19.7.07

E de repente o avião caiu. No caso, bateu. Ainda mais surpreendente, ainda mais aterrador. De repente, viramos todos um só. Um único sangue, um único parentesco, um único laço unindo todas as pessoas ao redor da tragédia. Porto Alegre ficou pequena na tragédia. Porto Alegre virou uma vila. De repente, todos nos conhecemos, todos temos alguém ou alguém de alguém dentro do mesmo avião.

Passei a noite escutando as notícias. Acordei e sigo escutando as notícias. Gritei no guichê da TAM exigindo informações. Listas. Nomes. Nomes que não quero ouvir. Sou um cidadão desesperado. Acompanho corpo por corpo que é retirado dos escombros. Sou um bombeiro. Acompanho cada reconhecimento. Sou um funcionário do IML. Olho para os cadáveres. Choro por todos como se fossem meus. E são meus. Viajo até São Paulo junto com os parentes das vítimas. Também eu sou parente das vítimas. Sou humana como as vítimas. Só que eu sigo existindo.

As causas do desastre serão investigadas. Algumas evidências deixaram de serem evidências para serem como as sinalizações de uma pista de pouso. Elas piscam, vibram, reagem. São de todas as cores e de todos os brilhos. Impossível não serem vistas. Elas começaram há dez meses atrás. Elas caíram dos céus junto ao avião da Gol. Elas vieram em desgovernada carreira e trombaram com o prédio da TAM no aeroporto de Congonhas. Que foi há pouco reinaugurado. Que não estava em condições. E onde estão os responsáveis? Bem, as causas ainda serão investigadas. É como se ninguém fizesse idéia. É como se fosse coisa do destino. É como se uma pista escorregadia fosse culpa pura e simplesmente do tempo. De Deus.

Estou até contente que o Governo ainda não tenha se manifestado. Seria cruel demais escutar depoimentos de gente que não sabe de nada. De um Presidente da República que tem chilique em público para mostrar serviço. De um presidente da Anac que aprendeu o que é aviação civil como presidente da Anac. De uma INFRAERO falida de moral. De uma ministra que merecia relaxar e gozar no inferno.

Porto Alegre, a grande Porto Alegre, ficou pequena de repente. Éramos tribos, éramos raças, éramos partidos, éramos religiões, éramos diferentes intelectualidades, éramos uma cidade e tanto movida por uma pluralidade intensamente enriquecedora, mas que, de repente, ficou pequena, bem pequena, do tamanho de um abraço. E nós, povo, ficamos ainda maiores. Como sempre ficamos diante do que escapa do controle de nossa humilde capacidade de compreensão.

Esse texto fala de Porto Alegre, mas Porto Alegre representa o Brasil – com exceção dos responsáveis pelo “acidente”. Estamos à mercê dos “acidentes”.

Este blog manifesta o seu profundo pesar por todos nós.

14.7.07

o anel que tu me destes


Bia querida,

Pensei muito em nosso surpreendente encontro de ontem. E nas tuas palavras: precisamos consultar os astros para saber o que eles estavam planejando para nós com esta surpresa!


Quero dizer que adorei ouvir que o nosso encontro estava escrito em algum lugar deste céu maravilhoso. E que você me considera tanto.


Pensei muito mesmo na delícia de te reencontrar. Parece que exatamente o Universo forjou nosso encontro. A manchinha branca entre as minhas sardas. A procura de uma dermatologista no site da Unimed. A caminhada naquele dia maravilhoso até o consultório. Tua voz invadindo a sala de espera. O abraço muito muito cheio de carinho e saudade. E quanta saudade.


Bem, a minha saga até a dermatologista foi mesmo só para te encontrar. É óbvio que a manchinha não era nada além de paranóia desta mente hipocondríaca que fica tão maluca com esses cartõezinhos na carteira, tanto faz se de crédito ou de plano de saúde, eles têm que funcionar.


E o que eu preciso registrar aqui, o detalhe mais bonito, que eu só me dei conta depois, à noite, e que me fez sorrir sozinha, feliz: há muitos meses eu não usava o anel que tu me destes. Aquele com a rosa. Lindo. Pois bem. Ontem, do nada, me deu uma vontade absurda de usá-lo. Eu praticamente escolhi minha roupa por conta dele. Pena que esqueci de te mostrar o quanto ele combina comigo e o quanto o amo e amo o jeito como ele veio parar em minhas mãos. Afinal, ele não era para mim. Foi um presente fruto da tua generosidade. Da beleza que só tu tem.


Bia querida, não sei o que os astros estavam planejando. Sinceramente, não acredito que eles planejem qualquer coisa. Penso mesmo que eles olharam aqui para baixo e, por acaso, me viram, lembraram o quanto eu andei meio borocochô nos últimos tempos e decidiram preparar algo muito especial para a minha quinta-feira de folga.


E tudo ficou bem.


Te adoro muito! E repara que este e-mail ainda vai virar crônica.


Camila.

11.7.07

O novo Mulher de Sardas e o novo Casal de Sardas


Blog é um espaço pessoal, onde a gente pode fazer de tudo. Já tentei dar vários ares para o meu blog... Já tentei definir sua cara, seu papel, sua vez e sua voz neste mundo virtual. Mas não dá. O meu blog é tão meu que chega a ser eu. E eu sou assim.

Portanto, aqui está o Mulher de Sardas de cara nova, assim todo céu em noite estrelada.

E o primeiro post feito especialmente para o novo Mulher de Sardas também fala sobre mudanças.

Sobre as minhas mudanças.

Quando eu conheci o Caio, estávamos iniciando a faculdade de Letras. O destino quis nos colocar na mesma turma de Lingüística I. Desinteressados do significado acadêmico da Língua, partimos para o bom proveito da língua. E começamos a namorar.

Quando eu e o Caio começamos a namorar, eu ainda era uma mulher de sardas e não a Mulher de Sardas. Mas o primeiro presente que ele me deu foi um livro das poesias de Alberto Caeiro. E a literatura que andava tirando uma soneca aqui dentro despertou.

Assim, criei o Mulher de Sardas. Timidamente, comuniquei ao Homem da Mulher de Sardas quem a partir dali ele seria. Ousadamente, comuniquei ao mundo o meu nascimento.

E o Mulher de Sardas foi tomando a cara sardenta que ele tem hoje. Muita gente tirou um sarrinho. Normal, todo mundo que tem sardas e outros tipos de diferenças sabe como são essas coisas.

O Mulher de Sardas cresceu. E eu e o Caio também. Não, não viramos adultos de repente. Não viramos sérios, responsáveis e coerentes. Ainda somos dois colegas paquerando escondidos no meio da aula. Ainda enlouquecemos quando não tem ninguém olhando. Ainda discutimos assuntos indiscutíveis e realmente nos magoamos por causa disso. Ainda nos provocamos com piadinhas insolentes. Ainda nos jogamos papeizinhos. Ainda fazemos umas safadices atrás do muro da escola. Ainda colamos nas provas. E ele ainda puxa as minhas tranças.

Mas hoje o Mulher de Sardas tem três anos. Eu e o Caio temos quatro. Hoje eu já sou formada. Dei o primeiro passo. Saí da escola e caí na vida. Mas não andei muito longe. Fiquei esperando por ele. Aprendi, neste tempo todo, a não me afastar muito. A ficar por perto. A não perder de vista o que eu mais gosto de ver.

E então ele veio. Ontem o Caio apresentou o seu Trabalho de Conclusão de Curso. E foi muitíssimo bem, obrigada.

Aí está. Concluímos a nossa primeira fase: o namoro que se forma com distinção.

Agora damos o novo start. Eu, o Caio e o Mulher de Sardas. O namoro agora ainda é namoro mas já vai tomando a forma de tudo o que virá nos próximos posts.

Caio, a idéia principal de toda essa lengalenga é dizer que esta Mulher de Sardas aqui e este seu humilde blog podem não ser grandes coisas ainda, mas tudo o que são vêm deste nosso encontro improvável de estilos e inevitável de almas. Adoro saber que me lês; eu procuro recitar palavra por palavra para ti. E é nessa premissa que baseio a minha evolução.

Quando eu te vi a primeira vez, te achei divertidíssimo de bigode português e camiseta dos Mutantes. Meu Deus, era meu princípe encantado, e eu ali achando a maior graça.

Ainda bem que todo punk-hippie-cool tem queda por patricinha.

Parabéns pela tua formatura, meu amor. Eu te amo.

"Meu mistério é simples: eu não sei como estar viva".



E assim, lendo Clarice Lispector, descobri que ela definiu a minha vida em pouquíssimas palavras, onze anos antes de eu nascer.

Eu não sei como estar viva. Esta é a verdade. E não saber como estar viva é muito diferente de não saber viver. Eu sei viver. Eu sei exatamente o que se deve fazer de uma vida. Eu sei encontrar o meu lugar e tomá-lo. Eu sei não ser esquecida. Eu sei ser necessária. Eu sei desaparecer. O que eu não sei é como estar viva.

Eu entendo a vida. Olho ao meu redor e para longe e sou capaz de compreender o mundo e as pessoas e saber como chegamos até aqui. Não culpo ninguém. Amo o mundo e a humanidade. Lamento os descuidos de Deus. Sinto que sou parte de tudo por aqui. Quero viver e crescer; viver e amar; viver e sentir; viver e multiplicar; viver e existir o quanto me for possível. Eu sei que faz sentido. Eu estudo e trabalho; eu me apego ao sistema e tento burlá-lo. Eu caminho em linha reta e sempre para frente porque eu tenho absoluta certeza de que faz sentido. Em algum lugar. Em algum momento. A única coisa que não faz sentido é estar viva. E, estando, não sei como estar. Não sei o que me move originalmente. Não sei que sopro é esse que fatalmente me incutiu vida quando eu era apenas barro. Agarro-me na vida. Nasci sem querer, mas agora quero a vida. A vida inteira. Seja lá o quanto isso significa. Algo enfiou vida aqui dentro, desastradamente, e não pára de ameaçar tirá-la de mim. Isso é viver? Se for; vivo. Mas enlouqueço todos os dias pensando no fim. Eu sinceramente não sei como estar viva.

E, ao defrontar a morte, também não sei como não estar.

O livro se chama Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. E por isso eu achei que não doeria tanto.

arquivos junho 2007

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Não estou com saudade de ontem
De ontem, eu nem lembro mais
Minha saudade é velha
É esquecida e maltratada
É saudade de um tempo atrás.

E eu não sei mais o que disse o poeta sobre a saudade
O que sei é que se ele não tivesse dito
Não teria sido eu a dizer
Não, eu não diria
Pois não sei fazer poesia.

Só sei sentir saudade
Fazer saudade
Doer saudade
E pedir mais do que posso ter.

Não estou com saudade de ontem
A minha saudade é do que fui
Fomos
Quisemos ser.

terça-feira, 12 de junho de 2007

NÃO POR ACASO
Não por acaso saí de casa, ontem, na maior chuva, para ir ao cinema. A verdade é que eu já previa uma tarde maravilhosa com a família, só eu e eles, como há muito tempo não fazíamos.
Não por acaso eu e minha família, ontem, éramos apenas quatro. no dia 2 de junho, em uma estonteante noite de inverno em Gramado, meu irmão se casou.
Não por acaso nós quatro, eu, meus pais e minha irmã, sentimos necessidade de estarmos juntos, um dia inteirinho, fazendo coisas deliciosamente banais. Realizando, silenciosamente, um íntimo ritual de despedida. Não por acaso comemos pipoca, não por acaso olhamos os filhotinhos de cachorros na vitrine da loja, não por acaso conversamos sobre os últimos acontecimentos, planejamos o futuro próximo e fomos sorridentes e carinhosos uns com os outros.
Não por acaso o filme que assistimos não era um romance nem uma comédia, era um filme sobre a vida, sobre os rumos, sobre os caminhos que tomamos, as ruas que cruzamos, sobre as idas e vindas, sobre as ondas de sinais verdes que se propagam, sobre os sinais vermelhos também, sobre como, às vezes, perdemos o controle do jogo e a bola branca inevitavelmente cai na caçapa.
Não por acaso a história do filme falava de separação e fim, de ressentimento e perda, de paralisia e medo, da instabilidade das certezas, da vontade de fazermos sempre e apenas o que dará certo.
Não por acaso no filme tinha amor, muito amor. Amor para tudo ser verdadeiro, amor para segurar as barras, amor para tudo e todos encontrarem o seu lugar.
Não por acaso desde o filme não pára de chover um instante, como em todos os momentos dramáticos das cenas e da vida, e agora não há luz na minha casa, e reencontro , enfim, o papel e a caneta à luz destas velas, reencontro as palavras, reencontro meu pedaço afastado, reencontro o que há em mim que me impele dolorosa e docemente a criar.
Não por acaso a chuva lava as feridas dos últimos meses, a perda do emprego, a perda da confiança, a perda da certeza, o sentimento de rejeição, o medo de estar no lugar errado na hora que nunca foi marcada, a inesgotável fase ruim que só esgota com essa água toda caindo do céu, com esse abraço mudo e apertado na família, com um respirar fundo, com o enfrentamento de uma enxurrada de sentimentos assustadores necessitando de resoluções.
Não por acaso, às vezes, a tacada sai um pouco mais forte do que o planejado e é preciso recomeçar.
Não por acaso, às vezes, a sinaleira entra em pane e precisamos decidir sozinhos se devemos atravessar.

Não por acaso, ontem, assisti ao filme Não por Acaso.
Não tem remédio para a alma melhor do que uma obra-prima.

arquivos março 2007

sexta-feira, 9 de março de 2007

AINDA SOBRE MULHERES
Ser mulher é bom todos os dias, exceto nos de menstruação. Contando com o prazo da tpm, então, ser mulher é bom praticamente 15 dias por mês. Ei, não desanime assim, logo de cara! Afinal, uma parcela de 50% não é tão pouco quanto parece. É metade e, conforme a sua fome, a sua sede, a sua necessidade, metade já está mais do que bom.
Quer dizer, estaria mais do que bom SE nós não fôssemos mulheres. E mulheres, como todos sabem, sempre querem mais. Mal feminino? Não. Mal do ser humano, levemente potencializado na mulher, é claro. Mas não sejamos tão hipócritas: é realmente difícil conformar-se com metade quando, em teoria, poderíamos ter tudo. Poderíamos saciar toda a fome. Poderíamos matar toda a sede. Poderíamos suprir todas as necessidades - até as desnecessárias. Desta forma, como contentar-se com metade, se a utópica ilusão de um dia ter 100% de satisfação garantida - all the time - não nos abandona?
(E não é preciso nem vir com o papo de que mulher tem a dádiva de poder dar à luz. Isso fica no meio, delimitando a parte boa da parte ruim. Ser mãe pode ser maravilhoso e pode ser uma desgraça. Sem ilusões, por favor. Todos sabem que existem diversas maneiras de fazer um filho).
Ser mulher é bom e é ruim. Quer ver?
Ser mulher é ruim quando o pneu fura e todos passam buzinando e dizendo gracinhas, mas ninguém pára para ajudar. Ser mulher é ruim quando a prova para líder do Big Brother é de resistência e seus concorrentes são caubóis e administradores sarados. Ser mulher é ruim quando você tem tudo para ser a diretora da repartição, mas o dono da empresa é um machista filho da mãe (culpa da própria?). Ser mulher é ruim quando você pede para a sua filha lavar a louça para você enquanto o filhão está jogando video-game (como se fosse trabalho de menina - e não de menino, como se a louça fosse sua - e não da família inteira). Ser mulher é ruim quando você se flagra repetindo pequenas atitudes machistas que sua mãe copiou da sua vó, as quais fizeram com que você achasse que não tem direito a certas coisas. Ser mulher é ruim quando você estuda, trabalha, preocupa-se com corpo e mente, com saúde e espírito e tudo o que você vê na televisão e nas capas de revistas são bundas e bundas e bundas. Ser mulher é ruim quando você não tem outra coisa para exibir senão uma bunda. Ser mulher é ruim quando você é confundida com as bundas que existem por aí e parece que você também não quer outra coisa para a sua vida. Ser mulher é ruim quando você percebe que outras mulheres é que rebaixam o gênero. Ser mulher é ruim quando um homem passa dos limites, abusa, usa a força, e você só tem força para chorar. Ser mulher é ruim quando um homem humilha você sexualmente, moralmente, humanamente. Ser mulher é ruim quando você se vê mãe e sozinha, sem um pai-marido-amigo para compartilhar. Ser mulher é ruim quando a sua condição de mulher é usada contra você.
Na outra metade, ser mulher é bom porque há na mulher algo a mais. Há na mulher um ventre, útero, ovários, trompas, há na mulher um ciclo. Há na mulher algo que precisamos carregar, defender, proteger. Há na mulher algo a ser cuidado que nos torna as mais masculinas dos homens. Não há mistérios, não há segredos na mulher. Não somos cavernas escuras e profundas a serem desvendadas. O que carregamos é simplesmente o sentido de tudo. E ele é tão óbvio. Ser mulher é bom quando um homem entende isso. Ele não precisa entender porque choramos, porque gritamos, porque somos insatisfeitas, porque somos culpadas, loucas, tristes, felizes, incompreensíveis. Ele só precisa entender o que somos. Ele só precisa abraçar o que somos. Ele só precisa querer o que somos do jeito que somos. Mulheres. Porém, acima de tudo, ser mulher é bom quando nós mulheres conseguimos gostar do que somos. Não é fácil ser mulher. Nem sempre é bom ser mulher. Mas só uma mulher pode entender realmente o que isto significa. Só uma mulher pode descobrir do que uma mulher é capaz, o que ela pode aceitar, em qual guerra ela deve lutar, qual o momento de se render. Se uma mulher não escuta, sente, aceita a si mesma... Quem mais poderia fazê-lo?
Ser mulher é bom, sim, e, se pensarmos com calma - e fora da tpm - talvez não seja em apenas 50% do tempo. Talvez seja 75%. 92%. Talvez seja no tempo exato em que permitimos que o amor-próprio apareça e prevaleça.

quinta-feira, 1 de março de 2007

DO TEMPO UM OÁSIS
Por que tanto calor? Castigo? Só pode ser! Eu e Porto Alegre ardemos no fogo do inferno. Sem exageros. A metáfora é mais do que verdadeira. Acho que alcançamos os 40º. Ora, é claro que alcançamos! Somando os 36º dos termômetros ao asfalto, ao efeito estufa e ao ventilador capenga que insiste em me encarar os 40º passaram batido por aqui. E já me ponho a sonhar com o frio que há pouco tempo torcia para acabar de uma vez.
Por que somos assim? Agora há pouco assisti um documentário sobre um casal perdido na neve e corri ao congelador para pegar umas pedrinhas de gelo. Eles sorviam a neve na boca para beber um pouco de água e eu copiava o gesto, quase sem entender porque na televisão essa dádiva parecia um castigo. Nunca satisfeitos. Nunca felizes. O verão finalmente chegou e não desgrudamos os olhos da previsão do tempo para saber quando é que diabos ele vai terminar.
Por que tanta inconstância? A impressão que dá é que nós mesmos somos culpados pelo tempo passar tão rápido. Quantas vezes eu disse: meu Deus, o ano passou num toque! E passou mesmo. 2006 foi um furacão. Um tsunami. Uma coisa inexplicável. Talvez não tivesse sido assim se eu não passasse o verão esperando pelo inverno e o inverno esperando pelo verão. Se eu não passasse o Natal pensando no feriado de Carnaval. Se eu não enfrentasse o Carnaval fazendo planos para a Páscoa. Se eu não desejasse que o meu aniversário nem existisse. Se eu não ansiasse tanto pelo fim do semestre e pelas férias de julho. Se eu não reclamasse tanto de agosto/setembro/outubro serem tão arrastados. Se eu não passasse novembro dizendo: o Natal já está aí! O ano já acabou! Passou voando!
Por que tanta fome? Eu engoli 2006 e muitas outras coisas desceram com ele estômago abaixo. Minha faculdade acabou e não está parecendo assim tão bom ficar em casa todas as noites fazendo o utópico "o-que-eu-bem-quiser". Troquei de emprego e essa coisa toda de despedida, de recomeço, de bola pra frente não é assim tão bonito como final de novela. Por falar nisso, a novela acaba nesta sexta. Já.
Por que a pressa? As mudanças são boas. Já escrevi sobre isso em algum momento. Há sempre algo muito bom em uma mudança. Mesmo quando ela parece a pior coisa do mundo. Nós só não precisamos ser tão afobados. Eu sei que a vida é curta. Ô, como eu sei. Acho uma injustiça tremenda essa miséria de vida. Parece trailer de filme bom. Ficamos com vontade que o trailer é que seja o filme. Ficamos com desejo que ele estréie de uma vez. Ficamos loucos para que o tempo passe e... Lá vamos nós de novo.
Por que tanto mal-humor, gente? Esse calor até que deixa os dias mais longos. Fazemos tudo arrastado. Molengas. Sem tanta pressa, mesmo porque o corpo não responde muito bem às ordens do cérebro. O problema é essa torcida para que o dia acabe logo. Para chegar logo em casa. Para tomar um banho e dormir. Não deveria ser assim. O calor é ruim, mas muito pior é ver o tempo evaporar. Não dá mais para fazer passar batido. 2007 nós temos que curtir de ponta a ponta. É um ano inteiro da vida da gente. Analisando bem, é muita coisa. Deixa eu puxar o ventilador mais para perto. Assim. Nada mal. Deu até para escrever este texto.

arquivos janeiro 2007

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

TÁ AÍ
Tá aí, eu. Formada. De toga, barrete e diploma. De cabelo arrumado. Maquiada. Sorrisão de orelha a orelha. Que dia bom. Que noite. Que emoções deliciosas. Que deslumbre em ouvir meu nome assim tão alto, assim como se o mundo inteiro tivesse parado para ouvir... Um segundo de silêncio e o meu nome rasgando o nada. Então começou a minha música e eu levantei. Ou eu levantei e então começou a minha música? Não sei, não lembro. Era para o Renato cantar sem amor eu nada seria a a a a. E eu até acho que ele cantou. Eu é que não escutei.
Escolhi Monte Castelo para tocar na minha formatura por alguns motivos que pretendo explicar, pelo menos para quem lê este blog, pois quem estava lá talvez nunca fique sabendo. E algo assim, tão pensado, tão ensaiado, tão desejado... Merece uma explicação.
Em primeiro lugar, Renato Russo é o meu compositor preferido. Explicar minha preferência, ao mesmo tempo em que poderia parecer com a preferência de muita gente, daria uma crônica. Renato Russo é o cara para mim. Perdoem-me todos os que vivem tentando me convencer de que não, ele não é o cara. Ou que ele até é o cara, mas não assim, tão o cara. Para mim, Renato Russo, é único. O único que esteve comigo em todos os momentos cruciais da minha vida. A primeira música de "adulto" que eu escutei foi Faroeste Caboclo. Minha primeira música-tema foi Quase sem Querer. A primeira pessoa que perdi foi o Renato. É verdade. Todas as minhas dores e raivas da adolescência foram vividas por e com ele. Lamento, mas é verdade. Tá para nascer alguém que entenda tanto de mim. Além de tudo, o primeiro herói que superei foi o Renato. Um dia, eu o encarei de pertinho. Entendi um pouco de tudo. Fiquei com pena. Cresci.
Em segundo lugar, Monte Castelo tem a ver com as minhas escolhas. Monte Castelo é um poema de Camões, o que retrata com honra e mérito o meu curso: Letras - Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas em Língua Portuguesa. Literatura, graças a Deus!
Em terceiro lugar, o verso sem amor eu nada seria fala de mim em primeira pessoa. Sem amor eu nada seria mesmo. Sem amor, de nada importaria o curso, a formatura, a profissão. O que é um professor sem amor? O que são alunos sem amor? O que é a educação sem amor? O que é um ser humano sem amor? Nada. Antes de qualquer coisa, o amor. Sempre o amor. Posso largar qualquer coisa por amor e posso me agarrar a tudo por amor. Posso mudar minha vida. Posso começar de novo. Posso conquistar o céu. Posso renascer a cada instante de amor.
E não falo só de amor assim, homem-mulher. Falo do amor por si mesmo. O amor que ama solto por aí. Eu estou aqui por amor, basta conhecer os meus pais. Eu cresci por amor, basta conhecer meus irmãos. Eu existo no amor, basta conhecer todos os que me rodeiam. Eu vivo com amor, basta conhecer meu namorado. (Apaixonada e piegas, essa sou eu. Nunca disse que lia Sabrina quando era novinha?)
Agora dizem que estou formada. Espero que seja verdade. Até hoje não senti nada que chegasse perto da idéia de estar formada. Formada dá a impressão de acabada. Pronta. Era isso. Tá aí.
Vamos ver se esse amor todo que me cerca vai continuar me acompanhando lá fora. Sem amor eu nada seria e posso acrescentar que nada serei. Ainda não me faltou amor. Ainda não me faltou quem olhasse por mim. Rezasse por mim. Cuidasse de mim. Caminhasse comigo por essa estradinha estranha que é a vida. A minha nunca foi tortuosa, mas é insano não saber onde vai dar. Mas não estar sozinha já é suficiente para enfrentar.
Meus beijos todos, então, a todos que vão comigo. Coisa boa ter vocês aqui. Meu desespero sobre o futuro esmorece quando me desespero com vocês. Vamos caminhando e escrevendo e lendo uns aos outros, porque se existe a chance de nos amarmos, não há motivos para não fazê-lo. E este momento que parece todo meu... também é um bocado de vocês.
E ah, em último lugar, escolhi Monte Castelo porque é linda demais.

arquivos dezembro 2006

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

CHOVE CHUVA
Está faltando um post de final de ano neste blog. Eu sei que está. Todo mês de dezembro é tempo de fazer uma retrospectiva, um melhores momentos, um balanço... É tempo de parar um instante e (re)pensar a vida. É tempo de planejar um novo ano ainda melhor. É tempo de respirar fundo e tomar fôlego para o que vem por aí. O único problema é essa estranha impressão de que fiz isso agorinha mesmo!
E não é verdade?
2006 passou voando, apesar de todo o caos aéreo. E lembro bem que, há um ano atrás, eu estava muito cabisbaixa, desanimada, realmente triste com essa história de fim. Dezembro é um mês de fim. Um mês inteirinho de despedida e espera. Um mês que dá vontade de chorar por mais um ano que acaba e de gritar feito criança no parquinho pelo ano todo novo que chega às nossas mãos.
2005 foi um ano triste, em geral. Muita coisa ruim aconteceu pelo mundo. Muita mesmo. No final, todo o mundo suspirou aliviado. Todo mundo torceu por um bom 2006. Ou, ao menos, por um 2006 tranqüilo. Ano-Novo tem essa coisa de unir as pessoas em um pensamento único. É como torcida de futebol, mas sem gre-nal. É só um lado. É o time de branco. Quando chega a meia-noite as comemorações explodem em fogos de artifício. Não tem quem não se abrace. Não tem quem não olhe para o céu e imagine as melhores coisas para si, para o mundo, para quem quer que seja - onde quer que esteja, para o Universo sem distinção. Sabemos da África, sabemos do Oriente, sabemos das drogas, sabemos das guerras, sabemos das crueldades, sabemos do horror, do medo, da inexistência de sonhos, do desconhecimento do amor, sabemos de muita gente que nem sabe que o dia 1º de janeiro é o dia 1º de janeiro. Sabemos que a grande maioria das coisas que deveriam mudar no ano que vem não mudarão nunca e ainda piorarão. Sabemos. Sabemos de tudo. Mas ninguém me tira a explosão.
Termino 2006 tranquilamente. Foi um ano e tanto. Fico até sem ar em pensar. Tudo de bom para mim, tudo de vento em popa, tudo fluindo em ondas energéticas do centro da Terra, do céu, sei lá de onde e do meu próprio coração. Tremo ao pensar em 2006. E me delicio ao ter certeza que pelo resto da vida utilizarei a mesma expressão para ele: que ano!.
2007, então. Venha! Quero 2007 todo para mim. Quero vivê-lo, seja como for. Quero estar aqui em dezembro. Sinto um medo absurdo de tudo o que pode acontecer nesses dias todos, quase sinto vontade de me esconder em um cantinho e ficar só observando, mas como? Como não viver? Agora que nasci, tenho que viver, tenho que caminhar, tenho que respirar, tenho que dormir e acordar, tenho que realizar, criar, aprender, investir, amar, trabalhar, curtir, viver, viver e viver da maneira que for possível, mesmo com o medo que nunca me abandona, mesmo com a morte atravancando o caminho, mesmo que não haja sentido algum - e eu sinceramente acho que não há nenhum sentido, mas quem está na chuva, afinal, tem que se molhar e não há nada mais delicioso que um belo banho de chuva nesses dias infernais de verão.
Para os meus queridos amigos VIRTUAIS, um 2007 REALMENTE feliz!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006
MAS QUE DÚVIDA!

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

DEZEMBRO
Dezembro vem para acabar. E por isso faz um calor infernal. Os dias escoam como água na privada: turbilhão. O Natal é só um dia que a gente quer que chegue logo. E que passe, assim que puder. Só que ainda nem comprei os presentes. Tudo parece despedida. De repente, somos nostalgia. Esperança. Certeza. Somos abraço. De repente, precisamos abraçar todo mundo. De repente, precisamos rever os amigos. Presenteá-los. Devolver os livros emprestados. Acertar as contas. Resolver as pendências. Recuperar os sorrisos. Pedir perdão.
De repente, precisamos pedir perdão.
De repente, a cruz pesa nos ombros.
E torna-se bonito sofrer.
Os últimos dias do ano são regidos por um protocolo organizado às pressas. Sempre esquecemos uma lembrança. E na noite final eu choro como juro que não chorei em nenhuma outra noite do ano. Os fogos explodem minha alma. Não sinto. Choro é pela vontade de ficar mais um pouquinho.
Dormir no dia 31 de dezembro me assusta. Não quero acordar em outra numerologia, em outra regência, em outro futuro. Não quero que o tarô me diga o que ainda não sou. Não quero acordar no dia 1º de janeiro e fingir que é a primeira vez. Acordar em um novo ano é ter que voltar. E pensar em voltar me cansa. O ano deveria ter 365 meses.
E os meses não deveriam ser sempre os mesmos. A cada ano, deveríamos inventar novos meses. Com novos nomes. Com nova duração. Quem sabe chamá-los por apelidos. Quem sabe por símbolos mágicos. Quem sabe por sinais sonoros. Nunca igual ao ano passado. Nunca causando a horrível sensação de repetência: o deja-vu que nos faz andar em círculos e achar que é sempre cedo para morrer. É sempre cedo para morrer quando contamos em um calendário o viver.
Mas, enfim, o nome não importa. Sou Camila todos os anos e uma mal reconhece a outra, embora não se confundem olhos de amêndoas. Minhas sardas não cabem mais em meu rosto. Eclodiram pelos espaços outrora ermos de meu corpo. Já fui bicho da goiaba, do mato, lagarta. Hoje balanço minhas asas com sérias pretensões de voar.
Este ano vai ser diferente. Olhando, assim, para o céu, e sabendo que as estrelas são o passado, tenho a nítida impressão de que vou sobreviver.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006
quero ficar sentada e imóvel
por minutos incontáveis
quero que gravem minha imagem sentada neste banco
quero que olhem para o banco amanhã e depois
e me vejam

tão bonita

os cabelos todos espalhados pelo vento
olhando para tão longe e para tão perto

e para tudo o que se pode olhar e se ter no olhar

escrevendo algo em folhas soltas
poesia, quem sabe?

pelo jeito que olha para o céu de vez em quando
pelo jeito que parece às vezes sorrir

e às vezes suspirar

talvez o que ela escreva seja mesmo poesia
talvez ela seja alguém que eu conheça

que já li

(talvez ela seja alguém que lerei)

então
não quero desfazer por nada esse lembrar

no banco tão bonita
esperando o ônibus
que nem era preciso esperar
porque eu sabia que só viria

além muito além.

arquivos novembro 2006

sábado, 25 de novembro de 2006

O final dos tempos se repete a cada dia,

não há paz
nos infinitos cantos do mundo.

Já pensou em deixar a criança sair?

Não. Não pensou.

Não se pensa mais em liberdade,
agora só se pensa em voltar.

Entrar e fechar bem a porta, eis a verdadeira aventura,
o prazer alucinógeno de viver.

Estendo minhas duas mãos para ti e peço para que sentes ao meu lado
no sofá encardido
sob o quadro falso
ao som da novela
nos basta.

Quem sai, agora, é o invísivel que mora no sonho;
E aqui dentro ficamos a brincar.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006
Fiz pão
do sal destas lágrimas todas
do resto de farinha que ficou na despensa

do fermento vencido
E esquecido

Fiz pão
amassando como fazia com tuas coxas e nádegas
Com tuas costas

Cravando dedo a dedo para machucar

Fiz pão
E comi inteiro sozinha
Não dividi com ninguém a minha metade que ficou

Fiz pão para acompanhar teu café passado.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

... você não está entendendo quase NADA do que eu digo eu quero ir embora eu quero dar o fora e quero que você venha comigo TODO DIA TODO DIA ...

tive momentos mágicos com Chico e Caetano,
no bus lotado, no embalo do trânsito, de volta para casa após uma tarde insana de trabalho,
nem me importei de estar em pé,
em pé com Chico e Caetano
não fica com ciúme, não

era o Chico e a gente combinou: o Chico pode pode, né?

nem pensei no calor - e estava tão calor
nem pensei no cansaço - e estava tão cansada
nem pensei naquele monte de coisas que tenho que pensar - deixa pra lá

era o TR61 com Chico e Caetano
quantos têm essa honra?

Chico e Caetano cantando assim, ao vivo, pra mim
(até me balancei lentinho, pra ninguém notar, pra acharem que era culpa da curva)

era o Chico,
o Caetano,
o horário de verão

coisa mais boa sair do trabalho e ainda ser dia
- e ainda ter vida
coisa mais boa ir pra casa tão bem acompanhada

enquanto tu não vem
enquanto o sol não se põe inteiro
enquanto não amanhece de novo

na tua falta,
o Chico pode, né?

a gente combinou

VEM DAR O FORA COMIGO

arquivos outubro 2006

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

PÉS DESCALÇOS
Nunca fui de perder coisas. As coisas é que costumam se perder de mim. Quando pequena, perdi o par de tênis amarelo da minha Barbie. Eu já não gostava muito dela justamente porque usava tênis. Era uma Barbie esportiva e eu não conseguia entender o que deu na cabeça do meu pai para comprar uma Barbie esportiva. Eu gostava mesmo era das Barbies glamourosas, de longos e brilhantes vestidos cor-de-rosa. Ele me deu a Barbie pouco antes da mudança e eu fiz questão que ela fosse de caminhão. Não ocuparia o lugar dos brinquedos privilegiados, que atravessariam a jornada entre Porto Alegre e Florianópolis ao meu lado, no carro. Quando chegamos ao destino e os transportadores largaram a caixa de brinquedos em meu quarto, corri trêmula até ela, com um pressentimento feminino que se manifestava precoce demais para uma menina ainda tão menina... Mas ufa, a Barbie estava lá. Mas não os tênis. A boneca estava descalça. E pior do que uma Barbie esportiva, era uma Barbie esportiva sem tênis. Sem sentido. Sem razão. É claro que me culpei, é claro que passei o resto dos anos observando a boneca descalça e me condenando pelo descaso. Os pés nus eram prova do meu espírito desavergonhado. Testemunhas das minhas primeiras escolhas imorais.
Perdi algumas outras coisas depois disso. Brincos de ouro na piscina de bolinhas do Iguatemi (de cada par guardo a peça que se salvou). O Mundo de Sofia (da vez que li guardo a surpresa da identificação). O cd do Paralamas do meu irmão (da qual fui acusada, mas até da própria perda perdi a memória). E perco o ônibus praticamente todos os dias. Perdas, perdas, perdas. Inexplicáveis, inaceitáveis, imperdoáveis perdas. Continuo desconfiada de que as coisas é que se perdem de mim.
E para onde foi tudo o que da minha guarda escapou? Quais outros pés os tênis amarelos vestiram? Que outra menina contemplou, desconsolada, um brinco sem par? Que outro leitor se viu dentro do mundo que guardava o Mundo de Sofia? Quais outras vidas os Paralamas embalaram? Eis que a razão da perda está no encontro.
Perdi tão poucas coisas que lembro de cada uma delas com dor. Sou taurina a ponto de manter as gavetas entupidas de mim, por medo de esquecer o que sou. Guardo pedaços do mundo para entregar aos meus filhos. Recolho as perdas dos outros com pesar. Volto três vezes para me conferir. Espio embaixo da cama para me achar.
Porém, entre todas as coisas que nunca perdi, há uma que adoraria esquecer em algum banco de metrô: o medo de perder. A proteção que criei em torno do que é supostamente meu. Perder é mudar, perder é transformar, perder é, acima de tudo, renovar. Tem coisa que a gente perde e parece que não era para perder. Mas era, sim. Quando perdemos, recriamos a perda. Recauchutamos o velho. Renovamos o ar. Quando perdemos, reviramos tudo de cabeça para baixo e, depois, nada volta para o mesmo lugar. Perder o medo de perder queima calorias. Faz sentir mais leve. Alivia o peso nas costas. Equilibra a pressão. Perder o medo de perder faz andar mais longe e enxergar melhor. Perder o medo de perder faz olhar para os lados e ainda por cima aumenta as chances de esbarrar na felicidade (assim mesmo, por acaso). Perder o medo de perder faz a gente andar descalços na areia e correr contra o vento, perdendo apenas o que já não se tem.
Ter coragem para perder faz encontrar o que nem ousávamos procurar. Mas que certamente alguém deixou cair.

terça-feira, 24 de outubro de 2006

ILYA GRINGOLTS, EU, MEU PAI, DEUS E A IMORTALIDADE
Nascido com extraordinário dom musical em São Petersburgo, Rússia, Ilya Gringolts foi o ganhador do Prêmio Internacional de Violino "Premio Paganini" em 1998, aos 16 anos de idade. Gringolts venceu também dois prêmios especiais entregues na final da competição para o mais jovem competidor e para o melhor intérprete de Caprices. Ele estudou violino e composição na St. Petersburg Special Music School com Tatiana Liberova e Jeanna Matalldi; na Juilliard School, em Nova Iorque, com Itzhak Perlman e a falecida Dorothy Delay. Gringolts também figurou entre os doze jovens artistas selecionados pela BBC para o Programa Artistas da Nova Geração.

Eu e meu pai assistimos, em homenagem ao seu aniversário, ao concerto do violinista Ilya Gringolts, um "rapazote" de 24 anos, que me levou (eu e uma centena de pessoas) às lágrimas, na noite de ontem.
Confesso que entendo pouco ou quase nada de música clássica, mal dedilho o teclado do computador e as minhas escolhas são todas feitas pela emoção. Amo música clássica e o amor me basta, enquanto não desenvolvo um conhecimento mais consistente.
Entretanto, aos primeiros sons daquele violino... Minha alma fechou meus olhos para poder enxergar melhor tamanha beleza.
Quando escuto música clássica, não consigo desligar o pensamento de uma coisa: como pode?
Como pode uma perfeição tão absurda e quase dolorosa?
Como pode um cérebro criar o que nem a alma consegue alcançar?
O que acontecia na cabeça destes homens? No coração destes homens? Na genética? No espírito? Na vida destes seres que desafiavam a própria Natureza?
A Natureza, sim, a Natureza.
Bach, Mozart, Chopin, Beethoven, Strauss, Wagner, Tchaikovsky...
Albinoni, Haydn, Liszt, Offenbach, Verdi, Mendelssohn, Villa-Lobos...
De onde saíram essas criaturas? De onde vieram? Para onde foram?
Não duvido que estejam todos sentados não somente à direita, mas por todos os lados de Deus.
E conversam sobre as pequenas e as grandes coisas do mundo.
E conversam sobre a existência.
(Assim como converso com meu pai, durante os intervalos do espetáculo)
E Deus os observa e sorri, muito satisfeito. Pois Deus negou a imortalidade ao homem. Mas o homem a criou. Em forma de arte.
Deus deve ter muito que aprender...

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

O AMOR COMO É
Quando tu encontra o amor, o amor mesmo, o de verdade, o que é teu e estava guardado, o que não tem erro nem acerto (tem média de sobra pra passar), aquele amor que ninguém teve coragem de te contar que existe, que tu descobriu nos filmes bobos, sonhou nos livros fracos, embalou nas músicas bregas, o amor que chega pisando forte, retumbando por dentro, o amor que te joga pra cima e tu parece que nunca mais vai acabar de cair, o amor que dá choque, que tu acha graça, o amor que te deixa esperando 1 minuto 47 segundos 8 milésimos cinco carros vermelhos três carros com placa final 3 e duas pessoas de blusa roxa, o amor que te inspira a mudar a cor do cabelo, o amor que nunca vai deixar de usar a blusa que tu odeia, o amor que tatua teu nome no coração, o amor que levanta a tua bandeira, o amor que adota teu candidato, que vota em ti, o amor que adora mar, o amor que volta e meia tenta parar de fumar, o amor que que faz só pra te provocar, o amor que provoca só pra se fazer, o amor que poderia ser hippie senão fosse tão chique, o amor que faz nhoque domingo e milk-shake dia 29, o amor que pensa que o P da TPM é PRÉ e não PERMANENTE (ora essa!), o amor que tem pena de cachorro e não muita de gente, o amor que é louco de ciúme e esquece de te ler, o amor que de longe te cuida, de perto te aninha, por perto te sabe, o amor que toca, que pega, que aperta, que agarra, que pensa que tu nem é de verdade, o amor que tem cheiro de banho com sabonete Natura, o amor que usa o Cat Stevens pra romanticamente te chamar de cabeça-dura, o amor que conhece tudo de um mundo que tu nem sonhava, o amor que sonha o mundopra ti morar, o amor que fala mansinho quando quer xingar, o amor que ri das próprias espinhas, que foge das tuas alucinações, o amor que não entende teus compromissos, o amor que não aceita tuas desculpas, que retruca todas as culpas, que devolve em dobro os chamegos, que cobra em triplo os beijos, o amor que não cabe em lugar nenhum, nem no texto nem no peito, e agora entra aquela música de fundo que tu e teu amor adoram, aquela que só os dois sabem, que foi testemunha dos momentos que só os dois viram, que só os dois sentiram, que só os dois viveram (como tudo até agora, aliás), quando tu encontra o amor, esse amor, aí, meu amor, o mundo é teu.

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

NAFTALINA
Que loucura essas eleições. No Brasil, Maluf, Collor, Clodovil.
Nos pampas, Aí, beleza?, Homem do Tempo e Mano Changes.
Isso mesmo: Changes.
O que foi isso? Protesto? Inovação? Alucinação?
Não sei se tenho capacidade suficiente para compreender. Ao mesmo tempo em que o povo inovou elegendo candidatos pra lá de exóticos, trouxe de volta uns e outros que, pelo amor de Deus, já deram muito mais do que tinham que dar. Pelo menos, toda essa ousadia na hora do voto proporcionou segundo turno aqui e em Brasília.
Olha, como dizem meus conterrâneos, não tá morto quem peleia.
E aviso aos navegantes: mulher também peleia. Ô, se peleia.
Enquanto isso a vida segue. Coração sobressaltado, unhas roídas e uma dúvida que não deixa de beliscar a alma: tanta ânsia por quê? Detesto desconfiar que para nada.
De um lado, o óbvio, o filme reprisado, a ladainha que todos já sabem de cor. De outro, a novidade que vem com um suspeito cheirinho de naftalina. Mas, com sorte, não passará de um cheirinho. Quem sabe a naftalina não esconde alguns planos e sonhos bem conservados e muito apropriados?
Mais um ditado, não do Sul, mas da Humanidade inteira: a esperança é a última que morre.

arquivos setembro 2006

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

CONTAGEM REGRESSIVA
Última semana, momentos decisivos, pura tensão. Tensão, sim, mas não por ansiedade em eleger ou não meus candidatos. Eu não tenho candidatos. Últimas semanas, momentos decisivos e eu ainda não sei em quem votar. Sei em quem NÃO votar, mas hoje, isso já não facilita em nada, pois as alternativas formam um páreo duro.
Essas eleições estão estranhas e surpreendentes. As ruas estão relativamente calmas, relativamente limpas, relativamente respiráveis. Os carros quase não carregam adesivos... Ninguém mais se arrisca, ninguém mais dá a cara à tapa para defender um fulano que amanhã pode - e vai - ser motivo de arrependimento e vergonha. Nada de bandeiras, camisetas e broches no peito. O voto nunca foi tão obrigatório. A política nunca foi tão feia. O sonho nunca foi tão pisoteado.
Sem maiores críticas para esse e aquele lado, o que penso é que, ao menos, o povo está unido; na tristeza e na desesperança, mas está unido; na raiva por toda essa sujeira vigente, mas está unido; na sensação de fim da linha, mas está unido. Esse momento derradeiro não pode ser de todo mau. Algo TEM que estar para acontecer. E a mudança tem que vir do povo, pois dos políticos, já está óbvio que não vêm. Eles não mudarão em relação a nós. A saída só pode ser uma: nós mudarmos em relação a eles.
Cobrar, cobrar, cobrar. Não podemos ser meras vítimas, meras conseqüências, meros resultados de tudo o que acontece lá em cima. O povo tem que atuar. O povo elege; o povo cobra de quem elegeu. É simples e óbvio. E não tão difícil de fazer. Vote em quem você conhece, em quem você tem contato, em quem você sabe onde encontrar. É o mínimo que podemos fazer: acompanhar de perto.
A mudança começa no primeiro passo.
Ótimo site divulgado pela Zero Hora: POLÍTICOS DO BRASIL. Lá tem um pouquinho de cada um. Vale a pena conferir.
E boa sorte para todos nós! Boa sorte para o Brasil!

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Quando sozinha, vem a vontade de escrever. É todo mundo sair, é o silêncio entrar pelo cano do ar condicionado - acompanhado pelo barulho do próprio ar condicionado, é o Universo encarnar na minha alma, que automaticamente abro o Word e fico desafiando a folha em branco enquanto a folha em branco disfarça.
Será que escrever é não sentir solidão? Será que solidão é fruto do silêncio? Será que o silêncio faz escutar o interior? Será que o interior quer ser escrito?
O que sei é que umas poucas linhas já acalmam o desvario.

arquivos agosto 2005

quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Qual o problema de amar?
Tem gente que tem vergonha de amar. Que esconde. Que quando alguém chega perto, disfarça a voz de neném, separa do beijo molhado, devolve as mãos para o bolso. Em compensaçõ, tem gente que não tem vergonha de exalar grosseria, de gritar preconceito, de disseminar humilhação. Tem gente que acha bonito a distância. Tem gente que acha chique separar.
Mas qual é mesmo o problema de amar?
Em algum momento definiu-se que amar não é legal. Que amar demonstra fraqueza, que amar, assim, em público, para todo mundo ver, é praticamente bancar o palhaço. Tem gente que acha o amor uma dor de cabeça, algo a ser resolvido, superado, transposto. Um engodo. Tem gente que chega a evitar o amor, para se "preservar". Que coisa. Hoje em dia, o que parece, é que amar é brega. Amar é brega?
Depende.
Amar escandalosamente, amar de corpo em corpo, amar a Deus dará é muito cool. Porque nosso mundo é feito de extremos. Se o caso é amar, tem que amar com desespero, tem que fazer da vida uma maratona amorosa, tem que deixar rolar tudo o que tiver que rolar. Aí sim, o amor é fashion. Aí sim, o povo vai, além de aplaudir, imitar.
Então esse é o problema de amar! Amor comum, amor de brilhar os olhos, amor de rir à toa, amor de falar bobo... Não tem graça. Não é notícia. Não move o mundo.
Amor faz toda a gente ser gentil e para que serve a gentileza em uma sociedade dura? Em uma sociedade onde vence quem tem menos escrúpulos? Quem pisa nos outros com mais desenvoltura e menos piedade? Pisa e ops... Nem vi! Pisa e ops... Já era. Amar, todo mundo ama.
Só que cada um escolhe a maneira de amar. Amar pode ser feio, sim. Tem gente que ama de um jeito que seria melhor até nem amar. Tem gente que ama doído, amargo, cruel. Tem gente que confunde amar com odiar. Tem gente que nunca foi amado e acaba achando que qualquer porcaria que fizer já está de bom tamanho. Só que não está.
Tem que amar direito.
Tem que pegar o amor que sente e transformá-lo. Porque o amor é moldável. O amor é uma massinha de modelar. Dá para pegar o amor de dentro do peito e transformar em um bom-dia, em um agradável ambiente de trabalho, em uma visita aos amigos, em mais amigos, em um favor a alguém que precisa, em um cumprimento na rua, em um "pode passar" para o outro motorista, em um afago na família, em uma história engraçada, em um consolo, um conselho, um elogio, em uma palavra de incentivo, em um ato humanitário, em um voto consciente, em defesa dos direitos de todos sem levar em conta os interesses individuais, em boa vontade para ajudar, em consciência, em bondade, em bem-querer, em um dia maravilhoso, em uma alegria constante, em beijos longos e ardentes, em filhos cidadãos e boa gente, em um abraço gigante que alcance o mundo e a vida e a própria existência.
O amor não tem problema, não. O problema é não amar.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

ERA VIDRO E SE QUEBROU
Paro para uma música e o tempo passa. Paro para um pôr-do-sol e o tempo passa. Paro para um capítulo da novela e o tempo passa. Paro para um domingo e o tempo corre. Paro para beijos e o tempo nos envolve e leva, pois não há tempo para beijos. O amor não cabe mais em tempo algum.
E quando me encontro com o espelho sou como um golfinho e os cientistas são capazes de jurar que posso me reconhecer, mas não me reconheço nunca. Apenas me surpreendo com as inegáveis semelhanças.
Quem dera ser ela do espelho e ser nova a cada encontro. Eu sei que sou a mesma sempre; sempre um pouco mais velha, um pouco mais no tempo do próprio tempo. Enquanto ela... Surge e desaparece como um reflexo do sol.
Ela se renova; eu me procuro. O vidro é capaz de quebrar.
O tempo escorre como água pelas minhas mãos e tento retê-lo, mas tudo o que toco se desfaz em cheiros de anos atrás. 2006... 26... Parece pouco para quem vai lá adiante, mas a vertigem é a mesma, o tempo é o mesmo e o passado engorda a olhos vistos.
Onde fica o freio? Nunca fui boa nessa coisa de dirigir seja lá o que for.
Minhas mãos vão soltas e sacudindo acima da cabeça e a montanha-russa me toma sem a adrenalina de outras tardes. Não há mais graça em perder o controle. Pare aqui mesmo que eu quero descer. Daqui para frente será só o tempo rasgando a escuridão universal. Não quero ver. Não quero ficar para ver.
E a escrita segue iludindo o ser eterno, mas nem mesmo a escrita agora sou eu. Cada papel é um novo papel e ainda que amarelado, cada leitura é e será sempre uma nova leitura.
Renascendo do próprio fim. Da última palavra. Transbordando do aquário. Recriando o que saiu de mim que sou o tempo e como o tempo, passo.

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

QUASE LETRADA
Vou me formar em Letras este ano. Hoje me bateu a dúvida: o que serei? Quando eu tiver que preencher um cadastro e perguntarem: profissão? O que eu responderei? Professora? Parece óbvio para vocês, não é mesmo? Pois saibam que não é.
Ingressei no curso há quatro anos e meio tendo certeza absoluta de que NÃO QUERO e NÃO VOU ser professora. Todo esse tempo e alguns estágios depois assinaram embaixo da minha decisão. Nada mudou e eu não serei professora. Serei... Sei lá o que serei. Uma Formada em Letras. Uma Estudiosa das Letras. Uma Letrada.
Cursei Letras porque não gosto decididamente de mais nada. Quando era pequena respondia, sempre, à fatídica pergunta: escritora! Quando crescer quero ser escritora! Na minha cabeça, bastava aprender a escrever para ser escritora. Aprendi e não virei. Cursei o Fundamental e não virei. Cursei o Médio e não virei. Bem, arrisquei Letras, porque pelo nome parecia propício. Era a última tentativa e é agora que vamos ver. Incrível a sensação que sinto agora. Continuo sem saber o que serei quando crescer, mas com um agravante: eu já cresci. E estando bem crescidinha, está na mais do que na hora de decidir.
Não sei exatamente o que serei após o fim deste ano que, para a minha vida, é ímpar. Vou me formar em Letras, vou seguir Leitora, vou seguir Letrando. Um pouco aqui e um pouco ali, pinceladas do que vi, ouvi e li nesse período. Pinceladas do que aprendi. Do que senti. Do que cresci. Porque oh sim, eu cresci.
Será um final de ano complicado, estressante, talvez desesperador. Haverá estágio, trabalho de conclusão, diploma na mão e cara pra bater. Haverá momentos de decisão, de indecisão, decisivos. Haverá momentos em que só eu poderei responder por mim. Haverá muita sessão de descarrego neste blog.
Dá um medo maluco pensar em tudo isso, mas como muita gente diria, faz parte, a vida é assim. Enquanto ela não pára a gente também não pára, a gente corre, a gente tenta alcançar. E o medo não trava, ao contrário, empurra, o medo faz a gente nem olhar para baixo antes de se jogar. Vou me formar neste ano. Vão acabar os professores, os trabalhos, os prazos, as cobranças. Vai acabar o resquício de infância que a Universidade carrega com seus colegas, recreios e curtições. Vão acabar os beijinhos no namorado a cada folguinha (pois sim, ele também é um quase Letrado). Serei só eu e o que aprendi. Serei só eu e o que estou pronta para aprender.
Serei só eu, as Letras e o mundo inteiro que o conhecimento coloca aos meus pés.

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Em tempos de centenário, aqui vai o meu quintanar...

SELVA SELVAGGIA
Mario Quintana
As palavras espiam como animais;
Umas, rajadas, sensuais que nem panteras...
Outras escuras, furtivas raposas...
Mas as mais belas palavras estão pousadas nas frondes mais altas, como pássaros...
O poema está parado em meio da clareira
O poema
Caiu
Na armadilha! Debate-se
E ora subdivide-se e entrechoca-se com esferas de vidro colorido,
Ora é uma fórmula algébrica
Ora, como um sexo, palpita... que importa
Que importa qual seja enfim o seu verdadeiro universo?
Ele em breve será inteiramente devorado pelas palavras!

Do livro "Esconderijos do Tempo" Editora Globo, Porto Alegre, 1980.

O COISA RUIM
Mulher de Sardas
Existem palavras e palavras, ilustríssimo senhor Mario Quintana. E eu garanto que nem todas são insinuantes e belos animais felinos. Nem todas são espertas e misteriosas raposas. Nem todas, aliás, quase nenhuma, são aves graciosas a sobrevoarem nossas cabeças.
Eu também garanto, prezado Mario Quintana, aqui, do auge da minha experiência, que nem todas as palavras refletem o perfeito caos das cores e das formas de um caleidoscópio. Nem todas as palavras alcançam a embriagante certeza algébrica. E caro Mario, eu sei o quanto é ridículo ruborizar na minha idade e na minha época, mas, aposto um quindim que nem todas as palavras são capazes de pulsar como um sexo em desejo. Tudo o que sei, mestre, é que existem palavras e palavras. E cabe a mim a dura tarefa de preveni-lo que a maioria delas - sem querer fazer intrigas, é claro - não passa de pequenos demônios sorrateiros, que levam a vida a esconder do homem o que mais lhe é de direito neste mundo: o pensamento.
Ora! O homem pensa pela palavra. Caso essa lhe falte... O que se dá?
Exatamente o que vemos por aí: poetas errando pelo mundo, a vagar pelo árido deserto da falta do que dizer. E por isso eles falam sempre e tanto do amor, da vida e da pátria. Mas cá entre nós, amigo, desses falam muito melhor o beijo, o gozo e o gol.
Pequenos demônios soltos pela selva humana. A humanidade querendo a qualquer custo se explicar, mas e as palavras, onde estão? A humanidade querendo a todo pano se entender, mas e as palavras? O que foi feito das palavras? Ninguém sabe e ninguém viu. Elas se escondem e se divertem com o nosso desespero; elas nos desnorteiam e nos fazem girar feito cataventos em dia de ventania. E às vezes, querido poeta, nós, normais e mortais, até esbarramos nelas, até as sentimos passar rente aos nossos dedos a ponto de causar calafrios e, até, em momentos de súbita e arrebatadora inspiração, as conseguimos capturar! Porém, depois de devidamente agarradas e aprisionadas no branco do papel, quando lhe damos uma forma seja lá de poema, crônica ou romance, quando conseguimos finalmente examiná-las bem de pertinho e então as lemos, relemos, trocamos uma para cá, outra para ali, damos uma ajeitadinha, uma melhoradinha, uma segunda mão de verniz e hum... Não adianta. Elas não passam de filhotes.
As palavras boas mesmo, as gordas que dão bom caldo, as machadianas, as lispectorianas, as guimaranenses... Ah, essas! Essas não se vêem mais por aí, andando de bengalinha pela Rua da Praia, dando sopa como antigamente. Foram todas perdidas nos esconderijos do tempo. Todas guardadas nos espantosos baús dos gênios que não voltam mais. E quem cai na armadilha sou eu, mera aprendiz de feiticeiro, debatendo-me em vãs tentativas de alcançá-las, elas, as palavras todas, o fantástico e demoníaco batalhão das letras, que me encanta e me incita a escrever, escrever e escrever. Mas o que deve te importar esse amontoado de besteiras que profiro? Marinho, Marinho... Com todo o meu respeito, se as palavras não passam de pequenos demônios, é você o coisa ruim em pessoa, aquele que rege o concerto, que manda e desmanda, que faz e desfaz. Lúcifer, Diabo, Satanás.
E quem me dera ter um espelho mágico capaz de refletir em mim tamanha ruindade...

arquivos julho 2006

terça-feira, 25 de julho de 2006

SÍNDROME
Minhas lágrimas descem rasgando a escuridão. É frio, mas elas descem quentes até o fim. Tu me vê chorar e pergunta: o que houve? Eu respondo, corajosamente: é a morte. É o medo de morrer. E tu sorri como quem diz: Ah, é isso. Ah, o mesmo motivo de sempre. Ah, teu mesmo choro de infância. Ah, que graça esse teu medo de morrer.
Sinto raiva do teu jeito de sorrir como se conhecesse o que dói em mim. Sorri como se meu choro fosse absurdo, caprichoso, como se não fizesse sentido o medo de algo que não se pode evitar. Sinto raiva porque não sabe e porque não é a única pessoa que deveria saber. Não deixo de chorar nenhum dia e é tão comum em minha vida que não surpreende, não toca, não faz ninguém sair de si.
Só que agora a náusea me toma. Todos os dias, noite e dia, tenho o estômago embrulhado e tudo o que comi e tudo o que não comi voltam à boca num suco ácido que corrói a garganta e exatamente esse é o gosto das minhas lágrimas. Se algum dia provasse, saberia. O tempo todo o mal-estar me acompanha e para os meus olhos tudo o que vejo já está morto e para o meu nariz tudo o que respiro já apodreceu. Vejo-te no caixão e a náusea irrompe esôfago acima. Estará lá um dia. E eu te seguirei. Mas então deixarei de ser dor e a náusea se desfará em terra.
Se for hoje... Não fará diferença. Vinte e seis anos não me tornaram nada. Até aqui fui medo e lágrimas. Tu, como os outros, cansou, cansou de alguém que chora sem dizer por quê. E eu realmente não sei por que choro. E também realmente não importa. Não sei do que foge a minha vista. Não sei de alma. Não sei de almas que choram. Tudo que sei é um talvez. Um grande e redondo talvez.
Queria vomitar, mas não é náusea de vômito. É náusea para lembrar constantemente que existo e que algo segue apodrecendo dentro de mim. Eu sei que segue. Eu sei que apodrece. E queria saber fazer músicas que as pessoas cantassem para sempre. Cantarolar e vomitar até Sartre sair inteiro e exultante de dentro de mim.
E eu te nego. Nego e negar é provar que tu existe. Não se nega o vazio. Eu te nego porque acreditar em ti fatalmente implicaria em odiá-lo. E qual ser humano suportaria esse peso?

sexta-feira, 21 de julho de 2006

VERMELHO COR-DE-ROSA
I
No dia em que Rosa nasceu, ventava. Era um dia feito de todos os tons possíveis de cinza e caía uma chuva tão fina, mas tão fina que o vento levava e desfazia antes mesmo que ela tocasse o chão. E era um frio tão intenso que as pessoas andavam encolhidas e tesas, quase que desaparecidas dentro de seus casacos. Rosa nasceu muito pequena e, como praticamente todos os recém-nascidos, tão enrugada que mais parecia uma velha em miniatura. No dia em que Rosa nasceu o inverno exibia toda a sua força e ai de quem se atrevesse a desafiá-lo. Sua mãe a cobriu com uma manta de lã vermelha que já era sua há muitos anos, pensando que ela sentia muito frio. E Rosa sentia sim, mas não tanto. Sua consciência do mundo acabara de nascer junto com ela e o frio e o calor eram apenas cócegas no seu inconsciente. Rosa ainda não tinha dúvidas.

II
Mas o tempo fez questão de passar para Rosa. No dia em que ela despertou, tanto para a infinidade de seus pensamentos como para a finidade de sua vida, assustou-se. Lá fora, as cores recém pintadas pela primavera acinzentaram-se uma a uma. Era tão criança ainda e já costumava dizer para sua mãe, no escuro do quarto, com seu pijama de bolinhas vermelhas, deitada e pronta para dormir:
- Mãe, eu não quero morrer. Ao que a mãe sempre respondia, em voz baixa e suave:
- Você não vai morrer, meu amor. Tente dormir um pouquinho, está bem?
E fechava a porta deixando Rosa sozinha e coberta pela escuridão, uma amostra grátis do morrer.
Rosa acabou criando medo da hora de dormir, mas ainda assim dormia, pois era tão criança para evitar. Quando amanhecia, o pai a levava de carro para a escola e enquanto pegava a sua grande mochila vermelha no banco de trás, ela costumava dizer:
- Pai, eu não quero morrer.
Ao que o pai respondia, sorrindo e apressado:
- Não é hora de se preocupar com isso, filha, você já está atrasada para a aula.
E fechava a porta do carro e partia, deixando Rosa em pé, parada, sozinha, no meio de todas as outras crianças, pensando em qual seria a hora certa para se preocupar.
A garota acabou criando medo de sair de casa, mas ainda assim saía, porque era mesmo muito pequena para recusar.
III
Rosa cresceu calada e pensativa, sem saber direito o que queria ser na vida, pois na verdade o que queria era entender a vida. Durante as tardes de outono chuvosas em que ficava em casa com a sua melhor amiga, depois da escola, pintando de vermelho as unhas dos pés uma da outra, enquanto ouviam música brega no rádio, costumava ficar séria de repente e dizer:
- Amiga, eu não quero morrer. Ao que a outra respondia, com a testa franzida e a respiração suspensa:
- Nem eu.
E então olhava para Rosa com iguais olhos de medo, as duas confusas ao pensar que algo muito injusto acontecia no mundo. Rosa sabia que todos morrem, o que não sabia era por que pensava tanto naquilo, ou, na verdade, por que não conseguia parar de pensar naquilo.
Acabou, então, criando medo de pensar, mas ainda assim pensava, pois era jovem demais para se bloquear.

IV
Ao finalmente crescer, Rosa passava muito tempo olhando para trás e pensando que o mesmo tempo tinha passado rápido. Sabia que não era mais uma criança e nem lembrava de um dia ter sido. Quando deitava a cabeça no colo do marido para assistir televisão nos domingos de verão sempre quentes demais para saírem de casa, ela costumava dizer, pensando nos filhos que brincavam ali na rua:
- Amor, eu não quero morrer. Ao que o marido respondia, carinhoso e distraído:
- Mas todo mundo morre, Rosa.
E passava a mão nos cabelos avermelhados da esposa, mal tirando os olhos da televisão, deixando Rosa pensar em como nunca deveria ter dito nada daquilo para ninguém porque ninguém nunca teria nada para lhe dizer.
Ela acabou criando medo de falar, mas falava, porque já era tarde para calar.

V
Rosa, então, envelheceu e passou a sentir mais frio no inverno do que nunca sentira em toda a sua vida. Um dia ela olhou para as mãos tão enrugadas que tricotavam uma manta vermelha para receber a neta que estava por nascer e sorriu, descansada.

segunda-feira, 17 de julho de 2006

A maior prova de que Deus prefere as crianças é que as protegeu da morte. Crianças não conhecem a morte. Crianças não enxergam a morte. Crianças simplesmente não entendem porque tanto e tão profundo sono.

Crianças brincam ao lado do caixão e falam baixo para não incomodar o morto.

sexta-feira, 14 de julho de 2006

- Crônica escrita para o encerramento da Oficina de Crônicas "O Vôo da Palavra", de Walter Galvani, sobre o tema: você deseja seguir escrevendo?

A BENÇÃO
Se eu quero escrever para sempre? Antes fosse uma questão de querer!
Escrever é respirar, é viver, é ser. Escrever é como acordar pela manhã e abrir os olhos: algo inevitável. O tipo de coisa que não dá para fugir. Enquanto existo, escrevo e duvido que esse silogismo perca a lógica tão cedo em minha vida. Escrever é uma realização íntima. Não importa quem lê ou se lê. A escrita é um desabafo, um consolo, um carinho na alma, uma forma de dizer ao mundo ei, estou aqui e faço parte, de alguma maneira. Não quero dizer que aqueles que não escrevem não participam do nosso aqui e agora. Mas quem escreve, normalmente, sente necessidade de afirmar sua existência, de uma forma toda especial. Escrever é uma maneira que parece tímida de colocar o eu para fora. Os escritores, em sua maioria, soam tímidos. Ledo engano. Escrever, em muitos casos, pode ser agressivo, espalhafatoso, violento. Quando escrevo não peço licença, me atiro, me exponho toda para todo mundo ver. Um vício malicioso. Um exibicionismo enrustido. Poucas coisas são tão excitantes quanto receber elogios por um texto. Uau.
Apesar desse caráter tão pessoal, escrever também é um ato de doação. Palavras enfeitam o dia, a alma, as perspectivas. Palavras fazem pensar. Acrescentam cultura. Desfazem enganos. Colocam pulgas atrás das orelhas. Palavras confortam, animam e divertem os leitores. Palavras pegam pelas pernas e derrubam. Palavras confessam o que muita gente tem escondido a ponto de não conter o rubor. Palavras... Palavras são necessárias ao mundo porque o explicam e nós, humanos, somos os reis das explicações. Palavras, definitivamente, têm grande função social.
E além de tudo isso, escrever é fazer História. Por exemplo: uma crônica sobre hoje, conta o passado de amanhã. Ela registra os fatos, os pensamentos, as tendências, as expressões, os estilos, os desejos, os dissabores, os sentimentos em geral. Uma crônica é um documento histórico. Basta ver a carta de Pero Vaz de Caminha sobre o "descobrimento" do Brasil. Está tudo lá, de uma forma espontânea e sincera, para o rei e todo mundo ler. Às vezes, você acha que está fazendo um textinho à toa, mas na verdade está eternizando uma cena, tal qual uma pintura, uma arte maior. E se bobear, nessa brincadeira de escrever, acaba eternizando a si mesmo. Respondam como eu poderia, então, não desejar escrever para sempre? Muito mais do que ego, solidariedade ou altas pretensões humanitárias, escrever é coisa que vem direto do coração e nada mais importante do que o coração. Enquanto existirem pessoas que escrevem, o calor estará garantido, as emoções estarão bem cuidadas, os sonhos estarão preservados. A escrita proporciona encontros memoráveis do escritor com ele mesmo, um contato raro, porém fundamental em nossos dias. E gostar de escrever proporciona encontros fantásticos como esta oficina, mais raro ainda e de caráter único, do tipo que dificilmente se repete, que está traçado no destino de determinadas pessoas, especiais, escritoras, abençoadas.
Como eu iria querer ficar fora dessa?

terça-feira, 11 de julho de 2006

A PINTURA
Ao som de Marisa Monte...

Vilarejo
Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão
Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraíso se mudou para lá
Por cima das casas, cal
Frutos em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar
Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção
Tem um verdadeiro amor
Para quando você for

Há uma música só em meus ouvidos, mas o mundo inteiro dança ao seu ritmo. As pessoas caminham embaladas, os carros piscam ensaiados, os cães me fitam como em um filme e até a brisa toca meus cabelos na hora perfeita. É tão bonito o mundo! Não há dor nem solidão; não há morte nem infinito. Apenas o mundo girando ao som da música e à volta de mim. E quem poderia dizer que tudo não combina? Eu e essa rua. Eu e esse frio. Eu e esse banco solitário no meio de tudo. Eu e essa música em meus ouvidos que toca só para o meu coração.
Não há medo da morte agora. Eu e o mundo somos uma pintura. Algum Van Gogh moderno nos eternizou com pinceladas vigorosas e cores um pouco mais cinzentas que as originais. Ele trabalhou duro. As gotas de seu suor nos lavam e eu choro por fazer parte de tamanha beleza.
Eu e o mundo gravados para sempre. Estáticos ao som da música. Emoldurados pelo amor.

sexta-feira, 7 de julho de 2006

EPOPÉIA DIÁRIA
Para escrever uma crônica basta falar da vida. Já diz o nome, crônica: tempo, horas, minutos, segundos, vida. E existe assunto mais importante, intenso e imenso do que vida? Tão imenso que parece nem caber na crônica. Parece que seria preciso um livro inteiro, um romance completo, uma epopéia daquelas de antigamente, daquelas que já nem se fazem mais, talvez por falta de... Tempo.
Mas a vida cabe sim, em uma crônica. É claro que cabe. Uma crônica é espaço suficiente para muita coisa, para um dia inteiro e, muitas vezes, um dia inteiro é uma vida. Tem espaço de sobra em uma crônica para o autor contar uma história emocionante. E tem espaço de sobra para o leitor se emocionar. Tem espaço de sobra para o autor desabafar, reclamar, incomodar ou comemorar. E tem espaço de sobra para o leitor compreender, concordar, discordar, botar de lado ou simplesmente sorrir.
A crônica costuma ser assim, curtinha, rapidinha, facinha de ler, da mesma forma que é o tempo do mundo, hoje. As pessoas não têm como parar tudo e ler a tal da epopéia. Então, lêem uma crônica a cada dia. E ela se presta muito bem para o papel que lhe cabe: a crônica cada dia é outra, é nova, é vida. A crônica cada dia é uma novidade, assim como o próprio dia de quem escreve; assim como a própria folha em branco que se abre toda para recebê-la; assim como os olhos de quem lê, que nunca são os mesmos, pois cada momento de leitura é diferente e jamais se repete, nem com a mesma crônica.
A velocidade da vida fatalmente, em algum momento, fará todo mundo perder o controle. No ritmo que a humanidade vai, as pessoas nunca saberão quem realmente são. A vertigem do viver impede que cada um se conheça. Não há tempo. Não há vontade. Não há interesse. A verdade própria interessa tanto quanto os outros interessam: nada ou quase nada e, além do mais, todo mundo sempre tem algo mais importante para fazer do que prestar atenção no seu próprio existir. Para conhecer a si mesmo, só sendo empurrado por um acontecimento drástico - daqueles que fazem repensar a vida inteira - ou induzido, sutil e deliciosamente, por belas e sedutoras palavras.
Para isso existe a crônica. Todos os dias um pouquinho do mundo para o mundo ler. Parece que ela nem entra direito na cabeça e nem é assimilada pela alma, de tão rápida que é. A crônica costuma pegar o povo desprevenido. Folheada no jornal de domingo, uma crônica. Espiada no site preferido, outra crônica. Olhadinha na revista do dentista, mais uma. E assim, quando menos se espera, ela vai se infiltrando e influenciando as pessoas, no mesmo ritmo da vida, contando a vida, registrando a vida, guardando a vida bem guardadinha para aquelas pessoas que não tem tempo de viver.
E aquelas que alegam não ter tempo para ler, ou não querem, ou não gostam, de repente se deparam com a primeira frase da crônica e ela é tão boa, e ela fala tão exatamente do que acabou de acontecer, e ela tem tanto a ver com o que estão passando, que não custa continuar a segunda linha e a terceira e quando, se dão conta, a crônica está toda lida, toda entendida, toda consumida e foi tão bom que dá vontade de ler mais uminha, só para confirmar se é realmente verdade que a crônica é o texto dos nossos tempos, dos nossos dias, da nossa vida.

segunda-feira, 3 de julho de 2006

BOM DE FAZER
Nesta vida, o que eu gosto mesmo de fazer é namorar. Não tem coisa melhor. Estudar é bom, trabalhar é bom, comer chocolate é muito bom, mas namorar... Não tem nada igual.
Existe um monte de coisas boas para fazer no mundo, mas a verdade é que qualquer uma delas, quando feita com amor, fica muito melhor. E se qualquer coisa feita com amor é boa, imaginem namorar, que é o amor em pessoa? Acompanhem o seguinte raciocínio: Assistir partida da Seleção é bom; assistir partida da Seleção com o namorado, embaixo das cobertas e tomando chocolate-quente é muito melhor (e perder nem dói tanto assim...). Passear na Redenção em domingo de sol é bom; passear na Redenção em domingo de sol com o namorado, de mãozinhas dadas e comendo pipoca doce é muito melhor. Escrever um belo texto é bom; escrever um belo texto, mostrar para o namorado e ele dizer que nunca leu nada tão perfeito na vida e que você é a melhor escritora do universo é muito melhor. Conseguiram captar a lógica da coisa?
Gosto de falar de amor. Sei que corro o risco de me tornar piegas, brega, clichê e tudo mais, mas o que eu posso fazer, o amor faz parte da minha vida, é uma constante, de uma forma ou de outra estou sempre à volta dele. Agora mesmo, deslizo o mouse sobre um pad - e não um chaveiro - escrito love e fico sem armas para negar o dito cujo.
Amar é bom e isso é tudo o que posso falar em defesa do amor. Amar machuca, às vezes; dói, às vezes; quebra as pernas, decepciona, maltrata, xinga e joga na parede, às vezes; mas é bom, é muito bom, ninguém consegue dizer que não é. Eu acho mesmo que o amor existe para fazer da gente tudo aquilo que a gente sonha ser. Se quiser ser o mais bonito, o amor faz. Se quiser ser o mais importante, o amor faz. Se quiser ser o único, quando é amor de verdade, faz. Ah, se faz.
Quando amamos, o que importa se chove? Se engarrafa? Se tem fila? Se acabam os ingressos para o filme bem na nossa vez? Com o amor ao lado se protege, se acalma, se espera, se inventa um novo programa. Quando o amor está em campo não tem pra ninguém.
Porque amor é bom, ora bolas, e só é amor se for bom. Amor dói de tão bom. Amor aperta o coração e deixa bem pequenininho assim que vira a esquina, de tanta saudade que deixa. Amor tem os lábios sempre quentinhos, as mãos sempre quentinhas, o colo sempre quentinho para fazer de ninho durante o inverno. Amor tem uma pele macia que desliza de um jeito gostoso... Amor olha lá dentro e arrepia a alma. Amor pede de um jeito que não dá para não fazer. Amor faz de um jeito que não dá para não pedir (Mais uma vez. E mais uma. E outra.). Amor, quando diz que vai vir, quase não é possível ficar esperando. Amor, quando diz que vai sair, quase enfarta.
Existe realmente muita coisa boa para fazer na vida, principalmente porque viver, por si só, já é muito bom. Mas tudo o que se pode fazer com amor dá para multiplicar por um milhão o prazer. Escrever uma crônica, por exemplo. Para quem gosta, é uma delícia. Para quem pode, é um trabalho delicioso e ainda por cima remunerado. E para quem faz por pura conta e risco do amor, o deleite é imaginar o sorriso deliciado de quem lê.

arquivos junho 2006

segunda-feira, 26 de junho de 2006

AS CAVERNAS
O mundo inteiro respira o ar do medo. De medo, nos embebedamos. Com medo, fazemos amor e dormimos. E o mundo inteiro parece mais unido com o medo como laço. Ah, meus irmãos judeus, meus irmãos amarelos, meus irmãos qualquer-cor, temos o medo como pai. Enfim, somos todos iguais.
É quase meia-noite em todas as nações. É quase meia-noite em todos os corações. Por esse mundo, Osamas têm cavernas úmidas e, de lá, com corações sólidos e preces subterrâneas, tecem futuros escombros, futuras saudades, futuros rios rubros em nome da ilusão. A ignorância move esse mundo! Não fiquemos surpresos. A ignorância sempre guiou o mundo e até mesmo a razão. Fomos todos gerados pela ignorância. Essa mãe velha e gorda.
Nessa terra de palmeiras já escassas, homens em brutas jaulas criam o terror. Homens em brutas jaulas têm muitos ouvidos. E esses ouvidos escutam e são cegos fiéis. Mas há muito silêncio em São Paulo. Tem muito silêncio nesse mundo. Há uma descrença apocalíptica e um medo terrível dos segundos. Somos todos tão iguais. Somos todos homem-bomba. E com o medo e a ignorância como herança, ditamos nossos dias. E tu, não esqueças, também és um terrorista. Tu és o maior sabotador dos teus caminhos.

* Texto escrito pelo Homem da Mulher de Sardas *

quarta-feira, 14 de junho de 2006

ANTITORCIDA ORGANIZADA
Gosto de futebol tanto quanto de outros esportes: praticamente nada. Não entendo a razão de tanto grito, tanta torcida, tanta devoção, como se um jogo fosse mudar alguma coisa, seja na vida particular, seja no Universo. Copa do Mundo não faz o menor sentido para mim. Inclusive, prefiro as Olimpíadas. Além de unir todas as nações, ainda une todos os esportes. E aí, sim, a festa faz algum sentido.
Em dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo, eu cumpro um ritual que é só meu: arrumo coisa melhor para fazer. E para fazer sozinha, pois é óbvio que mais ninguém do meu círculo de relacionamentos partilha da mesma posição. E ainda por cima bradam aos quatro ventos que o futebol é mania nacional! Isso mexe profundamente com os meus brios. Afinal, tenho manias muito mais interessantes do que ficar assistindo aquele bando de garotos riquinhos que não fazem nem a obrigação. Ora, por um salário infinitamente menor eu entro em campo oito horas por dia, todos os dias, na raça e sem amarelar.
Imagino que deixei evidente a minha antitorcida pela Seleção Brasileira ontem à tarde. Só gostaria de acrescentar que não é birra, não. É pura falta de vontade. Hoje em dia o futebol tem um quê de eleição para mim. Sempre a mesma coisa, sempre os mesmos interesses, sempre o mesmo discursinho barato. Se o Ronaldo está gordo, se o Lula bebeu, pouco me importa, não dá mais nenhum tesão acompanhar esse tipo de notícia. A mídia já obteve de mim a cota máxima de burrice. Meu cérebro está tão debilitado que nem essas informações vazias ele computa mais.
Mas não quero deixar ao mundo uma imagem antipatriota da minha pessoa. Sou uma chata, não uma pária. Tenho lá meu orgulho ufanista. Tenho sonhos para a minha nação. É sério. Gostaria, do fundo do meu coração, que o povo brasileiro usasse esse exuberante verde-e-amarelo todos os dias, especialmente no próximo mês de outubro. Gostaria que o povo brasileiro fosse brasileiro assim: até a alma, o tempo todo, em qualquer lugar. Gostaria que o povo brasileiro fosse furiosamente exigente não só com juizes e jogadores (nem somos nós que pagamos por aquilo tudo! O salto alto que patrocinamos está em campo aqui em Brasília e não na longínqua Alemanha). Gostaria que o povo brasileiro fosse mesmo do jeito que mostram nos comerciais: sempre abraçado, sempre cantando, sempre amando como se não existissem torcidas organizadas rivais, PCC, corrupção, desemprego, miséria, bandalheira e o diabo a quatro. Gostaria que o povo brasileiro se unisse diante de muitas outras situações, não só de quatro em quatro anos, não só ao redor da TV.
Não tenho mais estômago para esse tipo de programa. Quero saber um pouco de pão, porque de circo, já estou até aqui.

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Saudade é assim mesmo
Uma coisa estranha de sentir
Saudade daqui dali
Saudade de lá
E de dentro
Vem saudade de repente
De gente que nem se sabe mais
Gente que morou na infância
E se perdeu no mundo
Vem saudade atropelando
Tudo que há
Saudade do amor que acabou de sair
Mas qualquer demora é longa para esperar
Dá saudade da gente
Da gente mesmo
Que às vezes a gente esquece
E sabe lá Deus por onde esquece
E fica tão difícil voltar para buscar
Tão difícil achar
Ainda mais difícil trazer de volta
Porque tem dias que a gente vai
E não quer voltar
Não quer mesmo
Nem que paguem.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

- Texto reescrito para a oficina de crônicas do Walter Galvani, da qual participo.

VÔO HOMEOPÁTICO
O que é isso que acontece em nosso interior? O que é isso que nos conduz, move, impele a viver feito loucos, conscientes da finitude de ser; inconscientes da ilimitude do ser? Dentro de nós, um labirinto de portas. Portas abertas e portas fechadas. Portas entreabertas e portas mal fechadas. Ao redor, o caos organizado do mundo, onde tudo se explica, tudo se encadeia, tudo se enquadra no conceito de ação-reação. Pois há ações, dentro de nós, que não correspondem a nada. Que se perdem, sorvem, fundem em nossas entranhas.
O que desprende um sentimento incrustado? O que liberta um trauma arraigado? O que cura as feridas da alma? Um livro, um filme, uma música, uma pintura muda e palpável, ali, à frente de nossos olhos, expondo concretamente, nós. Nada mais nada menos que nós.
A arte alivia o ser. E não que seja esse seu objetivo. É, antes, sua conseqüência. Ao "fazer" arte, caçamos em nosso labirinto aquela coisa amorfa que não sabemos definir, que muitas vezes machuca, corrói, dói, laçamos e arremessamos para fora. Não para nos livrarmos dela. Não, jamais nos livraremos dela. O que tentamos, em desespero, é enxergá-la cara a cara, ao menos uma vez. Só pra saber como ela é. Só para podermos possuí-la novamente, então com o aval do mundo. A arte não ultrapassa o homem; o homem resiste na arte. Pois nada mais eterno que a dor solidificada.
Procuramos a arte da maneira que podemos. Da maneira que nos consideramos aptos. E o encontro é inevitável, pois a arte é inerente ao homem. Pode ser um encontro passivo e silencioso, expresso simplesmente em uma boa leitura, em uma interessante exposição, em uma improvável escultura bem no meio da praça. Algumas pessoas encontram sossego em observar a arte, sem nunca tocá-la. Outros, porém, mais atrevidos, desprovidos de pudor, querem mais do que tocá-la, querem despi-la, sugá-la, explorá-la de qualquer maneira, da maneira que der, com tatos e olfatos, com penas e tintas, com cores e pincéis, ansiando alcançar o desassossego divino dos que pensam, a insana paz dos que criam, o misterioso ingrediente terapêutico e curador disfarçado em um curso de pintura em vidro, em uma aula de tuba, em uma oficina de crônicas.
Participo da oficina de crônicas do Walter Galvani para curar alguma coisa aqui dentro que pinica, coça, arde e que até dói, mas que médico nenhum diagnostica ou trata, pois só algumas gotinhas de essência de asa de gaivota, toda quarta-feira, podem curar.

arquivos maio 2006

segunda-feira, 29 de maio de 2006

A RECRIAÇÃO DO MUNDO
Para o amor que recriou meu mundo,
Minha boca e minha maçã, Caio.

E quando a última estrela se apagou no céu e fez do Universo uma mancha preta sem início nem fim nem centro, ela assustou-se. O nada a engolia e mesmo não sendo nada, era alguma coisa, pois era o primórdio e o derradeiro, o vazio e o absoluto.
Suspirou profundamente. Tanto que o nada tremeu. O seu suspiro, que já fora quase nada em meio ao tumulto do tudo, agora trovejava e foi um tremor tão forte que fez o nada sacudir.
Sentia medo, sentia frio. O nada era assim, desagradável, pouco confortável, nada, nada amistoso. Estar no nada e sozinha era a última coisa que queria, a última coisa que esperava.
Estar no nada diante de uma vida para viver era o nada dentro do nada e não havia ninguém para se voltar em desespero.
Deitou no nada em que o tudo se transformou e não precisou fechar os olhos porque mesmo mantendo os olhos bem abertos o que via era o nada puro e não aquele que costumava manipular com o selar de suas pálpebras.
Experimentou tocar seu corpo. Já não tinha certeza de sua existência, já não tinha certeza de seu ser. O mundo se transformara em nada e quem sabe não era ela mesma uma espécie de nada, uma espécie que poderia tocar a si mesma.
Poderia mesmo. Tocou os cabelos, nariz e seios. Tocou barriga, pernas e dedos dos pés. Tocou dentro. Tocou a pele sobre o coração e sentiu-o bater.
Escutou-o bater. Forte. Alto. Mais forte e mais alto que o nada.
Seu coração não era o nada, mas bem que poderia ser. Já que o tudo foi engolido, por que não o seu coração? De que lhe adiantava conservar um coração vivo e pulsante no meio de todo aquele imenso nada? Abraçou os joelhos com os braços e apertou-os bem forte. Enfiou, de algum jeito, a cabeça entre eles, tão enfiadinha a ponto de praticamente sucumbir. Sentiu seu hálito esquentando o peito. Ar quente e úmido. Encolheu-se mais e mais até quase sumir. Seus ossos doíam, mas ela não parava, queria consumir-se, desintegrar-se, diluir-se em nada e perder a consciência, pois a consciência do nada é que faz o nada existir.
Permaneceu assim por muito tempo. O tempo, no nada, dobra de tempo. E não passa nunca. Como manter a noção do tempo diante do nada? Eis que o tempo também se torna nada.

Mas ocorre que o nada, apesar de nada, é vivo, existe. Guarda em suas entranhas um resquício de algo inexplicável, algo que inexplicavelmente pode pulsar. Ela estranhou aquele pulsar, pois não era o pulsar descontrolado que soava em seu peito e que não a deixava em momento algum do tempo se desligar do nada. Era um pulsar suave e gostoso, um abrir e fechar, um mexer cadenciado e úmido, que só no silêncio absoluto podia ser percebido, que fez com que ela se movesse um pouco, bem pouco, apenas o suficiente para espiar um pedacinho do nada e ver o que diabos estava acontecendo por ali.
Só que o seu pouquinho foi tão pouquinho que tudo o que ela conseguiu enxergar foi uma espécie de boca (boca?). Uma boca bem vermelha, tão vermelha que se destacava no meio do nada (boca no meio do nada?). E era carnuda. Deliciosamente carnuda. Movia-se num ritmo macio que dava gosto de ver e de tanto gosto ela moveu-se mais um pouquinho para tentar enxergar ainda melhor. Abriu bem os dois olhos e esticou o pescoço. A boca parecia que dizia algo. E ela queria ouvir. Prestou atenção. A boca parecia dizer Camila, mas só parecia, não dava pra ter certeza, estando assim, tão longe.
Camila então espichou um braço. Mexeu os dedos, um por um. Estavam tão dormentes, seu corpo todo estava tão dormente, que ela quase desistiu de continuar. Mas sua curiosidade foi maior que a dormência de todos os seus outros sentidos e ela não resistiu. Respirou fundo e mexeu o outro braço. Apoiou-se e ficou olhando praquela boca vermelha, linda, que parecia dizer seu nome sem parar. Era mesmo só uma boca, uma boca vermelha no meio do nada escuro, e era tão bom olhar praquela boca que ficou pensando se era bom também beijar.
E Camila não agüentou muito tempo. E o tempo agora misteriosamente corria no mesmo ritmo do tresloucado bater do seu coração.
(TUM TUM TUM Chegou pertinho da boca. TUM TUM TUM Olhou fixamente pra ela. TUM TUM TUM Sim, ela dizia seu nome. TUM TUM TUM Baixinho, bem baixinho. TUM TUM TUM Um sussurrar sensual. TUM TUM TUM Que boca mais gostosa. TUM TUM TUM Que vontade de beijar.)
Camila, num impulso, empurrada por aquele bater alucinado dentro de si que já não tinha mais controle; intimada por aquele chamar incessante de seu nome, "Camila!", TOCOU a boca. E ela era mesmo tão deliciosa quanto parecia. Tocou com um dedo, com dois, com todos. Não agüentou, não pode controlar, BEIJOU. Mordeu. Lambeu. Chupou. Beijou de novo. E de novo. Um beijar sem fim. Um beijar eterno. Um beijar sem vontade de parar de tão bom que estava beijar. E Camila beijou tanto e tão profundamente que quando abriu um olho, só um, deslumbrou-se. Havia um rosto naquela boca, com olhos que olhavam diretamente na sua alma e um sorriso que tocava diretamente a sua alma, pois, de repente, tinha alma.

Camila assustou-se, deu um passo para trás. Cambaleou, lívida e apaixonada. Seu corpo todo se arrepiou, se eletrizou, pediu de volta aquele outro corpo, aquele calor, aquela coisa que não dava pra entender, mas que era boa, muito boa, que era algo além do nada, que invadia o nada, que enchia o nada de tudo, que era o tudo em forma de homem, um único homem, o homem da sua vida.
Pulou de volta praquele beijo, praquele abraço, praquele cheiro, praquela pele que era feita da sua pele, continuação sua, pedaço dela mesma que em algum momento lhe foi tirado, mas que agora voltava definitivamente para si, porque o lugar dele era mesmo ali e qualquer outro seria novamente o nada.
E assim EU e TU, ao contrário da célula que nasce e se desdobra em várias até criar uma forma inteira, que se multiplica sem parar por todos os espaços que houver ao redor; nos fundimos e nos tornamos UM, apenas um, sem começo nem fim, sem saber qual é qual, ocupando um único lugar no espaço (sim, é possível), matéria pulsante de vida, a essência inicial que torna o existir possível, o sopro: NÓS.
O NÓS que recriou a luz e rasgou o escuro, que recriou o verde que cobriu o chão, que recriou o azul que inundou os vãos, que recriou a Natureza toda que rapidamente renascia daquela força, daquela vida, daquele AMOR, daquele beijar eterno que não acabava porque simplesmente não conhecia motivo algum para acabar. (E essa é a história da REcriação do mundo, pois a da criação já estão todos carecas de conhecer, e de delícias, naquela, só mesmo a maçã).

FIM

segunda-feira, 15 de maio de 2006

O DIA D
Fazer aniversário é um misto de sentimentos. Um tanto de dor e delícia, outro tanto de desilusão e esperança. A vontade de comemorar o ano que começa é imensa, mas a sensação de perda pelo que termina é inevitável. Porque o tempo não volta. O tempo passa sem nunca, nunquinha parar de passar e quem aproveitou, aproveitou. Quem não aproveitou...
Mas o que é aproveitar o tempo?
Não sei. Ou melhor: sei, para mim. Para os outros... Ora, cada um sabe do seu tempo. Aproveitar o tempo, para mim, é deitar no sofá enrolada no edredom vendo besteira na TV. É tomar um banho interminável enquanto penso na roupa que irei colocar. É deitar no chão do quarto ouvindo música e pensar em cada letra como se fosse o tema da minha vida. É escrever cartas enormes sem destinatário. É ler poesias em voz alta. É me imaginar heroína de um romance. É enumerar gastos e aquisições para quando ficar rica. É fechar os olhos e sonhar com os carinhos do meu namorado. É abrir os olhos e fazer carinhos no meu namorado. É escrever livros e rabiscos. É desenhar, pintar, recortar. É tirar tudo do armário e reorganizar. É fazer um bolo de chocolate com muita cobertura. É conversar com o meu cachorro.
Mas aproveitar o tempo, para mim, também é fazer coisas grandes. Estágio, TCC, chimarrão com os amigos. Trabalho, projetos, abraço na família. Planos, sonhos, declarações de amor para o meu amor.
Isso tudo eu celebro no dia 14 de maio. Todos os anos. Tudo de bom que acontece na minha vida. Tudo de bom que está sempre acontecendo na minha vida. Tudo de bom que se renova a cada ano e que ainda por cima cresce e se torna melhor e mais forte. O amor que me cerca, a vida que me invade, a força que me levanta a cada dia entre um 14 de maio e outro.
E o que passou, passou, não volta mais. Todo dia 14 de maio eu penso também no que faltou. No que não fiz. No que deveria ter feito. No que jamais deveria ter acontecido. Todo dia 14 de maio penso em cada minuto que perdi pensando na morte. E quantos minutos se foram aí! Todo dia 14 de maio penso em tudo que fiquei parada reclamando e deixei de ir atrás. Todo dia 14 de maio penso no turbilhão de sensações que me desnorteiam e não consigo colocar no lugar. Sensação de perda, de tristeza, de impotência, de frustração. Sensação de medo pelo futuro que pode nem existir.
Pensando bem, tudo isso acontece também no dia 14 de maio. Porque isso tudo sou eu, diariamente eu. E nessa data do ano, em especial, fico ainda mais eu, ainda mais embriagada de mim. Fico de porre de mim. Para o bem e para o mal. Para o que der e vier. Canto Camila é uma boa companheira e sigo cambaleando até o próximo aniversário.

quarta-feira, 10 de maio de 2006

CRASH
Crash, o filme. Crash, a batida. Acho que andei provocando muito os deuses, ultimamente. Reclamando da vida, das dificuldades do estágio, das incertezas do trabalho, da carência emocional, do medo de crescer sem nunca admitir que já estou bem grandinha, dos sobressaltos do coração que não me deixam enxergar as coisas nitidamente, do inferno astral que eu não acredito, mas vivo... Enfim, reclamando, reclamando, reclamando e chorando muito entre uma reclamada e outra.
Então, crash.
Parados na sinaleira, sinal vermelho, domingo de manhã. Conversas amenas, solzinho gostoso, carinhos, preguiça por ter acordado cedo. Sem expectativas maiores do que aquele domingo, do que a semana que se estenderia até o próximo encontro. E de repente, crash. Uma caminhonete se arremessando contra o nosso carro. O barulho infernal do metal esmagado, do vidro estilhaçado, do meu grito. A traseira destruída. Uma batida de cabeça. Um desespero nunca antes experimentado.
Não me lembro de algum dia ter sentido tanto medo. Coloquei as mãos na cabeça e não queria olhar o machucado por medo do sangue, não queria abrir os olhos por medo de me descobrir morta, não queria de maneira alguma olhar para o lado e ver o Caio machucado. Eu só soube gritar: "Tu tá bem? Tu tá bem?" E ele não respondia, ele não falava, ele levou talvez um segundo eterno para me tirar do limbo em que já estava mergulhada. Crash e toda a minha vida que ainda nem vivi passou pela minha cabeça. Crash e nunca nada teve tanta importância quanto ouvir a voz do Caio. Crash e não havia mais chão seguro para eu pisar.
Em Crash, o filme, vemos que a velocidade da vida fatalmente, em algum momento, nos fará perder o controle. Alguém diz, durante a história, que nunca saberemos realmente quem somos. A vertigem do viver nos impede de conhecermos a nós mesmos. Não há tempo. Não há vontade. Não há interesse. A nossa verdade nos interessa tanto quanto os outros nos interessam: nada ou quase nada e, além do mais, sempre temos algo mais importante para fazer nesse momento. Para conhecermos a nós mesmos, só quando somos induzidos, empurrados, arremessados... Crash.
Tudo o que eu penso hoje e a cada dia desde domingo é que poderia ter sido muito pior. Tantas coisas horríveis poderiam ter acontecido! Crash e não haveria mais nada. Crash e tudo acabado no meio de uma reclamação. De uma grande e interminável reclamação.
E esta teria sido a minha vida?
Felizmente não aconteceu nada no acidente. Um pequeno galo e um enorme susto. E, é claro, uma repensada na vida. Uma boa repensada na vida. Afinal, alguém escolheu esse jeito para dizer: "Calma, Camila. As coisas não estão tão ruins assim".

arquivos abril 2006

quinta-feira, 20 de abril de 2006
SER QUEM SE É
Às vezes o que somos dificulta o nosso viver. Quando não conseguimos falar em público, procurar um novo e melhor emprego, pedir desculpas. Quando nem querendo sai da garganta a opinião embargada, a raiva engolida, a vontade de gritar. Tem vezes que o que somos atrapalha tanto a nossa vida que dá vontade sair chutando tudo, inclusive a gente. É muito difícil ser o que somos quando o que somos nos impede de ser o que gostaríamos.
Já pensei em processar a minha pessoa por maus-tratos. Nunca vi alguém tão cruel. Nas horas em que mais preciso coragem para tomar atitudes, ela paralisa, trava, me impede de continuar. É eu ter que falar umas verdades - as minhas verdades - para tudo embolar e nem o cérebro funcionar direito. Se surgir uma discussão, então... O que sai são lágrimas e elas não vão longe, pois as bebo de volta antes de alcançarem a vida lá fora. E ainda tem a parte sentimental da coisa. Família, amigos, namorado... Aí sim, é um pega pra capar. Nada acontece como deveria acontecer e acabo sendo para eles justamente o oposto do que queria ser. Ou parecer. É judiaria me deixar assim, tão à mercê do mundo! Eu queria, pelo menos de vez em quando, abandonar o que sou e me tornar o que imagino que seria certo ser, bem daquele jeito que aparece nos filmes: lutadora, decidida e forte, forte o suficiente para protagonizar qualquer saga. Não... Na verdade, sou daquelas que engasgam na hora do vamos ver e ficam lá, com as bochechas vermelhas, os olhos embargados, imaginando o que poderiam ter feito... O que poderiam ter sido...
Sei que tudo isso não passa de fantasia. Não sou frustrada nem passo as noites chorando pelos dias. É uma dor que dá de vez em quando. Uma dor forte, mas tem um lado bom: ela move. Quando eu menos imagino, mudei. Quando eu me dou conta, estou um pouco mais calma, mais segura, mais confiante. Em determinadas ocasiões, olha só que coisa, eu até sou mais eu. Nada como um dia após o outro. Nada como viver, pois a vida é assim. Ela circula, ela dá voltas, ela ensina, ela ironicamente repete situações para que possamos balançar a cabeça sorrindo e pensando: "desta vez, vai".
Ah, vai.

quarta-feira, 12 de abril de 2006

O QUE TRAZES PRA MIM?
É claro que já comprei os chocolates para a Páscoa! Seja lá o significado tradicional ou comercial disto, eu amo chocolates. Comer um chocolate é um momento de puro prazer que renovo a cada dia. Sim, a cada dia. Sou chocólatra assumidíssima. Vício que não escondo nem me envergonho. Fazer o quê! Sou completamente louca por chocolate. Se alguém quer me fazer feliz, já sabe, dê-me chocolate. Há os que já conhecem minha fraqueza e a utilizam como instrumento de chantagem (né, Caio?). Pedir desculpas não funciona comigo; já um bombom Alpino faz com que eu assuma todas as culpas da humanidade. Dizer que me ama me faz feliz; dizer que me ama acompanhado de uma trufa me faz subir ao céu, abraçar Deus e voltar flutuando.
Eu não via a hora de comprar os chocolates para a Páscoa. Eu também amo dar chocolates. Quer coisa mais carinhosa? Chocolate no friozinho dessa época, na cama, domingo, vendo bobajadas na tv. Quer coisa mais querida? Chocolate significa "ei, quero que você tenha um minuto perfeito agora, quero que você relaxe e não pense em mais nada, apenas nessa coisa gostosa se desmanchando na sua boca, apenas nessa coisa maravilhosa que vai te animar pelas próximas horas, quem sabe pelo resto do dia". Chocolate significa "puxa, olha, mal sei como dizer o quanto eu gosto de você". Chocolate significa um abraço daqueles apertados e fortes que a gente quase sempre esquece de dar.
O meu amor adora chocolates tanto quanto eu. Um "vamos passar no super para comprar um chocolate?" é o nosso equivalente a "vamos jantar num restaurante maravilhoso?" ou "olha o anel de diamantes que comprei para você". Comer chocolate juntinhos é o nosso ritual, é a nossa festa, é o nosso evento que não nos cansa, que jamais faltamos, que é sempre uma surpresa e uma delícia incomparáveis. Devorar a dois uma barra de Hershey's é a bandeira branca de nossas eventuais guerras, é o código morse de nossas ocasionais faltas de comunicação, é o sinal de que o caminho está livre para a paz. Lambuzar os dedos, dar na boquinha, beijar doce... É sempre Páscoa no nosso namoro, é sempre renascimento, é sempre pára tudo e vem comer um chocolate comigo, não pode haver nada lá fora que bata esse gozo, não há diferença entre nós que supere essa comunhão, não há nada no mundo mais gostoso do que sorver quadradinho por quadradinho o nosso amor.

terça-feira, 11 de abril de 2006

Quero Esquecer Você
Jorge Ben - 1963
Quero esquecer você
Mas não consigo porque
Por você me enfeiticei
Por você me enamorei
Sei que não devo
Querer você tanto assim
Pois esse desejo
É proibido para mim
Mas foi aquele beijo
Sem querer
Que você me deu
Que o meu amor
Por você nasceu
Que o meu amor
Por você nasceu

- novo velho disco da nossa vida: Samba Esquema Novo -

Alguém sabe dizer por que não se fazem mais coisas como antigamente? Sem querer ser uma chata saudosista, com "saudades dos velhos tempos", mas por favor, escutem esse disco e tentem responder por que é mesmo que não se fazem mais coisas como antigamente...
Tão boas, tão simples, tão deliciosas, tão surpreendentes a qualquer tempo.
Trilha sonora perfeita para um amor... porque é mais ou menos assim que o amor deve ser !
não se nasce mulher, torna-se mulher [simone de beauvoir]