldição
Carlos diz:
de quase filósofo
Carlos diz:
meu telefone toca já volto
CaMiLa diz:

Esse é o Caio. O Carlos aí de cima. E essa conversa de louco somos nós dois. À primeira lida, parece que não dá para entender nada. Mas quem parar e se esforçar um pouquinho vai acabar sacando tudo.

O Caio é assim mesmo. De vez em quando, ele resolve desabafar um montão de coisas que vinham sendo guardadas. De vez quando, ele conversa comigo desse jeito que vocês viram. Ele conversa sem dialogar.

Às vezes eu surto com essa história de conversar sem poder dar palpite. Eu sou uma pessoa que sempre tem palpites para dar. E não me conformo muito em não poder interferir em uma conversa da qual fui convidada a participar, afinal, são mais de quatro anos de namoro! Tenho lá os meus direitos...

Mas tudo bem. Eu acabo superando. Vou comendo o meu xis e superando. Por um motivo bem simples que eu vou contar para quem ainda não entendeu. O Caio, quando resolve monologar, é isso aí que vocês leram: poesia pura.

Quando o Caio resolve conversar em voz alta com os seus botõezinhos, dá vontade de pegar um gravador e guardar tudo, palavra por palavra. Para poder reler. Relembrar. Deslumbrar. O Caio, quando monologa, dá nisso mesmo. Dá livro. Dá obra-prima. Dá, no mínimo, um post.

E Moi (para quem ainda não sacou, é o nosso codinome), desculpe abrir a nossa intimidade para esse povo virtual. Mas é que não posso guardar só para mim o que há de mais lindo nesta vida: tua voz, tuas palavras, teu jeito de existir, teu jeito de (me) amar. Ainda bem que, uma vez ou outra, tu dá o ar da graça no msn. Uma monologação tua é patrimônio da Humanidade.

Hoje é o teu dia, lindo. E eu homenageio o mundo com um pouco de ti.

O resto é meu. Lov u.

15.8.07

Família Adotada (ou Só sendo mesmo o Filho do Coração)

Tem gente que chama melhor amigo de irmão adotivo. Mas não é não. Irmão adotivo é muito melhor.

Eu sempre achei muito bonita esta história de adotar uma criança e amá-la como se fosse filho nascido da própria barriga. Tem gente por aí que não ama nem os filhos da própria barriga. Do próprio sangue. Pois é. É bonito à beça amar uma criança que não foi fabricada por você. Mas, pensando bem, amar uma criança não é um sacrifício. Não é difícil. Não é uma luta. Amar uma criança é amar e pronto. A gente não vive se apaixonando por adultos, que são muito mais complicados? Amar uma criança é, como dizemos aqui no Sul, uma barbadinha.

Complicado mesmo é o lado da criança. Muita loucura ir parar no meio de uma família que você nunca viu. E tem pai e tem mãe e tem avós e tem primos e tem uma porção de gente nova para aprender a gostar. Todos dão palpite, todos julgam, todos acham que podem opinar. Uns gostam, outros não. Uns torcem o nariz. E poucos, muito poucos, fazem igual. A pobre criança tem que ter um coração do tamanho do mundo para entender, aceitar e perdoar tudo isso (graças a essas minhas conclusões, hoje, finalmente entendo porque o irmão adotivo é apresentado como o filho do coração. Na época, cheguei a desconfiar que meus pais não me amassem muito. Coloquem-se no meu lugar: soava muito mais caloroso ser o filho do coração do que o da barriga...).

E o pior de tudo que a criança enfrenta quando cai de pára-quedas em um novo e distinto seio familiar é que, às vezes, na tal da família existem irmãos. Todo mundo sabe como é ruim enfrentar concorrência. Na amizade tem concorrência, no amor tem concorrência, na escola tem concorrência, no vestibular tem concorrência, no mercado de trabalho tem concorrência, na entrevista de emprego tem concorrência, no emprego propriamente dito tem concorrência. Um porre. E lá vai a criança entrar em uma família já formada, com irmão nascido da barriga e tudo. Ô concorrência desleal!

Bem, eu sou uma irmã da barriga. E repito que irmão adotivo é muito melhor que melhor amigo. Amigo a gente escolhe do jeito que a gente quer. Meio parecido, que pensa meio igual, que gosta mais ou menos das mesmas coisas, dos mesmos lugares, dos mesmos outros amigos, dos mesmos tipos de filmes e, principalmente, de namorados bem diferentes. Já irmão adotivo vem totalmente na expectativa. Ele não sabe nada da gente. Ele não sabe se vai gostar da nossa comida. Dos programas de TV que assistimos. Da decoração da nossa casa. Da escola que estudamos. Das roupas que costumamos comprar. Da nossa organização. Da nossa educação. Dos nossos hábitos. Do nosso modo de ver o mundo. Do nosso modo de nos colocar no mundo. Da nossa maneira de amar. Das nossas tradições familiares. Do jeito que a gente é. Irmão adotivo chega tendo que administrar tudo isso e, cá entre nós, não tem nenhuma obrigação, já que nem filho da barriga ele é.

Irmão adotivo é muito melhor que melhor amigo porque - além de amar a gente apesar de todos os pesares – adota até a nossa cara.

* imagem da série Família Buscapé (ou será do meu álbum?)

9.8.07

reaja!

Roy, querido! Saí com nome próprio no Reação! Quanta honra!!!

Pode apostar que não desisti do Brasil, é tudo desabafo, é tudo surto, é tudo tentativa de desapegar e não sofrer tanta - e tão egoísta - autopiedade. Obrigada pelo e-mail fora da realidade de bom que recebi.

E quem me lê por aqui, leia por lá também:

Reação Cultural, da turma do Roy.

A Mulher de Sardas ganhou nome e sobrenome: Camila Canali Doval.

Só que perdeu a alcunha Vênus. Snif. Bons tempos aqueles de ficar me achando. Mas também, onde já se viu Vênus tão desbocada?

2.8.07

abduzida em plena quarta-feira



Nostradamus
Alexandre Brito/Ricardo Silvestrin/Ronald Augusto - OS POETS

Nostradamus morreu
isso ele não previu
viu o que ninguém viu
coisas do ano 3.000
que em nada lhe serviu

bombas, papas, terror
tudo sem televisor
viu o que ninguém viu
coisas do ano 3.000
que em nada lhe serviu

por isso agora
eu não quero nem olhar
para frente e nem pra trás
quero viver a minha história
sem futuro e sem memória
só o sol, a lua e o mar
água, terra, fogo e ar
respirar, caminhar
não procurar.

Ontem, fui convidada pela minha querida-amiga-Mecânica-da-Palavra-Isabel-Cristina-CCarvalho para assistir aOS POETS, na Livraria Cultura. Ronald Augusto, Ricardo Silvestrin e Alexandre Brito formam o grupo e eu teria um milhão de coisas para falar sobre eles, coisas que eu descobri ou pelos amigos, ou pelo site, ou pelo show. Então, resolvi dar essa barbadinha para vocês, meus amados blogueiros: faço o papel da amiga que indica; dou o link dos caras e, o resto, tratem de verificar pessoalmente nas primeiras quartas-feiras do mês, lá mesmo, na Cultura. Quem mora longe pode curtir o site do grupo e o clipe do You Tube. Sério: é muito bom.

É o tipo de coisa que desce redondinho e faz você gostar desde o primeiro momento. Delícia de violão, delícia de voz, delícia de letra, delícia de som. E, ainda, delícia de clima. Bem na quarta-feira, quando a semana está a recém na metade, quando você sabe que amanhã vai cair a maior chuva, quando a gripe está pegando, quando você ainda não recebeu, quando você sai de casa na maior obrigação com os amigos porque a noite tinha tudo para ser aspirina-e-cama.

Daí você chega lá e os caras cantam que dentro de cada poETa tem um ET. Daí você entra na nave e é abduzido. Daí você volta pra Terra maravilhosamente mais alien do que já era.

Simples assim. Amei.

Além da minha abdução e de algum outro espectador estreante, ainda acontece, em cada apresentação, a de algum famoso. Ontem, lá pelas tantas, apareceu o Júlio Reny, dos Cowboys Espirituais, cantando uma música em homenagem à cerveja nossa de cada dia. Foi legal, embora eu não seja do tipo que descarregue contas, trabalho e frustrações amorosas num choppinho - e nem pretendo fazê-lo quando tiver a idade dele – fiquei pensando que eu devo louvar mesmo é esse povo de Porto Alegre, que me proporciona coisas como uma noite pra lá de gostosa, em plena quarta-feira, num lugar lindo, tranqüilo e seguro, num horário maravilhoso ao preço de 1 kg de alimento não-perecível. Quer vício mais em conta?

E, ah, não esquecemos a tragédia do avião, apenas estamos vivendo.

Créditos deste post e da quarta-feira abduzida:

Os Poets

Livraria Cultura

Os Mecânicos da Palavra

Isabel CCarvalho

1.8.07

cresça, camila, cresça



Cortei o cabelo. O cabelão. As madeixas longas e cacheadas que conservava como um romance antigo e poeirento. Cortei o peso que me ancorava a uma imagem ultrapassada. Enjoei gradativamente do meu significado. Passei a tesoura no que a minha figura queria dizer.

Não foi um arroubo de coragem. Não foi uma rebeldia fora de época. Não foi o chamado para uma revolução das filhinhas de papai do mundo. Foi apenas um mínimo e solitário ato de libertação. Não foi um grito; foi um sussurro. Foi um cutucar sereno nos ombros, me chamando para o presente, desamarrando fio a fio que me prendia ao passado. Cresça, Camila, cresça. Eu poderia escrever esse filme.

Cortei aquele cabelão que me fazia parar tudo para lavar, desemaranhar, secar, encher de creme, pentear. Cortei aquele cabelão que me fazia gastar o dobro de dinheiro na cabeleireira. Cortei aquele cabelão que deixava o meu rosto magro mais magro, a minha preguiça mais preguiçosa, o meu pouco tempo ainda menor. Cortei aquele cabelão que apontava constantemente para baixo e me fazia parecer muito próxima do chão.

Ainda gosto de cabelão. Vejo na rua e babo. É lindo. Observo as meninas de cabelão e imagino que estão exatamente em seus tempos. Descubro as senhoras de cabelão e fantasio sobre o que foi feito dos seus tempos. Será que o cabelão sobreviveu à maratona da vida? Será que o cabelão voltou como um segundo grito de liberdade?

Porque eu demorei a crescer. E cortar o cabelo é o marco da minha transformação. Mas, quem sabe, um dia não quererei voltar a mostrar a menina na forma de um cabelão. Porque a menina ainda está aqui. A princesa dos contos- de- fada. A filhinha do papai. Está aqui, sim, é claro. O que há de bom não se troca; se soma. A menina vive bem aqui: dentro da Mulher de Sardas, esperando pelas próximas que virão.

Eu só preciso de um transplante de cordas vocais para combinar com o novo visual.

não se nasce mulher, torna-se mulher [simone de beauvoir]